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Natal…

Carmen Navarro

Neste Natal vou armar um presépio dentro do meu coração. Nele quero juntar os nomes de todos os meus Amigos.

Natal é tempo de repensar valores, de ponderar sobre a vida e em tudo que nos rodeia. É o momento de deixar renascer essa criança que ainda existe em todos nós, cheia de esperança num mundo melhor, onde a fraternidade e amizade que é uma forma de amor, impere.

Natal é Natal. Aborrece-me que digam que o Natal é quando um homem quiser. Não, não é verdade! Não vamos confundir as coisas. Sei que há pessoas que sente um peso de consciência maior nesta quadra. Talvez porque só no Natal é que aparecem as pessoas que se dizem boazinhas que lamentam os pobrezinhos e que pregão moralidades ocas, esquecendo-se que todos os dias são mais um nas nossas vidas e que temos que viver o melhor possível, mas Natal é Natal. Todos os dias temos que ser fraternos.

Foto 1 -presepio e arvore de natal

Quando um Homem Quiser

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Ary dos Santos, in ‘As Palavras das Cantigas’ 

Ceia de Natal dos sem-abrigo
Ceia de Natal dos sem-abrigo

Não esqueço que o Natal é difícil para muitos, ou porque não estão com a família ou porque as tenções intrafamiliares tornam o convívio mais penoso, ou muitos para quem o Natal é doloroso porque pouco têm para partilhar, mas certamente têm muito mais que qualquer um de nós, porque apesar das dificuldades o espírito de Natal está lá. O Natal é sempre intenso, pela presença ou pela ausência ou ainda por nada ter.

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
(…)

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

António Gedeão, in ‘Antologia Poética’ 

Mais que oferecer presentes no Natal, vale a pena tornarmo-nos mais presentes.

O Natal que nos quer impingir não faz sentido para quem não pode pagar por ele. Existe uma enorme discrepância entre o Natal comercial, subjetivista e abstrato, materialista e consumista e o Natal espiritual, o renascer da vida e da esperança. É tempo de refazer planos, reconsiderar os equívocos e retomar o caminho para uma vida mais feliz. Teremos outras 365 novas oportunidades de dizer à vida que de fato queremos ser plenamente felizes. Sem guerras, ódios e radicalismos.

Lamento que hoje o Natal seja tão comercial e se comece a falar dele já em outubro. O que faz com que o espírito natalício se perca.

natal solidario

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira, in ‘Cancioneiro de Natal’ 

Que o espírito natalino traga aos nossos corações a fé inabalável dos que acreditam em um novo tempo de paz e amor, todos deveríamos viver esta quadra dentro de nós e na força da relação com os outros.

Que o ponto de honra seja agir para que desapareçam as desigualdades, tanto, as sociais, as económicas, as culturais, as políticas…

Que o espírito de Natal permaneça vivo em cada dia do ano.

Fotos: pesquisa Google

01dez18

 

 

 

 

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