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Um gato à janela sobre a cidade…

Fernanda Ferreira

O Teco era um gato grande e felpudo, daqueles que enchia tudo de pelo. A sorte é que ninguém da família tinha alergias, senão já tinha mudado de dono.

Tinha três meses quando chegou. Parecia uma bolinha tigrada duma meiguice que conquistou de imediato o coração de todos, especialmente das crianças que deliravam com as suas travessuras, mas mesmo agora, já com seis anos, todos o continuavam a acarinhar e mimar.

Poderia dizer-se feliz pela maneira como era tratado, mas passava a maior parte do tempo deitado na sua almofada, sozinho, indolente e triste, porque toda a família saía de manhã e só regressava à noite.

Um dia resolveu sair do seu cantinho cómodo e almofadado, percorreu dengosamente o espaço do apartamento e dirigiu-se para as escadas de acesso do piso superior do duplex.

Pensou em desistir, mas subiu todos os degraus, embora lhe parecessem ser o caminho mais longo do mundo.

Já no piso superior saltou para o móvel que estava encostado a janela e … não conseguia acreditar… Que linda vista sobre a cidade!

Os seus olhos brilharam de alegria. A vista era tão magnífica que quase que parecia ter sido criada para cenário de filmes, daqueles que conseguia desinteressadamente ver pelo canto do olho, quando todos estavam a ver televisão.

Mas este era real e foi a descoberta mais importante que tinha feito na sua vida.

Daí em diante poderia ver o movimento dos carros, das pessoas que pareciam formigas atarefadas e a agitação ou quietude dos ramos das árvores e do rio. As casas eram altas e descaraterizadas, mas pelo meio havia zonas de pequenas vivendas familiares, com bonitos jardins que as alegravam e coloriam.

Melhor seria se conseguisse fugir de casa, mas dum 4º andar era difícil. Tinha de contentar-se em ficar a observar tudo com muito interesse, entretendo-se no tempo morto enquanto a família não estava em casa, coisa de começou a fazer diariamente.

Uma noite quando todos estavam deitados, subiu a escada, saltou para o móvel e foi espreitar pela janela.

gato a janela

O impacto foi tão grande que quase caiu de surpresa. Tudo era luzinhas. Luzes nas ruas, nos prédios, na ponte sobre o rio e no céu; nem podia explicar como era possível.

Um bilião, ouviu os donos dizer, de luzinhas cintilantes e uma luz branca maior, redonda e bela, que parecia quase capaz tocar no cimo das casas mais altas.

Como é que conseguiram pendurar tudo lá em cima no céu? Deviam ter sido os bombeiros com aquela escada que crescia muito, pois se não foram eles quem teria uma escada tão alta para o fazer?

Pensando bem, aonde foram buscar tantas luzes? Não, espera … as crianças comentaram que se chamam estrelas e lua, mas que foi Deus quem pendurou tudo. Dizem que Ele está lá em cima. Deve ter-se debruçado muito para as pendurar…!

-Podia ter caído!

Se calhar foi de para-quedas ou de avião, mas não ouvi nenhum a passar.

Seja como for, teve muito trabalho e ficou maravilhoso. Não me canso de olhar. Tenho de vir todos os dias ver.

E assim foi. Desde essa altura os olhos do Teco ganharam um brilho especial, o brilho próprio de quem está feliz. Até os donos o notaram diferente, com mais vitalidade e brincalhão.

Durante o dia ia para a janela ver a beleza da cidade e à noite voltava para namorar a lua e as estrelas.

Mesmo na altura da chuva, em que as nuvens as encobriam, ele subia todas as noites, procurando perceber porque Deus tinha apagado as estrelas do céu, mas nunca mais ficou desanimado e triste, porque nas ruas, nas casas e automóveis também existiam pequeninas estrelas, com que se entretinha e lhe iluminavam a alma.

Agora podia dizer que tinha encontrado um sentido para a sua vida. Era um gato feliz e fazia felizes os donos.

01ago18

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