Está a decorrer na Casa da Contacto em Ovar a 25.ª edição do Festovar (Festival de Teatro de Ovar) com um programa recheado de comédia e comédia dramática, farsa e farsa do absurdo ou o género infantojuvenil, num total de dez espetáculos representados por companhias convidadas e pela própria Contacto que encerrará o seu Festival de Teatro no dia 24 de novembro, com a estreia da peça “O Meu Caso”, uma farsa da autoria de José Régio e encenação de Manuel Ramos Costa.
Com 35 anos de vida artística, a Contacto que a 22 de setembro de 1983 se apresentou ao público com «A Promessa», de Bernardo Santareno, e, como recordou o seu presidente de direção Manuel Ramos Costa, “trinta e cinco anos, na verdade, não é muito tempo na vida de uma coletividade… Mas o nosso percurso nunca foi fácil de palmilhar, ora por falta de apoios ora por questões internas. Alturas houve que era bom não acabar… E não acabámos. Antes, resistimos.
Resistimos e consolidámos a Contacto, com projetos que de tão bem sucedidos se tornaram referências no âmbito artístico e cultural da nossa terra e bem assim do nosso país”, dando o exemplo da Festinfância, Oficina de Teatro e há 25 anos o Festovar que já levou à cena nesta edição, “Guerra do Alecrim e Manjerona” pela Nova Comédia Bracarense (Braga), “Brincadeiras” pelo Grupo D´Artes e Comédias do G.D.C.T. do Banco de Portugal (Lisboa), espetáculo vencedor do Concurso Nacional de Teatro 2018 (Prémio Ruy de Carvalho). Seguiu-se uma peça infantojuvenil, “O Peixinho Dourado” pela Contacto, com encenação de José Ferreira, numa adaptação de Teresa Leite a partir de um conto tradicional da Rússia, e com um elenco composto por Dorinda Resende, Laura Poças e Manuel Ramos Costa. A comédia que marcou as primeiras peças deste Festival de Teatro, ainda foi o género de “Uma História que não Lembra ao Diabo”, representada pelo Grupo Dramático da Retorta, Valongo.
O programa prossegue neste mês de novembro com mais diversidade de género teatral, em que é representada a peça “A Lição” de Eugene Ionesco, pela ACAL, Lourosa, Santa Maria da Feira (dia 3), seguindo-se (dia 4) “O Meu Pé de Laranja Lima”, pelos PLEBEUS, Avintes, Vila Nova de Gaia. A 5.ª semana do Festovar (dia 10) apresenta “Os Mentirosos” de Pedro Cabral, pelo Teatro Olimpo, Ansião, voltando a um fim-de-semana com espetáculo ao sábado com uma comédia dramática (dia 17) “O Cerejal ou as Memórias de Gricha” de Anton Tchekhov, pela CETA, Aveiro, enquanto no domingo (dia 18), o género infantojuvenil volta com “Zé das Moscas” de António Torrado, pelo Teatro Sem Dono, Palmela. O encerramento como sempre é da responsabilidade da Contacto, que vai apresentar a sua 69.ª produção com a farsa “O Meu Caso”. Integram o elenco desta peça com encenação de Manuel Ramos Costa, Andreia Lopes, António Ferreira, Dorinda Resende, Inês Oliveira, José Ferreira, Margarida Martins, Palmira Rodrigues, Ricardo Pinho, Teresa Leite e Tiago Amaral.
A cerimónia de abertura da 25.ª edição do Festovar, que decorreu no dia 12 outubro, como assinalou Fernando Rodrigues, diretor do Festival, “volta a recentrar o tema no nosso território, nomeadamente num dos seus recursos mais em risco e que tanto valor acrescentado lhe pode trazer: a Ria”, referindo ainda que, “a Contacto, consciente da importância deste recurso e também das tradições culturais que foram sendo desenvolvidas em torno da nossa Ria reconhece que este é o momento para nos voltarmos para ela ajudando a dinamiza-la e recolocando-a no caminho certo para um futuro risonho”.
“Ria, onde um sonho finda, outro principia” também foi o mote para as palavras de abertura de Manuel Ramos Costa, que depois de uma muito breve abordagem sobre o percurso da Contacto, apresentou os apontamentos artísticos da noite, que contou com a interpretação de uma “Serenata da Ria” por Rui Oliveira, com Sara Lebreiro ao piano. A poesia inspirada na Ria, esteve a cargo de José J. Ferreira, que interpretou “Promessas” e “Moliceiros”. A Companhia anfitriã, através dos seus jovens atores, Juliana Almeida e Gonçalo Boavida, representou “O Moliceiro e a Ria», uma rábula de Maria Teresa Leite.
O tema da Ria justificou ainda uma dissertação por Manuel Jardim, técnico superior do Ambiente do Município de Ovar, numa mesa de honra composta ainda por Alexandre Rosas, vereador da cultura da Câmara Municipal de Ovar e Nuno Pinto, em representação da União de Freguesias de Ovar, S. João, Arada e S. Vicente. Após as palavras de reconhecimento do trabalho desenvolvido pela Contacto na formação teatral e no sucesso de eventos como o Festovar, um “património” referiu Alexandre Rosas, salientando que o trabalho de formação ali dinamizado, “tantas vezes substitui a Autarquia e o Estado”. Nuno Pinto, também sublinhou o “evento cultural de referência”, dando os parabéns “pela escolha do tema”.
Sendo a Ria, para além do ecossistema marinho, cuja importância que outrora teve nos mais diversos setores económico-sociais dos concelhos que a envolvem, e as boas noticias de que vão ser aplicados 22 milhões de euros no seu desassoreamento e requalificação que é este ano causa temática do Festovar. Como afirmou ainda Alexandre Rosas, “para além de tudo, a Ria ainda é motivo inspirador”, ao ponto aliás, de na sequência dos apontamentos poéticos, teatrais e musicais da noite, com o tema da Ria em fundo, o orador convidado, Manuel Jardim, dizer que, “depois da apresentação fiquei sem palavras”. Foram assim breves, mas recheadas de interrogações, as palavras que deixou sobre a Ria, para quem “será sempre um conjunto de muitas sensibilidades”.
Mesmo com todo o tipo de intervenção que está prevista neste projeto de engenharia, para concretização desta necessária obra para a navegabilidade do canal central e dos vários canais de acesso aos cais, que resultarão na retirada de “1 milhão de metros cúbicos de dragados”, cujos destinos são para “reforço de motas e defesa de campos agrícolas”. Manuel Jardim lembrou n o entanto que relativamente a Ovar, “os ecossistemas evoluíram e não há reversão de cais antigos” e por outro lado, “o projeto ficou aquém do que queríamos” referindo-se nomeadamente ao “espelho de água” no Araínho.
Ainda que este técnico do Ambiente do Município, tenha referido que a intervenção de desassoreamento na Ria em 1997, “não foi tão bem conseguida”, e que, “agora quer-se acautelar males maiores”, não deixou no entanto de frisar em ambiente teatral, com farsas e comédia, que, “no ponto de maré vaza, vai haver sempre limitações. Estas dificuldades vão-se manter”, afirmou Manuel Jardim, porque, como concluiu, “a jusante há um Porto de Mar que tem de manter o canal navegável”.
Ou seja, não estivéssemos na abertura da 25.ª edição do Festovar, poderíamos estar perante uma “comédia”, que custará 22 milhões de euros, custos suportados em 75% pela Comunidade Europeia, que se deseja muito, se concretize a “Ria, onde um sonho finda, outro principia”, para que toda esta beleza natural e inspiradora artística e culturalmente, não continue encalhada. Só mesmo com um grande “viva o Teatro”, podia terminar esta noite que antecedeu a comédia “Guerra do Alecrim e Manjerona” de António José da Silva, numa encenação de José Manuel Barros, para o arranque do vasto programa, cujos espetáculos decorrem todos eles no Auditório Manuel Ramos Costa na Casa da Contacto, em que está exposta uma simbólica mostra sobre a temática da Ria, ilustrada com obras em desenho deixadas pelo artista plástico Rui Fernandes.
Texto e fotos: José Lopes
01nov18







