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RUI MOREIRA: “O PORTO (QUE JÁ TEVE SAUDADES DO FUTURO) NÃO SE PODE ESTRANGEIRAR E SER UM PARQUE DE DIVERSÕES…”

A Casa do Roseiral, aos jardins do Palácio de Cristal, foi, uma vez mais, e desta feita na tarde do passado dia 09 de julho, palco para a Cerimónia de Imposição de Medalhas da Cidade, isto na presença das mais altas individualidades do Porto. Rui Moreira presidiu juntamente com o responsável máximo da Assembleia Municipal, Miguel Pereira Leite, à cerimónia, ladeado pelos membros do executivo camarário.

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Uma tarde fresca, com a “romântica” e caraterística – mas não prevista – neblina que faz do Porto uma cidade singular, recebeu as centenas de convidados, com realce para os 22 dos 23 distinguidos com as Medalhas da Cidade, uma vez que o presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, já tinha sido distinguido e lhe entregue a Medalha de Honra da Cidade, no passado dia 12 de maio, como oportunamente este jornal noticiou.

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José Gonçalves                      Pedro Abreu

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Na tenda, montada para a cerimónia, os “holofotes” viraram-se para o cantor e compositor Rui Veloso que acabaria por ser distinguido com a Medalha de Honra da Cidade. Mas outras personalidades, mais ou menos conhecidas, subiram ao “palco da meritocracia” para receberem ora das mãos de Rui Moreira, ora das de Miguel Pereira Leite, as medalhas que perpetuarão os seus feitos em prol de um Porto que, precisamente a 09 de julho, mas de 1832, iniciava a sua libertação liberal através das forças superiormente lideradas por Dom Pedro IV quando as mesmas entraram na cidade libertando-a do jugo miguelista, como fez recordar o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, num discurso muito (e unanimemente) aplaudido, e que abaixo reproduziremos as partes mais significativas.

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Medalha Municipal de Honra da Cidade

Jorge Nuno Pinto da Costa (o presidente do Futebol Clube do Porto recebeu a medalha no dia 12 de maio de 2018, nos Paços do Concelho)

Rui Veloso – O “pai do rock português” tem na música o Porto. Com 15 anos, influenciado pelos Blues e por nomes como Eric Clapton, Bob Dylan e B.B. King, começou a tocar e formou a sua primeira banda, a Magara Blues Band. Em 1979 assinou contrato com a editora Valentim de Carvalho, iniciando a gravação de temas icónicos da música portuguesa, com Carlos Tê, como “Chico Fininho”, que viria a integrar o álbum de estreia “Ar de Rock” (1980). Ao longo da sua carreira somou inúmeros prémios, inclusive vários Globos de Ouro e a nível internacional o “Best Portuguese Selling Artist” na gala World Music Awards.

Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro

Fernando Gomes – Licenciado em Economia, começou a sua atividade como dirigente desportivo no Futebol Clube do Porto, onde fora basquetebolista. Presidiu, aliás, à Liga de Clubes de Basquetebol na década de 90. Em junho de 2010 assumiu a presidência da Liga Portuguesa de Futebol e, em dezembro desse ano, a presidência da Federação Portuguesa de Futebol. Foi, pois, sob a sua presidência que a FPF apresentou a candidatura do Porto à receção da Supertaça Europeia em 2020, com sucesso.

Isabel Barros – Coreógrafa, intérprete, programadora e formadora fundou o Balletteatro, escola artística de referência na cidade. Desde 1992, tem apresentado regularmente os seus trabalhos, que já são incontornáveis, e participado em coproduções com instituições como o Teatro Nacional São João, Rivoli, ou Teatro Constantino Nery. É, também, desde 2010, diretora artística do Teatro de Marionetas do Porto e do Museu das Marionetas.

Luís Artur Ribeiro Pereira – Licenciado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, exerceu funções em empresas e foi consultor de gestão de diversas PME. Ligado desde novo ao movimento associativo, foi dirigente estudantil e de várias associações humanitárias e de solidariedade social. Na vida autárquica, foi líder do grupo parlamentar do PSD, na Assembleia Municipal do Porto, e vereador da Câmara do Porto. É representante do Município no Conselho Fiscal da Associação Amigos do Coliseu do Porto.

Artur Ribeiro – Já no quinto mandato como deputado municipal pela CDU, foi antes líder da bancada da CDU e membro do Conselho Municipal de Segurança. Até 2001 foi vereador da Câmara de Matosinhos e vogal do Conselho de Administração dos SMAS, entre outros cargos. Tem uma grande experiência política e autárquica e uma ativa participação no movimento associativo desportivo e empresarial.

Gustavo Pimenta – Licenciado em Direito no Porto, foi deputado na Assembleia da República pelo Partido Socialista. Atualmente é membro da Assembleia Municipal do Porto, líder do grupo municipal do PS e docente no Instituto Politécnico da Maia. É autor de várias obras de Direito, ficção e poesia. O seu último livro, “A Sorte de ter Medo”, foi lançado em 2016 nos Paços do Concelho.

José Castro – Advogado de profissão, foi entre 2003 e 2017 deputado da Assembleia Municipal do Porto pelo Bloco de Esquerda, tendo sido líder da sua bancada parlamentar.

Rosário Gamboa – Primeiro vice-presidente e depois, de 2010 a 2018, presidente do Instituto Politécnico do Porto, é licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutorada em Filosofia pela Universidade do Minho. Ao longo do seu extenso currículo, desempenhou funções relevantes no ensino politécnico universitário, na academia, na investigação, na cultura e na ação cívica.

Gomes Fernandes – Arquiteto, doutorado em Urbanismo e Professor Universitário, foi vereador do Urbanismo e Reabilitação Urbana da Câmara do Porto; presidente da Secção Regional do Norte da Associação dos Arquitetos Portugueses (precursora da Ordem); dirigente do Comissariado para a Reabilitação Urbana da Área Ribeira-Barredo; deputado à Assembleia da República; secretário de Estado do Ordenamento e Ambiente. Sócio fundador de várias associações cívicas e culturais, é militante do PS há mais de 40 anos. Tem vários livros publicados, mantém uma coluna quinzenal no JN e colabora no jornal “As Artes entre as Letras”.

Fernando Araújo – Licenciado e doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, foi diretor do Serviço de Imuno-hemoterapia do Centro Hospitalar de S. João até novembro de 2015, sendo desde essa data Secretário de Estado Adjunto e da Saúde. Presidiu ao Grupo de Trabalho conjunto entre a Câmara do Porto e ARS-Norte (2013-14) que elaborou a Carta dos Equipamentos de Cuidados de Saúde Primários da Cidade do Porto. É coautor em mais de 200 artigos científicos.

Benilde Caldeira – É uma das trabalhadoras marcantes da história da Câmara do Porto desde 1985. Iniciou funções como auxiliar técnica, tendo depois passado para o departamento de Fiscalização. Foi membro da Comissão de Trabalhadores entre 2004 e 2009, e foi também delegada sindical do STAL.

Paulo Patrício – Licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, é um reconhecido consultor jurídico no domínio do Direito Internacional de Transportes. Foi cônsul da República Democrática de São Tomé e Príncipe, país que lhe concedeu a nacionalidade pela relevância dos serviços prestados. É presidente honorário da Associação do Corpo Consular do Porto, à qual presidiu várias vezes. É membro de diversas organizações de caria humanitário.

Centro Cultural Desportivo da Câmara Municipal do Porto – Esta associação sem fins lucrativos, de utilidade pública, responde às necessidades e expectativas dos seus associados, uma imensa “família” formada por trabalhadores da Câmara do Porto e da comunidade em geral. A vontade de servir e defender os interesses dos seus associados tem sido o traço característico dos seus sucessivos órgãos de Direção.

Joaquim Pinto – Há quatro décadas que se dedica ao cinema, como realizador, produtor e engenheiro de som. Os seus filmes têm sido apresentados e premiados nos maiores festivais internacionais da sétima arte. Iniciou-se na realização com a longa-metragem “Uma Pedra no Bolso” (1988). “Rabo de Peixe”, “Porca Miséria” ou “E Agora? Lembra-me” (duplamente premiado em Locarno) são alguns dos documentários que co-realizou com Nuno Leonel.

Júlio Roque – É diretor da Escola Profissional de Tecnologia Psicossocial do Porto e coordenador técnico do Centro de Respostas Integradas do Porto Ocidental. Antes, foi diretor do Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência. Fundou e dirigiu a Associação Solidariedade e Ação Social de Ramalde.

Movimento Democrático das Mulheres – Fundado em 1968, é uma associação não-governamental portuguesa de mulheres cujas raízes se encontram nos antigos movimentos femininos. Hoje em dia, o MDM assume-se como movimento de opinião e de intervenção que valoriza o legado histórico dos movimentos de mulheres que lutaram contra a opressão e as desigualdades, defenderam e defendem os direitos das mulheres nas suas múltiplas vertentes.

Vítor Ranita – Foi dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos e respetiva federação; membro do Conselho Nacional e da Comissão Executiva da CGTP-IN; e coordenador da União dos Sindicatos do Porto. Foi vereador e deputado municipal na Câmara do Porto, bem como deputado na Assembleia da República. É autor do livro “Obreiros da Nossa História: os Metalúrgicos”.

César Príncipe – Especializou-se em Jornalismo Político, mas é também um divulgador da Cultura. Em órgãos de informação regionais e nacionais, imprensa (sobretudo como redator principal do Jornal de Notícias), rádio e TV, promoveu as Artes Plásticas Portuguesas. Marcou a Crítica de Arte e participou com textos em espetáculos da Seiva Trupe. No campo cívico, empenhou-se no combate democrático.

Suzana Ralha – Formada no Conservatório de Música do Porto e há largas décadas ligada ao ensino musical, a experiente docente é cofundadora do “Bando dos Gambuzinos”, uma “casa-escola” formada em 1973 onde se privilegia o contacto com a arte e a interligação entre as diferentes disciplinas. Foi coordenadora do departamento educativo da Casa da Música entre 1999 e 2004.

Medalha Municipal de Valor Desportivo – Grau Ouro

Pedro Matos Chaves – Referência no automobilismo, foi piloto profissional durante 25 anos, somando múltiplas vitórias ao longo da sua carreira. Venceu o campeonato português de Fórmula Ford, foi vice-campeão do campeonato britânico e venceu também o campeonato britânico de fórmula 3000. Deixou a sua marca no desporto automóvel, passando pelas modalidades de Fórmula 1, Indy Lights, Fórmula Ford, Karting, Ralis, GTs e Todo-o-Terreno.

Medalha Municipal de Bons Serviços – Grau Prata

José Guerra – Formado em Arquitetura, integrou a Divisão de Museus e Património Cultural do Município em 1991. Desde então, tem demonstrado uma exemplar competência e dedicação à cidade, revelando no exercício das suas funções um espírito singular de iniciativa e missão de serviço público.

Paula Escaleira – Há quase duas décadas a exercer funções na Casa do Roseiral, já confecionou milhares de refeições, muitas delas para os mais altos cargos mundiais, onde se incluem monarcas e presidentes da República, chefes de Governo, governadores e muitos outros. Em todas as iniciativas há uma característica comum: a qualidade do que é confecionado e o seu reconhecimento por todos.

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RUI MOREIRA: “NO INÍCIO DESTE SÉCULO O PORTO ESTAVA MUITO, MUITO, DOENTE!

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A finalizar a cerimónia, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, fez um discurso que acabou por seu aplaudido, não só pelos convidados e medalhados, mas também por representantes de outras forças político-partidárias.

“E a nossa forma um tanto liberal que nos leva a que a escolha dos homenageados não seja feita por um presidente de câmara ou por uma comissão: a escolha resulta da coordenação de todas as forças representadas no Executivo e na Assembleia Municipal, fazendo que as propostas de uns possam ser, no final, a resolução comum”. Estava dada a explicação quanto aos critérios de escolha dos nomeados às medalhas meritocráticas distribuídas, anualmente, e neste caso, uma vez mais, na Casa do Roseiral, por parte de Rui Moreira.

Rui Moreira que na sua intervenção fez, por assim dizer, um “Discurso da e para a Cidade”…

“Quando daqui a umas décadas, assente que esteja a poeira de hoje e dissolvida a espuma dos dias, quando então se fizer a história destes anos, não se deixará de reconhecer que este foi um período em que o Porto mudou muito. E, como sempre sucede quando uma cidade sofre de uma aceleração brusca, concluir-se-á que tudo o que se ganhou foi, porventura, à custa de alguma coisa que se perdeu. Foi assim com os Almadas, foi assim em finais do século XIX”.

“Temos bem a consciência”, continuou Moreira, “que para além dos grandes desígnios há, também, o cidadão comum, tantas vezes vulnerável, tantas vezes carenciado, tantas vezes incompreendido, tantas vezes a braços com angústias e aflições. Sei tudo isso. Mas também sei que se nada fizesse, se nada mudasse, o tempo encarregar-se-ia de aumentar os problemas, sem qualquer benefício ou contrapartida. E, olhando a cidade e as suas exigências futuras não posso é prender-me a uma visão romântica e arqueológica que facilmente ilude a realidade”.

No início deste século, a cidade estava muito, muito, doente. Basta recordar o que sucedia, então, no Centro Histórico do Porto, apesar de elevado a Património da Humanidade. Ou lembrar a realidade de Campanhã, sempre esquecida, e que temos tentado inverter”, recados de Rui Moreira a certos responsáveis pelos destinos da cidade em tempos idos, salientando ainda que, na altura – e não lá vai muito tempo – “tínhamos uma cidade exausta e abandonada, em que havia terríveis bolsas de pobreza e exclusão. Uma cidade envelhecida, esboroada em decadência e um acelerado processo de desertificação no seu centro. Hoje a cidade está diferente!”

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E o presidente da Câmara Municipal garante que “o Porto estará mais diferente dentro de alguns anos, quando os projetos que temos em curso foram concluídos e amadurecerem, criando as suas externalidades. Projetos consensuais, porque eram há muito reclamados e prometidos, e só não haviam sido concretizados por falta de recursos e por falta de capacidade política para os implementar. Projetos menos consensuais, outros, porque é inevitável que assim seja, mas ainda assim amplamente discutidos”.

E o Rui Moreira alerta para o facto que “esta transformação não atenuará, só por si, os desequilíbrios sociais. Haverá, por isso, quem não possa entusiasmar-se com a mudança. Mas, aqueles que temem estes impactos, que gostariam que tudo ficasse na mesma, que o Porto se transformasse numa memória histórica com cultura de subúrbio, esses não serão certamente capazes de demonstrar que melhor seria se tudo ficasse na mesma. Tanto mais que não teria ficado, porque não se podendo congelar a cidade numa cápsula do tempo, ela continuaria a murchar”.

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Sim, houve um tempo em que o Porto teve saudades do seu futuro. Hoje o Porto pode viver com a inevitável e salutar saudade do seu passado, mas pode mitigar essa nostalgia com a esperança do seu futuro. Hoje, o Porto tem um desígnio próprio, que motiva os cidadãos, que recuperou o seu orgulho.

Continuando, o presidente da Câmara Municipal do Porto, salientou ainda outros factos: “este Porto não pode esquecer as suas tradições. O Porto não se pode estrangeirar. Mas isso só sucederia se, porventura, nos estivéssemos resignado. A aposta continuada e sistemática na Cultura – democratizada e acessível – garantirá a resiliência e a diferenciação da nossa sociedade, e fará com que a cidade continue a ser diferente, utilizando as suas características e as suas tradições como ponto de partida, e não como ponto de chegada”.

Garante ainda Rui Moreira que “o Porto não será um parque de diversões. Porque não o queremos, nem vamos construir essas diversões. O Bolhão, o Rosa Mota, o Terminal Intermodal, o Matadouro Municipal, o Parque Oriental, um Teatro Municipal, uma nova ponte não são diversões. São projetos pensados para nós, para quem aqui vive ou trabalha, para quem cá venha também. Não são gentrificadores: bem pelo contrário, são projetos dirigidos aos nossos cidadãos; são projetos que farão do Porto uma cidade mais confortável e interessante. Uma cidade sustentável.”

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“Só uma cidadania culta e exigente pode garantir que a nossa sociedade é capaz de vencer os desafios que se colocarão nos próximos anos. Uma exigência que não deixaremos de colocar, também, sobre a governação do País, reclamando o justo quinhão a que temos direito, e que tantas vezes nos tem sido sonegado pelo centralismo absurdo. Compreendemos que somos incómodos quando protestamos, quando denunciamos. Sabemos tudo isso. Mas, não se enganem, não nos deixaremos abater. Não nos conquistarão com os cantos das tágides. Não nos contentarão com elogios, nem nos vencerão pelo cansaço.”

“O Porto”, ainda segundo Rui Moreira, “não tem complexos nem quer ser capital de coisa nenhuma. Quer, apenas, que lhe seja reconhecido o estatuto a que tem direito: ser uma cidade capaz de concorrer com as suas congéneres europeias, assumindo as competências que o Estado central pode e deve descentralizar-se, de acordo com a Constituição da República, recebendo para isso aquilo que é justo e a que tem direito. E não deixará de assumir encargos que lhe caibam sempre que estiver em causa a solidariedade tão necessária, sempre reclamada e nunca concretizada, para que seja realizada uma justa coesão territorial”.

“Mesmo quando nos sentimos cercados, como estivemos depois desse nove de julho de 1832, sabemos que, no final, venceremos. E, tal como então, seremos capazes de fazer com que esse triunfo resulte num benefício não apenas para as nossas gentes, mas também para o todo nacional”, concluiu Rui Moreira, brindado, que depois foi, pelos aplausos de todos os presentes.

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