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25.ª edição do Festovar encerrou com “O Meu Caso” de José Régio

Para o encerramento do Festovar no Auditório da Casa da Contacto no dia 24 de novembro a surpresa, como sempre acontece neste certame, foi garantida pela Companhia da Casa, que escolheu para esta 25.ª edição do seu Festival sob a temática “Ria, onde um sonho finda, outro principia!”, a farsa de José Régio “O Meu Caso”, com encenação de Manuel Ramos Costa e o essencial de um elenco que vem de provas dadas em estreias anteriores, como “A Salvação de Lutero” na edição de 2017.

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Foram uma dezena de espetáculos que deram corpo ao programa do Festovar que já na parte final deste evento, no dia 17, levou ao Centro de Artes de Ovar, “O Cerejal ou As Memórias de Gricha” a partir de Anton Tchekhov, uma comédia dramática com encenação de Fraga, representada por um numeroso elenco do C.E.T.A. de Aveiro que se estreou no Festovar.

Na sétima semana de muito teatro, as espectativas estavam centradas na 69.ª produção da Contacto que assumiu extraordinariamente todo o brilhantismo de José Régio que faz transparecer nesta peça uma das suas características mais presentes, como seja a análise à problemática das relações humanas que se desenrolaram entre o palco e a plateia de forma surpreendente em que o público se sentia literalmente envolvido no desenrolar dos vários “casos” e dos seus dramas.

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No final, os autarcas, Bruno Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e São Vicente Pereira, e o vereador da cultura da Câmara Municipal de Ovar, Alexandre Rosas, reafirmaram o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pela Contacto, afirmando mesmo o vereador, um, “agradecimento à família da Contacto por este momento, mas também pelo que tem feito, nomeadamente pelo teatro”, porque como acrescentou, “o Festovar não é da Contacto, o Festovar já é património cultural de Ovar”.

Para o diretor do Festovar, Fernando Rodrigues, este foi mais um momento marcante nos 35 anos da Contacto e em todo o seu trabalho desenvolvido em prol do teatro e da formação teatral, através da Oficina de Teatro e de certames como o Festinfância que se afirma como um sucesso junto das comunidades escolares. A satisfação era naturalmente visível neste responsável pela programação do Festovar que nos realçou o facto de a estreia “O Meu Caso” no encerramento ter corrido “muito bem”.

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O diretor do Festival da Contacto, Fernando Rodrigues, verdadeiramente metódico e dedicado à arte da representação teatral, ao longo destes 25 anos, só durante três anos não desempenhou tal função por questões profissionais que o impediram de cumprir a exigente missão de organização do Festovar e do planeamento de temas. A este propósito quisemos saber que conclusões tiraram do tema da edição anterior e o que ficou do “Teatro na Era Digital”, ao que nos respondeu que, “ficou a noção que o digital neste momento, está a servir ao teatro de uma forma, que em alguns casos, até está a adulterar um bocadinho o teatro”, reconhecendo que, “nós já utilizamos algumas técnicas do digital, mas ainda somos muito adeptos do teatro dito clássico ou convencional”, e acrescentou, “obviamente que o digital ainda levará tempo a substituir algumas áreas nesta arte da representação, como a substituição de atores.

Mas o que interessa é dar às pessoas a visão e fazê-las refletir, para que possam escolher o seu caminho”, concluiu, deixando também esperança na concretização do “sonho” do desassoreamento da Ria que se perspetiva e que assinalou o tema deste ano.

Não menos feliz, como aliás se manifestou durante o decorrer do próprio espetáculo por si encenado, estava Manuel Ramos Costa, que nos falou no final de mais um sucesso, a que fica reconhecidamente associado pelo seu trabalho de dedicação ao teatro, à representação, à formação e à encenação.

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Para Manuel Ramos Costa, produzir a peça “O Meu Caso” de José Régio, foi a pensar “num trabalho que fosse um género diferente dos que até então tínhamos feito”, era, afirmou ainda, “uma oportunidade para fazermos uma farsa, com um conteúdo relacionado com o próprio teatro, com o teatro em si mesmo”. Mas, curiosamente este trabalho foi ainda uma aposta, “para manter o elenco que vinha, nomeadamente da peça de Lutero. Nós entendemos ampliar um pouco o texto com figuras também relacionadas com o teatro para que todos tivessem uma participação nesta peça e mantivesse-mos o grupo unido em torno do projeto”.

Portanto, como nos declarou o encenador Manuel Ramos Costa, o interesse neste projeto, “era pelo género que ele comporta, que é a farsa, por ser de um autor também consagrado no teatro português e uma oportunidade para mantermos o grupo”. Foi assim, segundo o encenador, que, “também criamos, mantendo intacto o texto do autor. Criamos algumas cenas e um final diferente, para que todos os atores disponíveis, com vontade de continuar no palco, pudessem participar. Estes foram os principais objetivos, deste projeto”.

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Lembrou ainda o membro n.º 1 e presidente da direção da Contacto, Manuel Ramos Costa, “nós tínhamos feito um drama histórico «A Salvação de Lutero», anteriormente tinha-mos feito o «O Cavaleiro da Triste Figura», um teatro de aventura, e portanto, havia que fazer uma farsa, com alguns laivos de comédia, em que os assuntos são tão próximos e reais”. Dando como exemplos o do próprio autor, que face a várias dificuldades, “faz cedências para que o espetáculo prevaleça”, ainda que venha a dizer na peça, que, “daquilo que escrevera, aquilo que sonhara, já quase nada restava, e porque? Porque fizera cedências demasiadas e de facto da autoria dele pouco ou nada existia, mas mesmo assim interessava-lhe que o espetáculo fosse para a frente”, destacou Manuel Ramos Costa entre vários outros “casos” da peça por si trabalhada, como o empregado, “com todos os seus dramas familiares”, mas “é mal tratado! Ninguém o compreende”.

Foram vários os “casos” abordados em palco, porque como nos afirmou o encenador, “há aqui assuntos da sociedade e das pessoas, da vida real, que foram tratados nesta farsa com laivos de comédia, para de certa modo a brincar se dizer coisas sérias. Para passar bem a mensagem. Esta também foi a linha de condução da encenação. E eu estou feliz com o resultado, acho que as pessoas reagiram bem. Não há aqui ninguém mal tratado, e se houvesse é uma farsa, há sempre que dar este desconto. Às vezes vai-se á ferida e quando se mexe na ferida dói”, claro.

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Este apaixonado, operário e arquiteto do teatro, autor da parte final da peça, colocou, como nos resumiu, “toda aquela gente numa Clinica Teatral onde se trata dos casos do teatro (…) toda aquela gente está debaixo de uma grande dependência e de uma grande depressão.

Confusões criadas, as cedências feitas, de tudo o mais que esta gente sofre” sem esquecer a falta de subsídios, por isso concluiu, que, “todos os casos do teatro só podem ser tratados numa Clinica Teatral”, tal é a depressão em que vive muita gente no teatro a quem este profissional deixou palavra que são “casos”, como neste país em que se fazem “espetáculos para apoiarem outros atores que estão na miséria, por alguma circunstancia estão em grandes dificuldades de sobrevivência, e de facto o nosso pais é tão pequenino, mas são tantos e tantos”, enquanto nas novas gerações de atores se veem, “cada vez mais jovens formados, que estudaram com o objetivos de serem artistas e estarem num palco a fazerem arte, e afinal, estão muitas vezes nas caixas dos supermercados ou a fazer reposições, que nada tem a ver com a sua formação”.

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Como diz, não sendo desprimor algum tais meios de sobrevivência, “não foi para isso que estudaram”. É por tudo isto, que “nestas coisas do teatro, o José Régio está atualíssimo, e mais ainda se poderia tratar aqui nesta peça”, que a exemplo de várias outras produções da Contacto bem merecia ficar em itinerância mais de um ano. Mas como confirmou no fecho desta nossa conversa, a Companhia, obriga-se pelos certames que tem anualmente, nomeadamente o Festovar e o Festifância, a produzir duas peças a que se juntam todas as atividades desenvolvidas, incluindo atualmente cinco peças em cena, o que não permite mais espaço “até mental”.

Elenco da pela “O Meu Caso”: Margarida Martins (Mulher da Limpeza); Palmira Rodrigues (Arrumadora); António Ferreira (Empregado); Manuel Ricardo (Desconhecido); Andreia Lopes (Atriz); José Ferreira (Autor); Dorinda Resende (Figurante e Espetadora); Inês Lopes (Colega da Atriz); Tiago Amaral (Espetador); Fausto Guimarães (Doutor) e Teresa Leite (Diva).

Texto e fotos: José Lopes (*)

(*) Correspondente “EeTj” em Ovar – Aveiro

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