Em jeito de homenagem àquele que, na história da pintura portuguesa, foi um grande vulto da corrente naturalista, a administração do Grupo “António Ramalho – Barqueiros – pintura no Douro” abriu a gaveta das ideias de Luíz Cortez.
Criado no Facebook em 14 de Setembro de 2015, Cortez, administrador do grupo e também pintor de profissão, “pretende dar a conhecer a obra de António Ramalho natural de Barqueiros, concelho de Mesão Frio e ainda a arte que se fez e continua a fazer no nosso Douro”, numa exposição coletiva no Museu Municipal e Etnográfico de Resende. A cerimónia de inauguração contou com a presença da vereadora da Cultura, Sandra Pinto e Jorge Machado, Presidente da Assembleia Municipal.
Lurdes Pereira (*)
(texto)
António Ramalho, pintor português, nasceu em 1958 em casa de magro pão. Contudo, a pobreza não inibiu o artista, ainda criança, a manifestar o gosto e o talento no registo em papel, numa fase em que a necessidade o tomara como aprendiz de caixeiro no Porto. A fuga para Lisboa não o deixou escapar da prisão. Valeu-lhe o sentimento imprimido nos desenhos para, convidado a trabalhar na polícia, conciliar o Curso de Pintura na Academia de Belas-Artes de Lisboa onde foi discípulo de Tomás da Anunciação e Silva Porto. Faleceu com 57 anos e muito do seu acervo está, entre outros lugares de honra, sob a guarda do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado na companhia de muitos outros mestres do Naturalismo.
Depois de uma breve apresentação do pintor de quem a terra se orgulha, muitos dos artistas plásticos do Douro se “matricularam neste fórum e se tornaram seus discípulos”.
As encostas do Douro desenvolveram um ADN mágico, uma espécie de “pandemia” entre a arte de Deus e do Homem. Desde os bordados que serpenteiam os socalcos às pinceladas nas telas, o artista é um artigo plural, mas liberta, no suporte das suas narrativas, uma linguagem singular.
Maioritariamente pintura, “os Artistas que integram o Grupo nas suas mais variadas vertentes pictóricas estão, de várias formas, ligados ao Douro tal como o Patrono, António Ramalho”. Desta forma, Alfredo Cabeleira, Álvaro Pereira, António Sobral, Blandina Canilhas, Elizabeth Leite, Fernando Barros, Franchini, Gorgi Batista, Helena Santos, Henrique Romano, Henrique Vaz Duarte, Isaura Sousa, João Carlos Rebelo, João Correia, Jorge Marinho, José Vicente, Luís Cortez, Lurdes Pereira, Nuno Castelo, Rita Moura e Rodrigo Costa, foram os nomes que marcaram presença neste certame. Pintores, autodidatas e iniciantes na área da pintura revelam um avolumado de cor, luz e expressividade. Desde a paisagem à faina do Douro, passando pelo retrato ou por temas mais abstratos, mais realistas ou mistura de materiais, passando pelo conceito de humanidade, religião e fé, os olhares dos artistas conseguiram criar uma dinâmica que não deixou o público indiferente. Seria muito difícil analisar casos isolados, pois dentro das suas temáticas, os artistas imprimiram, nas telas brancas, a sua mais genuína identidade.
A escultura em madeira ocupa o centro da sala. Fernando Barros entalhou substantivos da afetividade e sensualidade, tendo como expoente máximo a figura humana. Cada peça é obra única. Não há colagens de secções. Toda a obra remete para um processo de entalhamento num só bloco de madeira.
Nas entrâncias da sala, Lurdes Pereira apresentou um acervo de escultura em cerâmica, no qual recria as técnicas que vêm do neolítico fazendo um paralelismo entre o passado e o presente. Recriou a Deusa da Fertilidade abrilhantada pela técnica, pela forma e pela aplicação dos vidrados, conseguindo exprimir a delicadeza através dos materiais mais grosseiros. Contudo, no gosto pela cultura local, jamais esquece a identidade e a tradição da terra que a viu crescer. Apresenta uma máscara cuja história mergulha no abismo das técnicas ancestrais de cozedura, a soenga. Conclui a máscara em barro preto num suporte de acrílico conferindo a transparência a uma arte dotada de autenticidade e singularidade na geografia de Resende.
O Grupo Ramalho agradece o empenho de Luís Cortez que se disponibilizou para a organização deste evento. Grato, também, ao Município de Resende por ter acarinhado este projeto e cedido a sala de exposições no Museu Municipal. Um agradecimento, também muito especial, ao Vítor Santos por nos disponibilizar as imagens para ilustrar este momento de convívio.
Para aqueles que gostam de arte, devo referir que a exposição vai estar patente até ao dia 6 de Janeiro. No entanto, e porque era humanamente impossível falar de todos os artistas presentes, o administrador do grupo do Facebook, António Ramalho – Barqueiros – pintura no Douro, vai continuar a divulgar individualmente os artistas que fizeram parte nesta exposição… Porque, esteja onde estiver, temos a certeza de que António Ramalho está orgulhoso desta saudável amizade entre nós!
(*) com Vítor Santos (fotos)
01dez18

























