Cansadas de tão esquecidas a viverem em condições de miséria, insalubres e indignas, várias famílias da comunidade cigana da Marinha em Ovar, que há muitos anos aguardam por promessas adiadas de intervenção autárquica no bairro. Lançaram um apelo reclamando por “dignidade”, para que, com a ajuda de possíveis intervenções politicas e sociais, a sua indignação face às condições desumanas em que vivem, possam sensibilizar a comunidade local e chegar junto das entidades competentes, mesmo através de imagens que não podem deixar ninguém indiferente, tal é o cenário de degradação habitacional e meio envolvente.
José Lopes
(texto e fotos *)
Uma das respostas de ativismo social que correspondeu ao apelo desta comunidade, veio a dar origem à curta-metragem “Dignidade – Relatos de vida da Comunidade Cigana da Marinha”, que esteve em exibição, no dia seis de outubro, na Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista (MICAR), de Catarina Príncipe e Pedro Rodrigues, que se realizou no Teatro Rivoli no Porto. Uma “curta” de denúncia social, cuja pertinência do tema, e pelas condições de vida desta comunidade, juntou um grupo de cidadãos intitulado “Unidos pela Dignidade – Grupo de ação pelo direito à Habitação”, que se propõe desenvolver e dinamizar vários eventos, tendo numa primeira fase como instrumento de ação, a projeção deste vídeo e realização de debates para sensibilização da comunidade local e exercício de cidadania das próprias famílias ciganas.
O bairro instalado há 34 anos na Marinha, é um dos três principais núcleos de famílias ciganas no concelho de Ovar, cuja origem, depois de décadas em que este povo passagem pela região como nómadas, vem de um acampamento que ocupava um terreno na então freguesia de São João de Ovar que foi destinado a um salão paroquial, obrigando em 1984 à deslocação destas famílias para o lugar da Marinha na periferia da cidade. Um processo assumido pela Câmara Municipal de Ovar que passou na época pela promessa de “realojamento” destas famílias em casas sociais camarárias.
No entanto, tal “realojamento” não passou de adaptar uma antiga coelheira, em que funcionou uma exploração de criação de coelhos, transformada em nove espaços vazios, para serem habitadas por várias famílias ciganas, que fizeram as divisões possíveis para numerosos agregados familiares. Depois, ao longo de mais de três décadas, ali no bairro foi crescendo a comunidade, através de mais cerca de 20 anexos e casas abarracadas, construídas de forma precária para acolher jovens casais e as crianças desta comunidade a quem os pais querem proporcionar melhores condições de vida, de formação e inclusão, incluindo a frequência da escola de forma cuidada e de higiene.
Foi pois um cenário verdadeiramente fantasmagórico as condições encontradas no bairro pelos autores da curta-metragem, os ativistas sociais Catarina Príncipe e Pedro Rodrigues, a quem os residentes abriram portas para mostrar a realidade em que vivem, sem privacidade para uma vivência com o mínimo de dignidade em famílias muitas vezes numerosas. Com telhas de amianto e em alguns casos paredes de chapa, por onde entra o frio e chuva, agravado com casos de falta de portas ou janelas, ou ainda a rede elétrica com instalações precárias e de risco para a segurança dos residentes. A tudo isto junta-se a falta de saneamento e as fossas dos esgotos a céu aberto na área envolvente, com todas as consequências deste atentado à saúde pública que vem sendo desvalorizada pelas entidades competentes, ainda que sejam vários os casos de crianças com problemas de saúde resultantes de tal situação de insalubridade.
Ainda que no âmbito das políticas sociais da Câmara Municipal de Ovar, algumas famílias ciganas, a exemplo das não ciganas, venham beneficiando dos apoios disponíveis pelo Município para subsídio de rendas de casas no mercado de arrendamento ou de habitação social. Este tipo de apoios camarários, que visam também uma certa inclusão das famílias ciganas no seio da comunidade local, deixam a grande maioria destas famílias, neste caso, do bairro da Marinha, literalmente ao abandono como reconheceu Jaime Soares, morador e representante das famílias ciganas, que, depois de um processo de envolvimento na fase de realização das filmagens, se reuniram ainda em pleno Verão, tendo o bairro como espaço público para o visionamento do filme que mereceu aplausos de aprovação. Um momento aberto a convidados para um contacto pessoal com a realidade desta comunidade cigana e com a perspetiva de constituição de um grupo de apoio, que veio a dar origem ao “Unidos pela Dignidade – Grupo de ação pelo direito à Habitação”, que tem como promotores: Jaime Soares; Esmeralda Souto; Vaz Nunes; João Paulo, José Carlos Lopes; Pedro Rodrigues e Catarina Príncipe.
Chegar ao coração das pessoas
Sobre a curta-metragem“Dignidade – Relatos de vida da Comunidade Cigana da Marinha”, cujo grupo “Unidos pela Dignidade”, esclarece que, “a Câmara Municipal de Ovar, tem todo o conhecimento desta realidade. As promessas de realojamento são muitas e variadas, na forma e no tempo, mas são anos e anos de espera”. Por isso, como assumem os seus realizadores (Pedro Rodrigues e Catarina Príncipe), “este filme nasce da vontade desta comunidade em melhorar as suas condições de vida”, ou seja, “a comunidade foi o seu motor e a sua razão e acompanhou a par e passo o seu processo de realização. Este filme é sobre o desespero. Mas é também sobre a dignidade, a que existe e a que merecem, em tantos aspetos da sua vida. A dignidade para quem a vida quotidiana é, em si mesma, um processo de resistência”, e concluem, “é também a dignidade de quem quer lutar, dar a voz, a cara e o coração para combater o racismo estrutural que assola tanta gente todos os dias”.
O envolvimento da comunidade local por tais causas sociais e naturalmente políticas, não têm sido fáceis relativamente à solidariedade e apoio a estas causas que estigmatizam famílias ciganas, com quem convivem fundamentalmente nas feiras. Mas tocar no coração das pessoas como se propõe neste processo, é uma mensagem repetida por Jaime Soares, que, na apresentação do filme no próprio bairro da Marinha, começou por afirmar, “contamos com o apoio de todos!” e acrescentou, “todo este trabalho da reportagem é para chegar ao coração das pessoas que vêm aqui e dos arredores. Porque, creio que não existe melhor forma para tentarmos resolver a nossa situação, a forma como estamos vivendo”. Por tudo isto, Jaime Soares acredita que, “num espírito de união e de humildade, (…) é a melhor forma de nós chegarmos ao coração do povo, que realmente estamos em decadência”, lembrando sobretudo as condições em que ali vivem as crianças e os mais idosos.
Este filme, disse ainda este residente do bairro da Marinha, “não foi feito para tentar atingir ninguém. Não queremos atingir o presidente, nem a Câmara. Não queremos com o filme ofender alguém”, ou seja, “fizemos este filme, para mostrar que realmente, tudo aquilo que nós temos expressado na Câmara é sério e verdadeiro”. Assim, “através deste filme acredito que vai chegar ao coração das pessoas”. Mensagem de esperança em melhores condições para estas famílias, que o Jaime Soares, elemento ativo e interveniente desta comunidade cigana, repete em diferentes eventos em que a curta-metragem é exibida, como aconteceu na MICAR e mais recentemente no seio da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas de Ovar.
“Dignidade” na MICAR
Apresentado com o título original “Dignidade” no género documentário, com uma duração de 16 minutos, a curta-metragem“Dignidade – Relatos de vida da Comunidade Cigana da Marinha” de Catarina Principe e Pedro Rodrigues, integrou a programação da 5.ª edição da MICAR (Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista). Uma iniciativa do SOS Racismo que se realizou no Rivoli – Teatro Municipal do Porto, entre o dia 4 e 7 de outubro. Tendo a “curta” sobre a comunidade cigana do bairro da Marinha – Ovar, sido exibida no dia 6, seguida de debate em que começaram por usar da palavra os realizadores, Catarina Príncipe e Pedro Rodrigues, em que ambos assumiram a estreia nestas andanças do cinema, uma experiencia que apresentaram como, “filme enquanto instrumento”, uma vez que, “este filme é sobre o desespero. Mas é também sobre a dignidade, a que existe e a que merecem, em tantos aspetos da sua vida. A dignidade para quem a vida quotidiana é, em si mesma, um processo de resistência”.
Nesta Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista, que se apresenta como um espaço de reflexão e de debate sobre o racismo, xenofobia, minorias étnicas e migrações, os realizadores de “Dignidade” falaram ainda do seu enquadramento, afirmando que, “o racismo estrutural que as comunidades ciganas vivem quotidianamente traduz-se em mil formas concretas, das maiores às mais pequenas: no acesso à escola, ao trabalho, à saúde, ao estado social como um todo, ao capital”, mas também, acrescentam, “às pequenas coisas que pesam tanto como os significados comuns, a linguagem, a partilha de referências, a informação, a comunicação. A habitação, coisa grande e pequena ao mesmo tempo, é apenas uma dessas formas”, assumiram estes ativistas sociais, que acrescentaram neste testemunho no âmbito da MICAR, em que participou igualmente Jaime Soares, “enquadrámos assim, sabendo que escolhemos sobretudo o que fica de fora deste filme. Fizemo-lo porque esta é a história que a comunidade quer contar. Fizemo-lo também porque sabemos que a transformação se vai fazendo e que este passo é tão essencial como todos os outros”, porque, como concluíram, “sabemos também que ele (o filme) é apenas um passo. E que temos pela frente uma grande caminhada”.
Partilhar “Dignidade” com a comunidade em geral
Para partilhar com a comunidade educativa e local as condições desumanas em que a comunidade cigana do bairro da Marinha, o grupo de cidadãos“Unidos pela Dignidade” privilegiou a escola sede do Agrupamento de Escolas de Ovar, na escola secundária José Macedo Fragateiro, para uma sessão pública no dia 26 em que o filme“Dignidade – Relatos de vida da Comunidade Cigana da Marinha”, como um momento de partilha do direito de dignidade, em participaram várias entidades convidadas.
A sessão em que se empenharam com particular interesse e entusiasmo, as famílias ciganas residentes no referido bairro e “protagonista” da curta-metragem, teve como apresentação inicial, breves palavras de Catarina Príncipe (que realizou o filme com Pedro Rodrigues) e Bebiana, moradora do bairro. Após a exibição do filme seguiu-se um debate com intervenções do presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, Jaime Soares (elemento da comunidade cigana), Maria Gil (ativista) e Esmeralda Souto (membro do grupo promotor). Uma mesa moderada por Pedro Rodrigues (realizador e membro do grupo promotor), num debate aberto ao público presente nesta sessão a que daremos conta mais em concreto na próxima edição dada a expetativa nas eventuais medidas e projetos do executivo camarário que ponham fim a tal cenário social deprimente e nada coerente com o slogan “Ovar território de emoções”.
(*) fotos com Pedro Rodrigues
01nov18










