Cristóvão Sá-TTmenta
Tobias vivia numa aldeia recôntida dos Picos da Europa. Os rigores do Inverno traziam ventos gélidos e montes de neve rodeavam a sua casa. Próximo havia um abeto-do-norte, que a mãe enfeitava de ramos de azevinho e outras plantas naturais de cores vistosas. Nada de artificial naquela manifestação de alegria e saudação a tempo de renascimento. Nas outras estações do ano, aquela árvore era também local de oração a um ser superior que, para Tobias, não interessava saber quem era. Era alguém que lhe dava conforto e com quem partilhava a sua angústia e ausência do pai. E receio pela sua vida.
O pai fez vida militar nos Comandos. Já tinha atitudes e comportamentos que revelavam nada recear. Sempre pronto para uma refrega. Os amigos já o conheciam. Evitavam por isso que, na sua presença, qualquer discussão pudesse despertar o seu espírito truculento. Após a vida militar decidiu-se a trabalhar numa empresa de segurança. O seu arcaboiço físico e temperamento ajudaram uma fácil e rápida colocação.
Mais tarde, acreditando que poderia obter melhores rendimentos, decidiu ir trabalhar para uma outra organização que formava militares para intervenções armadas em vários países. Principalmente em África, Também no Médio Oriente e na Ásia. Assim eram intermináveis os longos períodos de ausência de casa. Longe da família, a lutar por quem achava serem os guardiões da Paz. Fazendo a guerra por interesses de clãs. Até por proclamados objetivos de luta pela Liberdade.
Quando os títeres eram desalojados do poder, de imediato apareciam novos senhores que, passado pouco tempo, defendiam e punham em prática regimes ainda mais totalitários. Em nome de que havia necessidade de disciplinar o Povo. Acabar com a exploração e a corrupção. Criavam novas oligarquias. Novos intérpretes apareciam e as práticas miseráveis mantinham-se. Tudo com o beneplácito das sociedades ditas desenvolvidas. Em nome da “real politik”.
A mãe, já com Tobias na cama, levava-lhe uma chávena de leite com chocolate. Era naquele momento que sentia o seu carinho. Ela mantinha-se durante uns largos minutos a cofiar-lhe os caracóis loiros. Dias havia que, antes de adormecer, Tobias dizia para a mãe ser muito bom senti-la perto e desfrutar dos seus abraços. A mãe lacrimejava e ele escurecia o quadro dizendo-lhe que as saudades do pai eram muitas. O conforto físico dado pela bebida, fazia explodir o seu corpo em calor. Mais a maternal massagem capilar eram caminho para um sono repousante. Que às seis da manhã era interrompido.
A mãe entrava no quarto. Abria as portadas das janelas e a luz invadia aquele espaço. Um abraço apertado da mãe e um alegre bom dia ajudavam o seu lento despertar. Deixava o filho na escola, às sete e meia.
De imediato partia, no transporte público, para a cidade. Para a sua primeira jornada de trabalho. Onde se mantinha durante cinco horas. No espaço de uma hora, comer para repor energias e descansar. Novo autocarro para se dirigir a um outro emprego. Precário, como o primeiro. Aqui mais quatro horas. No regresso à aldeia passava pela escola. Para o reencontro com Tobias, deixando-o em casa. Comia um lanche rápido e saía de novo do lar, para a quinta grande. Em cuja casa fazia trabalhos de limpeza e preparava o jantar. Mais três horas de canseira. Chegava a casa exausta. Preparar frugal jantar. Antes e depois olhava para a televisão desinteressadamente. Tobias após a refeição entretinha-se num tablet a jogar. Chegava a hora de deitar. De novo o ritual. Preparar o leite com chocolate. Avisava-o que se preparasse. Vinha de novo aquele momento de partilha de calor humano. Que ela mesmo sentia dar-lhe conforto e bem-estar.
A mãe de Tobias suportava todas estas jornadas de trabalho. Mal pago. Mas o que conseguia juntar era à justa para suportar as despesas eram muitas. As remessas enviadas pelo marido não eram regulares. Importante era proporcionar o melhor para Tobias. O seu quarto era bem o exemplo de quanto se queria compensar a falta de carinho pela profusão de gadgets. Um LCD de generosas dimensões destacava-se naquele mundo de tecnologia.
Véspera de Natal. Tobias brincava com um monte de neve. Fazia bonecos que logo depois destruía a pontapé fazendo descarregar uma raiva que se esforçava em conter. Mais um Natal e de novo sozinhos. Ao longe, viu três vultos naquela nívea superfície. Aproximavam-se. Acabou por identificar três trotinetes elétricas preparadas para a neve. Cada uma conduzida por idosos de longas barbas brancas. Disseram ser os Reis Magos. Tobias admirou-se.
E os camelos? Responderam que tinham de se adaptar às condições do tempo e dos territórios por onde andavam. Depois de quererem saber o seu nome disseram-lhe que traziam presentes para as crianças mais desfavorecidas e que gostariam de lhe dar algo de especial como lembrança de Natal. Tobias, desatou a chorar. Por que choras? Perguntou-lhe, Baltazar. Eu não quero nada? Mesmo nada, retorquiu Belchior. Não. Nada me falta em casa. O que tenho já é demais. O que quero não me podeis dar. Gaspar, que até aí tinha ficado calado, ainda montado na sua trotinete, abriu a sua boca de espanto e repetiu Belchior: nada mesmo nada? Então o que queres e não te podemos dar? Tobias era só baba e ranho. As lágrimas inundavam-lhe o rosto. A boca selada. Nada dizia. Os Magos deixaram-no assim, dizendo que não podiam estar mais tempo.
Tobias voltou a casa. Limpou-se antes de entrar. Notou um ambiente mais caloroso. A mãe muito bem arranjanda. Flores silvestres inundavam o espaço. Gostou de tudo aquilo. Mas a tristeza continuava. Disfarçava. Sentia a mãe alegre e mesmo eufórica. Cantarolava “Noite Feliz” e outras canções de Natal. Disse-lhe para se sentar à mesa para comer uma torrija que tinha acabado de preparar. Vindo de dentro de casa, ouviu uma porta a abrir. Logo de seguida as mãos de alguém taparam-lhe os olhos. Um corpo mais alto que o seu abraçou-o. O cheiro daquelas mãos era-lhe conhecido.
Pai, pai, és tu? Exultou Tobias. Voltou-se. Olharam-se de frente. O abraço foi mais forte. O pai, como sempre gostou de fazer, roçou a sua face barbeada no rosto de Tobias. Como estás enorme? E eu longe de ti sem te ver crescer? O pai não se cansava de o beijar. Meter os seus dedos grossos pela farta cabeleira loira. Depois de uma breve pausa disse: querida junta-te a nós. Vou dar-vos uma novidade. Surpreendidos, mulher e filho ouviram-no a dizer que não iria mais para as guerras. Vinha para ficar. Os sinos repicaram no templo da aldeia. Tobias gritou: chegou o Natal. Choraram e abraçaram-se. Foi o melhor presente daquele Natal. Tobias não mais o esquecerá.
Foto: pesquisa Google
01dez18
