Carmen Navarro
Já lá vai algum tempo em que numa dessas tardes, vadiei sonolenta pelas ruas de Viana do Castelo, são duas ou três horas, o vento borrifava-me o rosto de gotículas de chuva. Distraidamente olhava fatos insignificantes, atrás de mim ficava o riso das crianças e mulheres de cabelo loiro, enfrente Santa luzia no meio de montes de um verde luxuriante, em seu redor o arvoredo que a separa da cidade, onde os poetas devaneiam brincando com as palavras que nos transmitem sentimentos. Por estas paragens o Poeta maior e folclorista, injustamente esquecido, Pedro Homem de Mello, nos transmite a sua paixão por belezas tão inspiradoras.
Havemos de ir a Viana
Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento.
Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia,
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.
Ciganos, verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta.
PHM
Olho o azul do Rio que uma ligeira névoa tal como um biombo suspenso no ar deixa o azul desmaiado, o Sol não brilhava mas outro brilho com a cor do Sol encontrei. Quando fui visitar o Museu do Traje, onde se exibe toda a beleza da mulher de Viana. Os trajes únicos que são de tecelagem caseira e a beleza graciosa das mensageiras do ouro.
Ouro de Viana
Em dia de festa, o ouro pelo peito das mordomas é praticamente “obrigatório”, variando apenas a quantidade, pelo que ficou célebre o título de “chieira”, (Termo também usado também no Porto) ou orgulho. Em Viana até nossa Senhora veste de lavradeira. O ouro, antigamente, era a segurança social das famílias. Essas peças de ouro vão passando de geração em geração, fabricadas por artesãos que transformam delicados fios de metal em arte.
As peças de ourivesaria popular de Viana, incorpora nas suas formas os estigmas dos amuletos, as crenças e as heranças míticas tradicionais do Minho. Em determinadas solenidades, as mulheres de Viana usam os brincos ou arrecadas, três cordões ao pescoço, um trancelim, um fio de contas, uma custódia, uma laça e quando a vianesa pertencia a um escalão económico superior, exibia ainda a sua bela gramalheira.
A filigrana portuguesa representa maioritariamente a natureza, a religião e o amor; o amor, claro, é a inspiração de todos os corações em filigrana
O peito da minhota é um céu estrelado e o seu povo é garboso da sua terra.
A minha terra é Viana!
Sou do monte e sou do mar.
Só dou o nome de terra
Onde o da minha chegar!
Ó minha terra vestida
Da cor da folha da rosa!
Ó brancos saios de Perre
Vermelhinhos da Areosa!
Virei costas à Galiza;
Voltei-me antes para o mar…
Santa Marta! Saias negras
Têm vidrilhos de luar!
Dancei a Gota em Carreço,
O Verde Gaio em Afife
Dancei-o devagarinho
Como a lei manda bailar!
Virei costas à Galiza;
Voltei-me então para o Sul…
Santa Marta! Saias Verdes…
Deram-lhe o nome de azul…
A minha terra é Viana
São estas ruas estreitas
São os navios que partem
São as pedras que ficam.
É este sol que me abrasa,
Este amor que não me engana,
Estas sombras que me assustam…
A minha terra é Viana.
PHM
Belíssimos os adereços de Ouro do Minho. As arrecadas de Viana ou argolas filigranadas, os brincos de princesa e as mais modestas Contas que se enfiam num fino fio, antes do famoso e desejado cordão de muitas voltas. O fio de contas ia até ao meio do pescoço ligadas por um fio de correr. Podia aumentar ou reduzir o colar consoante a necessidade e este terminava na parte de trás com um “pompom”.
Este fio era tecido e enrolado pela própria, são contas que se vão comprando uma a uma conforme os rendimentos dos ovos e da horta vão permitindo. Riqueza transbordante encontramos nos belos lenços de namorados que vão sendo bordados aos serões com palavras de amor para o conversado escolhido.
Canção à Ausente
Para te amar ensaiei os meus lábios…
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!
Para tocar-te ensaiei os meus dedos…
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio…
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
E a vida foi passando, foi passando…
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.
A vida foi passando, foi passando…
E nunca mais vieste!
PHM
Durante um par de horas esqueci o mundo embalada por tanta beleza. Passear no Minho é quase como uma viagem maravilhosa no tempo e o anoitecer se aproximou, e o vento continuou a borrifar de gotículas de chuva meu rosto…
Poemas: Pedro Homem de Mello (PHM)
Fotos : cedidas pelo Dr. Manuel Rodrigues de Freitas em Maio de 2011
01ago18


