Ironicamente ainda são algumas das “obras” em painéis de azulejaria, produzidas por alunos e professores na Oficina do Azulejo entre finais dos anos 90 e inicio dos anos 2000, como uma das componentes pedagógicas do projeto Património Arquitetónico de Ovar (PAO), do qual restam uma espécie de “cacos” de azulejaria, que ajudam a atenuar a imagem deprimente e de abandono, tal é o estado de degradação nomeadamente no exterior do conjunto de elementos do edificado, entre pavilhões de salas de aulas e polivalente, que deixam a escola E.B. António Dias Simões num cenário de desleixo por parte das entidades competentes, desde logo da tutela do Governo (já que ainda não é das competência do Município local), agravado decididamente com e evolução da gestão para Mega agrupamento, como é o caso, integrada no Agrupamento de Escolas de Ovar.
José Lopes
(texto e fotos)
O PAO foi um projeto dinamizado e coordenado por Manuel Cleto (atual diretor do Museu de Ovar e então docente nesta escola), que foi desenvolvido de forma a criar uma interação entre a comunidade escolar, educativa e local, com atividades de campo pelas ruas de Ovar com particular incidência naquelas em que existiam diversificadas padronagens de fachadas de azulejo com origens de algumas das emblemáticas empresas nacionais de cerâmica como, “Viúva Lamego” (Lisboa) ou “Cerâmica das Devesas” (Vila Nova de Gaia), entre outras que foram identificadas através de delicadas e minuciosas pesquisas no âmbito deste projeto escolar.
Um projeto que resultou num trabalho de pesquisa, investigação e inventariação ao longo de vários anos letivos e com o envolvimento de alunos de diferentes turmas da então Escola Básica 2,3 ciclos de Ovar, em que foram calcorreados os arruamentos da malha urbana da cidade de Ovar, para levantamento dos vários pormenores do património arquitetónico de Ovar, incluindo registos fotográficos, que incluíam para além do azulejo e suas características (medidas, padronagem, estado de conservação e origem de fabrico), também estátuas, pinhas e taças dos topos das fachadas, bem como ferro forjado das varandas, janelas, portões e vitrais.
Este ambicioso projeto escolar que gerou uma interessante base de dados da azulejaria em Ovar, deu origem a estruturas entretantos extintas, como, uma Associação “O Azulejo”, o “Clube” do PAO e “Oficina do Azulejo”, e ainda a publicação do Boletim “Azulejo” e uma Palestra sobre a temática do Património Arquitetónico de Ovar. De toda esta extraordinária experiencia pedagógica e de sensibilização para a defesa e preservação do Património Arquitetónico de Ovar, restam “cacos” de azulejaria, como resultado das muitas e multifacetadas experiencia desta espécie de laboratório de cerâmica, que certamente despertou o interesse em alunos de diferentes gerações, alguns dos quais, hoje desenvolvem atividades profissionais nesta área das artes cerâmicas, restauro e conservação, após diferentes percursos de formação profissional e superior.
Opções profissionais e artísticas, que encontraram na própria cidade de Ovar muito campo de trabalho e intervenção, depois de décadas de abandono da malha urbana, nomeadamente no património azulejar, em que, apesar de nas últimas duas décadas vir merecendo mais algum interesse na sua valorização e preservação, com particular preponderância do papel desempenhado pelo ACRA-Atelier de Conservação e Restauro do Azulejo, da Câmara Municipal de Ovar. As consequências do seu estado de degradação, tornam difícil uma efetiva recuperação e preservação de algumas irremediavelmente perdidas padronagens que existiram pelas ruas de Ovar, que tantas vezes, pela incúria e insensibilidade dos proprietários e dos autarcas se apagaram da memória coletiva na “Cidade – Museu do Azulejo” ou o designado “Museu vivo do azulejo”.
É pois destes “cacos” como peças cerâmicas que restaram de um projeto multifacetado como foi o PAO, que contribuiu para despertar a atenção de um tal património na cidade e as suas qualidades de revestimento, que, ainda veio a beneficiar este meio escolar, com o brilho e colorido. Não o das típicas padronagens de azulejo que foram identificadas, manuseadas e reproduzidas na Oficina do Azulejo pelos alunos. Mas por painéis de azulejo em cuja produção se envolveram alunos e professores, para melhorarem a imagem dos exteriores da escola, que resistem ao tempo. Mesmo ao longo tempo de uma necessária requalificação que tarda, deste equipamento escolar agora resumido ao segundo ciclo, que merece ser dignificado para que o desleixo a que está votado, não deixe tal marca negativa nas gerações de alunos que por ela vão transitando, entre o 1.º ciclo e a escola secundária, ciclos em que curiosamente se registaram requalificações do parque escolar ao contrário da António Dias Simões que continua à espera de melhores dias.
01nov18





