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Furadouro – “FESTAS DO MAR”: QUANDO A TRADIÇÃO SOBREPÕE-SE A QUASE TUDO…

Com um programa de âmbito profano e religioso que se estendeu entre 31 de agosto e 10 de setembro, as Festas do Mar no Furadouro (Ovar) em honra do Sr. e Sra. da Piedade, organizadas pela Comissão Amigos do Furadouro, cumpriram a tradição com o seu ponto alto no domingo (9 de setembro), em que se realizou a grandiosa procissão como o momento religioso em que as comunidades piscatórias locais, com particular empenho e envolvimento de várias gerações de familiares dos antigos pescadores que deram vida e alma a esta praia na sua relação com o mar, e que durante séculos desenvolveram as artes de pesca e uma industria de pescado, como as conservas, de que restam memórias da história deste povoado.

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José Lopes (*)

(texto e fotos)

O seu valioso património humano e cultural, que tem nestas festas a expressão da sua identidade, a que se entrega com devoção, sobrepondo-se a todos os imponderáveis que durante os tempos se vão ultrapassando com a determinação de quem (homens e mulheres), suportam e carregam aos ombros os andores dos seus santos devotos, mesmo já sem o típico gorro de malha ou a boina basca na cabeça, em que se destacam o emblemático andor do Sr. da Piedade, que habitualmente fecha a ordem dos vários andores, como: S. Pedro; Senhora do Socorro; Sta. Rita de Cássia; S. João Batista; Sta. Eufémia; S. Sebastião; S. Miguel; N. Senhora das Graças; N. Senhora do Parto; N. Senhora dos Emigrantes; S. José e ainda Nossa Senhora da Piedade.

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Trata-se de uma manifestação que se confunde entre a fé, a tradição e a promessa de cada família assumir o seu contributo na preservação de tal procissão com Bênção do Mar, que resulta da conjugação do património religioso que se reúne na característica procissão das velas, que teve lugar na sexta-feira à noite (7 de setembro), entre a Capela das Almas (Sra. do Parto) em Ovar e o Furadouro, depois do encontro no Carregal com parte da procissão que saiu da Capela do Furadouro, para no silêncio das preces e à luz das velas regressar acompanhada por centenas de devotos, a que se juntaram tantos outros que ali aguardavam por este momento solene sempre marcante neste dia que antecipa o fim de semana da festa rija, cuja noite, após o recolhimento da procissão das velas, terminou com a atuação musical na Avenida Central do Grupo D´RAIZ.

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Neste principal cartaz da componente religiosa das Festas do Mar, que arrastaram milhares de forasteiros ao Furadouro, em que simbolicamente se encerra a época balnear, e que este ano, particularmente no domingo da procissão, o boletim meteorológico esteve mais para chuva do que para se fazer praia. Ainda que as nuvens tenham dado lugar a raios de sol que aqueceram a tarde, não perturbando o majestoso desfile da procissão em que habitualmente participam também os autarcas dos executivos locais, que saiu da Capela por entre um mar de gente, estendendo-se ao longo do percurso que circunda este lugar, com a tradicional Bênção do Mar presidida pelos padres, José Fernando Carneiro e Manuel Pires Bastos a partir da Marginal, em que os vários andores são colocados de frente para o mar no momento da saudação.

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Aqui sim, a tradição já não se cumpre, dadas as dificuldade de mobilidade por entre as defesas da costa em pedra, que já alguns anos obrigaram a cingir a passagem da procissão à Marginal em terra bem firme. Destaca-se ainda a obra colorida produzida pelos “Amigos do Tapete” ao longo da Avenida da República, cenário de rara beleza na passagem da procissão que este ano, a própria Comissão Amigos do Furadouro também assumiu a decoração da Avenida dos Descobrimentos com um esboço de tapete e o recurso a panos de redes de pesca para um cenário mais típico, em terra outrora de muitos pescadores, de que restam essencialmente memórias familiares que alimentam este espirito festivo em honra do Sr. e Sra. da Piedade.

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Entre as memórias da faina da pesca que sobressaem na procissão, para além da componente humana e social, há andores como o da Nossa Senhora das Graças, tradicionalmente assumido pelas várias gerações da família “Maganinho”, conhecido concessionário da praia e durante décadas proprietário da companha de pesca da arte xávega com sucessivas gerações de barcos “Sra. da Graça”, que hoje em dia restam um exemplar no Museu Marítimo em Ílhavo e um outro numa rotunda do Furadouro, que habitualmente é decorado para estas Festas do Mar e continua a ser um símbolo identitário desta terra de veraneio, incluindo no cartaz das Festas do Mar em que atuaram ainda o Grupo GPS (dia 8), Grupo Típico os Principiantes (dia 9) e por fim o Grupo 3D, com “morteirada” de encerramento, depois das várias fases de salva de foguetes e fogo de artificio durante o vasto programa, que incluiu a participação na procissão da Banda Filarmónica Ovarense e da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ovar.

Novidades foram proporcionadas em plena Avenida Central, em que a organização surpreendeu o habitual público em noites de verão, com atuações de artistas numa varanda em que foi cantado o fado. Não menos surpreendente e até polémica, foi a participação da Banda de gaitas de San Xuan da Galiza, que perante a discórdia de integrarem a abertura do desfile da procissão, acabam por fazer uma simbólica demonstração das suas sonoridades musicais em marcha, mas com alguma antecedência da saída da procissão para não ficar associada à manifestação religiosa.

Uma condição para a banda galega poder desfilar por entre uma multidão que pode ter feito questionar tal decisão da organização. Uma entre outras eventuais polémicas que podem vir a dominar o balanço das Festas do Mar no Furadouro, para que este evento continue a homenagear a memória dos pescadores de Ovar que “fixaram-se, primitivamente no lugar onde hoje se ergue o Furadouro”, lugar que foi a sua “primeira colónia”. Depois partiram para Norte e para Sul, para exercer a pesca, estabelecendo outras colónias no litoral português, como refere o Historiador Alberto Sousa Lamy em obras como “Monografia de Ovar”, em vários volumes.

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Ainda segundo Alberto Sousa Lamy, as Festas do Mar no Furadouro ou “dos pescadores”, estão ligadas à invocação do Senhor da Piedade na Capela Velha do Mar (1766-1939), que substituíra uma ermida de madeira erguida em 1759, que se situava na continuação da Avenida Central do Furadouro voltada para o mar que acabou por a derrubar.

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Como lembra o Historiador, “de 1961 a 1976 não se realizaram as festas do Furadouro, mas em Setembro de 1977 as festas profanas e religiosas voltaram a animar a praia”. Mais tarde, de “1981 a 1991 houve novo interregno (11 anos sem festas)” e, “em 1992 a Comissão de Melhoramentos do Furadouro, retomou” os festejos. Mas as crises, ainda que em ciclos mais curtos, voltaram a repetir-se com a interrupção desta festa em 2003, em que a Comissão de Melhoramentos do Furadouro deixou de assumir a organização, abrindo caminho a uma nova instituição designada Comissão Amigos do Furadouro, que em 2004 realizou a festa profana e religiosa em colaboração com o Clube Desportivo do Furadouro e daria continuidade e alguma estabilidade a este cartaz turístico até à presente edição, independentemente das controversas internas que vão transparecendo publicamente na sua disputa.

(*) Correspondente “Etc e Tal jornal” em Ovar – Aveiro

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