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O Império

António Pedro Dores

Donald Trump é um pato bravo norte-americano que se entreteve a intelectualizar a brutalidade típica dos colonos americanos, necessitados de interiorizar os genocídios originais, fundadores das respectivas nações, como um traço identitário moralmente válido. Fê-lo durante anos na televisão, em programas de empresários que se colocam na posição de decisores individuais daquilo que é bom e é mau: negócios ou pessoas. É evidente, para qualquer americano, que o capitalismo não pode sobreviver sem escravos vivos. Os índios, como me ensinaram quando era criança – e francamente só recentemente me dei conta da estupidez brutal de tal afirmação – não gostavam de trabalhar. Por isso foi preciso ir buscar africanos para fazer o trabalho para os colonos. De facto, é verdade: os índios eram demasiado preguiçosos para trabalhar pois estavam entretidos a morrer das doenças com que os conquistadores infestaram as Américas (mais de 90% da população original).

O Trump é, evidentemente, uma besta. Mas é uma besta orgulhosa, que faz as delícias dos milhões de bestas. Bestas contra as quais se levantam movimentos sociais poderosos. Lembrem-se de que a palavra “socialismo” completamente banida do “país das liberdades”, fez uma entrada em força e está agora a eleger representantes para diversas posições abertas, apesar dos desgostos para o partido Democrata. A guerra civil é uma forte possibilidade. Ninguém desarma e muitos estão a armar-se. Todos com medo de morrer às mãos dos seus adversários, cada vez mais inimigos.

Os urros de Trump são tão absurdos que não correspondem a nenhum discurso que se possa contradizer racionalmente. Declarações públicas como da sua advogada, de que “a verdade não é verdade”, suscitam gargalhadas, mas sobretudo a pergunta estratégica do momento:  Trump é estúpido ou inteligente? Aquela gente quando urra faz sentido para uma parte dos norte-americanos que frequentam as redes sociais e preferem os urros à argumentação, o ódio à colaboração, a vingança ao bem-estar?

No tempo do Obama, a promessa mais sonante do recém-eleito presidente, reiterada na sua segunda eleição, o fecho de Guantamano, não foi realizada. Ninguém acredita que seja uma tarefa complicada. Simplesmente os argumentos, faz muitos anos, não dominam a política norte-americana, e portanto a política mundial.

trump alhada

Segundo um livro de Freitas do Amaral (2003), George W. Bush teria inaugurado o caminho político para o novo nazismo, que há-de revelar-se na sua pretensa omnipotência se nada for feito para o evitar. Mário Soares acompanhou-o no espaço público português. Foram tratados como velhos do “Puppets Show” pelos comentadores e editores de notícias de serviço. (Serviço a quem e a quê?).

O número de prisioneiros nos EUA, ainda que tenha vindo a descer um pouco nos últimos anos, está agora nos 1,5 milhões, a que se deve juntar o número de condenados que já cumpriram pena e não têm direito de voto como pena complementar vitalícia, e todos os outros (6,6 milhões de pessoas) com a sua vida sob custódia judicial. Directamente, é possível expulsar judicialmente os afro-americanos, ex-escravos, da vida política através de condenações que serviram, anteriormente, para os escravizar depois da abolição da escravatura (Blackmon, 2009). Agora servem para preservar o racismo eleitoral e empurrar para a miséria milhões de “cidadãos”, de todas as cores, em todo o mundo, incluindo nos EUA, esmagados pela violência imperial.

A justiça, nos últimos anos, é a justiça das prisões secretas da CIA perante as quais os estados de todo o mundo assobiam para o ar, pois estão comprometidos, como no caso da Europa. Comprometidos às claras como Erdogans, Líbias, Marrocos e quejandos para matarem imigrantes antes que possam ter a oportunidade de morrer no Mediterrâneo, à vista dos navios das ONG´s – que dão disso notícia. É a justiça velha de muitos anos de meter os migrantes em campos de detenção que frequentemente parecem campos de concentração, sobretudo em Itália, Grécia ou Espanha.

Ou a política mais suave de lhes oferecer condições de vida em locais isolados, como propôs o nosso primeiro-ministro, separados das respectivas famílias e de quaisquer hipóteses de integração social, como se faz na Alemanha. País, onde o maior partido de esquerda fora do arco da governação anunciou a sua nova política de imigração: quem defende a livre circulação de pessoas, dizem, são os imperialistas que querem fazer baixar os salários (de facto, na Alemanha, eles caíram 30% nas últimas décadas). Quem faz humanitarismo ao proteger os migrantes das dificuldades desse situação é instigado pelos interesses imperialistas que, porque são gangsters (Woodiwiss, 2005), também são traficantes de pessoas, drogas e armas.

O estados-nação, afirmou Michael Kuhn (2016), criam a ilusão que estão a trabalhar para manter e aprofundar as condições de solidariedade entre pessoas, concedendo-lhes liberdade e igualdade, e, bónus, acesso à participação nas decisões políticas. Mas é só ilusão. A nação, mostrou Anderson, é afinal, desde a fundação dos EUA, a sociedade entre os grandes empresários e os funcionários internacionais – à época, como hoje, apesar das enormes diferenças. Os escravos de então são os assalariados e presos de hoje (presos a trabalhar quase de borla são mais de um milhão; trabalhadores pobres são muito mais, nos EUA e por todo o lado). Nenhuma igualdade impedia ou impediu a escravatura, o sexismo e a exploração. É disso mesmo que se vangloria Trump, hoje, frente à sua insegura base de apoio político, disposta a morrer pelos privilégios que fez a “América grande”. O “América grande outra vez”, o slogan do presidente é um apelo à guerra, disfarçado de publicidade.

Isso é intolerável. Porque é que é tolerado?

Estarão a Europa e Portugal isentos de cuidar disto? Pode parecer que sim, para os mais desinformados e iludidos. Mas não é verdade: na Europa a aliança política Putin-Trump faz os seus investimentos – pelos vistos também à esquerda. Mário Soares já morreu e Freitas do Amaral já falou.

Referências:

Benedict Anderson, 1998, Imagined Communities, London & NY, Verso.

Diogo Freitas do Amaral, 2003, Do 11 de Setembro à crise do Iraque, Lisboa, Bertrand.

Michael Kuhn, 2016, How Social Sciences Think the World Social, Stuttgart, Idibem.

Michael Woodiwiss, 2005, Gangster Capitalism: The United States and the Global Rise of Organized Crime, London, Constable.

Douglas A. Blackmon, 2009, Slavery by another name : the re-enslavement of black Americans form the civil war to World War II, NY, Anchor Books.

Nota: Por vontade do autor e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Foto: pesquisa Google

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