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MUSEU DE OVAR: A DEDICAÇÃO DE LEONOR E LURDES PARA PRESERVAR O FASCÍNIO QUE PRENDE OS VISITANTES…

Numa referência ao Museu de Ovar feita pelo escritor José Saramago no seu livro “Viagem a Portugal” (1981), que resultou do convite que lhe foi feito pelo Circulo de Leitores para percorrer o país, o que veio acontecer entre outubro 1979 e julho de 1980, ficou o testemunho na primeira pessoa, que o viajante achou tão fascinante este Museu, que, “tem por si só, um encanto particular”.

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Primeiro, não é um museu, é um guarda-tudo”, escreveu Saramago a propósito da relação do Museu de Ovar com a comunidade que ali confia a guarda de elementos da cultura popular, que as técnicas Leonor Silva e Lurdes Soares continuam a ser as guardiãs de tal património que representa o vasto espólio, independentemente dos bons e menos bons momentos da sua gestão, nos últimos meses marcada pelos inevitáveis reajustamentos ao calendário de exposições na sequência dos problemas de saúde que obrigaram o diretor Manuel Cleto a ser substituído no cargo pelo seu vice Ismael Varanda, ou até, recordando o período em que o Museu esteve quase um ano fechado para obras e estas funcionárias polivalentes foram determinantes na sua reabertura em junho de 2001, com uma exposição de cerâmica.

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José Lopes

(texto e fotos)

Trata-se de uma característica muito peculiar e identitária, desta Instituição de Utilidade Pública que é razão para a diversidade do património cultural e artístico que compõe o seu espólio ao longo destas quase seis décadas de existência, fazendo jus ao espirito dos seus fundadores, como José Augusto de Almeida, que transmitiu toda a sua paixão e amor a esta causa, a Leonor Silva e Lurdes Soares que vêm assumindo com coragem, competência e muita e reconhecida dedicação, todo o mesmo amor e paixão às exigentes tarefas de catalogação, preservação, conservação e múltiplas atividades para com dignidade receberem visitantes como guias e divulgarem as múltiplas coleções que elas próprias cuidam e conhecem como ninguém.

Tal como referiu José Saramago há cerca de quatro décadas, num texto exposto em grande plano, que faz parte do roteiro interior de visitas ao Museu de Ovar, ali se “arruma como pode um recheio onde se juntam o banal e o precioso, a rede de pesca e o bordado, o instrumento agrícola e a escultura africana, o Trajo e o móvel, os quadrinhos de conchas e escamas de peixe ou os bordados a cabelo”. E como também realça o escritor que viria a ser consagrado Prémio Nobel da Literatura (1998), “tudo isto junta numa forma singular de homogeneidade: o amor com que foram reunidos todos os objetos, o amor com que se guardam e são mostrados”. Um amor com que apenas duas técnicas persistem em dar a uma realidade cujo volume de peças do espólio registadas é já muito superior, arrumadas como podem, mas rigorosamente guardadas e identificadas, face às limitadas instalações.

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Como escreveu ainda José Saramago, “O Museu de Ovar é um tesouro para quem da cultura tenha uma conceção global. Quanto ao viajante, que nessas matérias vai tão longe quanto pode, chegou a altura de confessar que em Ovar deixou uma parte do coração”. É pois este tesouro que Leonor e Lurdes se desdobram diariamente para preservar e engrandecer aos olhos de visitantes nacionais e de vários pontos do mundo, que segundo os seus dados devidamente anotados oficialmente para entidades a exemplo do INE (Instituto Nacional de Estatísticas), das mais de seis centenas de visitas (pagas e não pagas ou utilizadores) registadas no mês de julho e meados de agosto, falaram-se línguas como: mandarim; inglês; alemão; belga; francês ou espanhol, incluindo os turistas brasileiros.

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Mas como lembra esta dupla de técnicas, muito habitual é a visita de japoneses. O Japão é aliás um dos países muito representado no espólio, em que se destaca a coleção de Bonecas do Museu de Ovar dedicadas aos trajes dos vários continentes. Uma das particularidades desta coleção é estar constantemente em atualização, não só com as mais recentes ofertas sempre marcadas por curiosas histórias, que tanto a Leonor e a Lurdes guardam como verdadeiros segredos familiares. Há ainda casos em que os visitantes ao não verem representada a sua terra, região ou país, fazem questão de enviarem exemplares de bonecas típicas para enriquecerem a coleção do Museu de Ovar que já ronda cerca de mil peças.

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Leonor e Lurdes falam da coleção de bonecas com visível satisfação e paixão, tanto pela relação pessoal que têm com cada uma, com a sua preservação cuidada com muito carinho, conhecedoras da sua origem e etnografia que representam, que em alguns casos têm como origem, países igualmente representados na coleção de trajes (adultos) com todas as peças de roupa que o compõem, igualmente tratados com particular cuidado e dedicação na sua limpeza, preservação e aprofundada catalogação. Um minucioso trabalho que as técnicas aproveitam para fazer, sempre que se realizam mostras e exposições de coleções do espólio do próprio Museu. Uma oportunidade para se analisar o estado de conservação de cada peça e melhorar a sua catalogação e registo fotográfico com vários pormenores.

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A exemplo das exposições sobre trajes portugueses, “Trajes do Minho” e “Profissões”, que se mantêm até 29 de setembro, ambas baseadas no espólio do Museu, mais surpresas nesta mesma linha são possíveis proporcionar aos visitantes com recurso à admirável coleção de trajes internacionais representativos da etnografia dos vários continentes. Autênticos “tesouros” que vão sendo revelados sempre que a sala das bonecas, em séries de seis países, é renovada com novos países em miniaturas (duas vezes ao ano), ao mesmo tempo que durante este período é exposto um traje (adulto) de casal, atualmente um exemplar da Lituânia, neste caso, integrado numa série de bonecas representativas da Europa, em que se inclui também a Grécia, Polónia, Roménia, Itália e Bulgária. Um pequeno lote do total da coleção que assim também se aproveita ainda para tarefas, como lavar, engomar e a redobrada atenção com os bordados, para voltarem a serem guardados em caixinhas identificadas no caso das bonecas, e em gavetas no caso dos trajes.

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A profunda relação de Leonor e Lurdes com as bonecas e trajes regionais, começou bem cedo nas tarefas profissionais de cada uma no Museu de Ovar, quer pela significativa presença que as bonecas chegaram a ter numa sala permanente com maior espaço para acolher uma representação mais abrangente da sua coleção, como pelas exposições temporárias realizadas fora do Museu de Ovar a nível local entre outras. Mas viria a ser através dos trajes regionais portugueses da coleção do Museu, que esta dupla levou o Museu de Ovar e Portugal a terras da India em 1997.

O desafio para ir à Índia durante mais de dois meses, foi feito na altura por Oliveira Dias, num período de um certo vazio com o falecimento do diretor e fundador José Augusto de Almeida (02/05/1996), que habitualmente integrava as delegações da Instituição nas várias deslocações ao estrangeiro para representar e divulgar a cultura e a etnografia regional e nacional, nomeadamente ao Japão e Macau, entre outros países. A resposta de Leonor Silva e Lurdes Soares não se fez esperar. Assim partiram para uma extraordinária aventura que teve o apoio da Fundação do Oriente e do governo português através da Embaixada Portuguesa, para as exposições “Trajes Regionais Portugueses” no âmbito do 50.º aniversário da independência da India, cujas memórias recordam, lembrando o facto de beneficiarem de dois guarda-costas ou da visita guiada ao Ministro da Industria do governo indiano da época e a forma como foram recebidas pelo Embaixador Português, Marcelo Matias e os serviços da Embaixada, ou ainda, o jantar oferecido pelo Adido Cultural, Moura Rodrigues, com várias entidades oficiais em que participaram as técnicas do Museu de Ovar.

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Esta viagem acabaria por se dividir em duas, uma vez que compromissos familiares inadiáveis da Lurdes, obrigaram esta delegação, que tinha partido para Goa em 13 de Fevereiro, a regressar a Ovar, a 9 de março, depois da primeira exposição que se realizou no Instituto Meneses de Bragança, em Goa. A 31 de março voltaram a viajar, em rota diferente para a India, dados os imprevistos, mas a tempo de cumprirem a sua missão em representação do Museu de Ovar e do país. Entretanto as “quatro malas de porão” tinham seguido de Goa para Nova Deli, para aí, esta itinerante exposição sobre “Trajes Regionais Portugueses”, ser de novo montada por Leonor e Lurdes, tal como já tinham feito em Goa, preparando os trajes para esta segunda exposição na India, que teve lugar em “at Crafts Museum, Pragati Maidan” Nova Deli.

Como recordam as protagonistas destas viagens à India para levar bem longe o património cultural e etnográfico de Ovar e do país, já em 1996 tinham sido convidadas a representar o Museu de Ovar numa viagem que entretanto não se chegou a realizar, que demorava três meses com a exposição a passar de pais em pais, como Tailândia, Índia e Coreia do Sul.

No caso das exposições na Índia, alguns dos exemplares fazem parte das exposições que vão estar patentes no Museu de Ovar até 29 setembro. Uma oportunidade de serem apreciados trajes, nomeadamente do Minho, mas também da Beira Litoral, como a peixeira tão característica de Ovar, que fazem parte do espólio que estas técnicas continuam a dedicar a necessária atenção, mantendo vivo o espirito valorizado por José Saramago, que tanto fascina os visitantes.

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1 Comment

  1. jose lopes

    Neste final de mandato em que assumi o lugar de secretário da Direção do Museu de Ovar (2014-2018), não podia, entre muitas dezenas de trabalhos que assinei sobre a atividade e programação cultural desta Instituição, de, com a minha limitadíssima formação cultural, deixar, através do Etc e Tal jornal, este testemunho de dedicação ao Museu de Ovar, por parte desta dupla, formada pela Leonor Silva e Lurdes Soares, que durante as últimas duas décadas e meia foram e têm sido o suporte de resistência a qualquer tentativa de descaraterização deste Museu. Mantendo assim o necessário e fundamental equilíbrio, entre o seu passado e presente, no respeito pela obra construída com muita dedicação, sacrifício e sobretudo amor à cultura e às artes, bem como ao património cultural e artistico, social e etnográfico desta região (nacional e internacional), que vem sendo preservado no seu espólio.
    Fica desta forma sincera o meu profundo reconhecimento a estas funcionárias (técnicas do Museu de Ovar, nesta fase de fim de mandato, na esperança de que os eventuais candidatos às próximas eleições saibam respeitar o legado dos seus fundadores da ideia de um Museu em Ovar que começou a germinar no final dos anos 50.

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