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O Silêncio Ouve-se…

Carmen Navarro

Caminhei, caminhei, caminhei ao longo da montanha, o verde e o azul, o rio lá em baixo serpenteando fez o meu pensamento voar um pouco cansada parei para escutar o silêncio e inusitadamente de forma muito estranha lembrei o poema ”Silencio” do Poeta da Montanha, Poeta Maior da paixão e do Amor belo. Poeta das apaixonantes montanhas de Terras do Bouro no Gerês. Ler os seus poemas é ler um pouco da sua alma que nos é passada, e o seu entusiasmo nos apaixona e fascina.

Poeta que ama a cultura, tem diversos livros de poemas publicados e diversas colaborações em órgãos de comunicação social de expansão local e nacional. Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho.

Fundou a CALIDUM, Clube de Autores Minhoto/Galaicos – Associação Cultural que preside desde o início. Muitos anos a Câmara Municipal de Terras de Bouro, a Calidium e o Jornal Poetas e Trovadores realizaram no Gerês  o “Encontro Nacional de Poetas”.

Publicou já diversas obras algumas intituladas “Ecos dum Silencio”, “Sonho em Hora de Ponta”, “Antes que o Tinteiro Entorne” e “Um Poema, Uma Flor”, de conteúdos poético e crónica jornalística. É redactor do jornal Geresão, de Terras de Bouro, Amares e Vieira do Minho, onde também assina crónica regular e entre muitas outras colaborações contam-se as rádios RFM – Rádio Renascença, Lisboa e Voz do Neiva, Vila Verde o os jornais Correio do Minho, Braga e Vilaverdense, Vila Verde.

Assim é o Poeta João Luís Dias.

Vamos nos apaixonar e ler a sua poesia

olhares versos - 1

Silêncio

A Noite desventrada ao luar está calada
O rio passa, ao fundo, devagar, calado.
As árvores de folhas frias, estão quietas, caladas.
O vento sopra do outro lado da montanha,
ao arrepio do frio de leste.
Eu estou quieto, calado
ao morno do braseiro brando
no entontecer do sono.
O silêncio tomou conta de mim e de mim,
com muita noite ainda para silenciar…
As crianças despertam cedo
na demora do sono.
O silêncio embalará a noite
no sonho aconchegado e morno
sem pressa da manhã.

João Luís Dias

o autor - 2

E continuei a pensar … num outro poema também muito belo do poeta João Luís Dias

Intimidade

Quebrei no teu peito
um glaciar de silêncio
Poisei-me na noite
e fiquei no teu colo
à espera a querer saber de mim…
Falei-te intimamente
Soletrando cada palavra
rasgada à garganta
De coisas minhas
Sérias, enormidades do coração
Falei-te de tantas coisas
que nunca ousara.
Abri o livro
na página que interrompera
quando um dia
ao fechar dos olhos
acomodado num peito morno
me deixei adormecer.

João Luís Dias

Há ocasiões em que o silêncio de uma pessoa se torna mais sábio do que qualquer palavra que poderia ser pronunciada. Por trás do silêncio por vezes se esconde o medo e então cantamos ou dizemos um poema para que as nossas palavras espantem o medo e nos façam sonhar.

In nominae

Dei comigo
ao vidro baço e lento da janela
no palpebrar 
cadente e moreno
dos teus olhos
a noite é apenas noite
e o silencio
mudo
e apenas se ouve o sussurro
dos versos que te chamam…
em nome de tudo
e de todos
os que ainda amam

E o sorriso
foi dormir antes de mim
querendo-me a cama
morna
Se ausente te sei
mesmo que só um pouco
todo eu parto de mim
para regressar-te
aos meus braços
louco
até que acorde
de tudo o que sonhei
nos beijos esquivos
que me chamam
e me sinta poeta do sentir
eu que nada sei
em nome de tudo e todos
os que ainda
amam

João Luís Dias

Há quem diga que o silêncio é a ausência do Barulho, mas não. O silêncio é os barulhos que não podemos ouvir. O silêncio absoluto não existe, pois por ínfimos que sejam os sons, o som continua a propagar-se. Como vimos nestes belos poemas. O silêncio orienta-nos para o que vamos ouvir, permite-nos os reencontros connosco próprios. Um minuto pode nos parecer muito ou pouco tempo. Quando fazemos um minuto de silêncio pela memória de alguém, é uma eternidade.

Ali naquela brevidade, naquele ínfimo tempo está ativado tudo ou nada, tudo pode acontecer e só reparamos porque o silêncio nos envolvia. No meio da balbúrdia das nossas vidas já quase não sabem o que é o silêncio, creio que o tememos um pouco o próprio silêncio quando estamos sozinhos; ligamos o rádio ou a televisão.

Mesmo sem dar atenção a nada do que ali se diz, só para estilhaçar o silêncio. Vamos ouvir o silencio, deixemo-lo entrar que nos toque, nos inspire nos dê serenidade. Vamos fechar os olhos e ouvi-lo, senti-lo e vemos o silêncio, silencio, silencio… e reparamos que é o silêncio que nos dá felicidade. Sem os silêncios entre palavras não podíamos comunicar. Sabemos que o silêncio pode estar no encontro com alguém, que dispensa palavras, apenas é importante a presença repleta de olhares de cumplicidade.

Há também o silêncio imposto pelos fortes deste mundo, aquele que dói porque as pessoas têm que calar a verdade e a sua liberdade é roubada. Mas os momentos em que mais me apetecia poder optar pelo silêncio são aqueles em que o barulho nos é imposto… como o caso da espera telefónica, durante a qual nos obrigam a ouvir uma qualquer música que detestamos, para não falar nas músicas ou conversas ruidosas que temos que ouvir durante um interminável conversa que detestamos.

Vamos ouvir o silêncio

Que silêncio
é este?
Que desassossego
é este
que tanto
me perturba
de vazios e medos,
por aquilo
que não fiz,
nem sonhar
me apetece,
vida partida,
bocados que se
espalham,
as palavras
são nuas
como gotas
de um mar
imenso.
Que silêncio…
Que desassossego
é este
que tanto
me perturba?
A chuva parou
quem se deixa
arrastar
sem resistir
pelas margens
da memória.
Que silêncio
que desassossego
é este…

 Fotos: pesquisa Google

01out18

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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