A Praça da República com todo o seu património arquitetónico envolvente, foi palco e cenário no dia 22 de setembro, para recriação de um mercado tradicional e uma desfolhada produzida etnograficamente pelo Grupo Folclórico “Os Moliceiros de Ovar”, e organização da Câmara Municipal de Ovar no âmbito da programação cultural do Museu Júlio Dinis que tem como diretor, António França.
José Lopes (*)
(texto e fotos)
Durante a tarde o Grupo Folclórico representativo do lugar da Marinha em Ovar, de características essencialmente rurais, dinamizou a recriação de um mercado tradicional com produtos locais, hortícolas e cereais, panificação, aves, tecelagem e outros trabalhos e produtos artesanais. Uma espécie de ensaio para o evento de raízes populares que veio a ser proporcionado à noite com a recriação de uma desfolhada, perante muitas dezenas de participantes que no final foram convidados a vivenciarem aquela experiencia única, nomeadamente para as muitas crianças presentes nesta coreografia de ambiente rural.
Como salientou o vereador da cultura do Município de Ovar, Alexandre Rosas, tal temática, cultural e pedagógica, a exemplo das desfolhadas, foram absorvidas pelo escritor Júlio Dinis, “que dedicou um capítulo completo na sua obra, As Pupilas do Senhor Reitor, a estas vivências do povo em Ovar”. Uma relação de tais atividades nas aldeias com o escritor, que o Museu Júlio Dinis promove e dinamiza, com momentos como os que foram recriados, com Manuel Valente do Grupo Folclórico “Os Moliceiros de Ovar” a fazer a apresentação do espetáculo etnográfico, lembrando pormenores e curiosidades desta tradição, que pelo Outono reunia as comunidades trabalhadoras do campo, para comunitariamente, remover da espiga do milho o folhelho que a envolve.
Desenvolvidas as diferentes tarefas da desfolhada, que se podiam ainda designar, esfolhada, escapelada ou escamisada, em função das tradições de cada aldeia. A noite foi animando sempre que era encontrada a espiga vermelha ou o milho-rei, que dava direito a abraçar todos os presentes. Não faltaram os personagens de serandeiros como manda a tradição, que incluiu um convívio com baile no final com todos os presentes.
O Museu Júlio Dinis lembrou tambem com esta atividade, que “o milho, originário da América Central, trazido com as grandes navegações do séc. XVI e o início do processo de colonização da América, foi responsável por grandes modificações culturais, sociais e económicas” e que, “em Portugal, a cultura do milho decorre no período primavera/verão, sobretudo no Minho, Douro e Beira Litoral (região onde se inscreve Ovar), quando o tempo é mais quente…”. Ritmos de ciclos produtivos, que só mesmo este tipo de recriações das tradições, podem preservar tais memórias, como as desfolhadas, que Júlio Dinis, na sua estadia em Ovar, no ano de 1863, fixou no seu romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
(*) Correspondente “Etc e Tal jornal” em Ovar – Aveiro
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