Sendo a comunidade cigana da Marinha parte integrante da comunidade educativa do Agrupamento de Escolas de Ovar (AEO), nada melhor do que o Auditório da Escola Sede, Secundária José Macedo Fragateiro, para a exibição da curta-metragem “Dignidade – Relatos de vida da comunidade cigana da Marinha” realizada pelos ativistas sociais, Catarina Príncipe e Pedro Rodrigues.
Uma sessão que foi seguida de um debate público sobre a realidade social e habitacional desta comunidade ali visualizada sem filtros de qualquer natureza (aliás com ampla participação dos moradores em todo o processo da sua construção), em que foram oradores sobre esta temática da Habitação e Exclusão, Salvador Malheiro (presidente da Câmara Municipal de Ovar), Esmeralda Souto (ex-presidente da Junta de Freguesia de Ovar), Jaime Soares (elemento da comunidade cigana da Marinha), Maria Gil (ativista cigana, membro da Associação Saber Compreender e atriz no Coletivo PELE), que visitou o bairro neste mesmo dia 26 de outubro em que o grupo de cidadãos “Unidos pela Dignidade – grupo de ação pelo direito à Habitação” promoveu esta iniciativa com reconhecida elevação face às insustentáveis condições desumana em que várias famílias vivem e aguardam por emergência, que, mesmo sem soluções concretas por parte do autarca local, foram por todos os intervenientes reconhecidas como “miseráveis”.
José Lopes
(texto e fotos)
A sessão teve as palavras iniciais de Catarina Príncipe (autores da “curta”) e Bebiana Silva, uma moradora do bairro que insistiu na defesa de “dignidade” para as famílias desta comunidade cigana. Vítor Ferreira (presidente do Conselho Geral), deixou também breves palavras em nome da direção do AEO que acolheu tal sessão com significativa participação de vários elementos da comunidade local e particularmente da comunidade cigana, que ali viu ser exposta em filme e em debate as suas condições sociais e habitacionais e sobretudo que perspetivas para os dramas que vivem com seus filhos em casas clandestinas, ou mesmo em casas da responsabilidade e propriedade do Município de Ovar, como casas sociais sem condições de habitabilidade mínima neste bairro da Marinha, algumas sem portas e janelas, sem luz e com esgotos a céu aberto.
Com moderação do também autor da “curta”, Pedro Rodrigues, ainda entoavam no Auditório vozes de fundo da curta-metragem acabada de exibir, com testemunhos de vivências amarguradas, que falam de sofrimento, do frio, do abandono, da miséria, “estamos sempre na miséria” ou ainda, “só queremos viver com mais dignidade”, como foram os sentimentos mais escutados com o desejo de uma casa com condições básicas ao contrário da solução encontrada há mais de três décadas, em que na altura as famílias foram alojadas numa antiga coelheira que funcionou como nove casas sociais. Foi assim neste ambiente de sentimento misto, de amargura e esperança, que os oradores intervenientes neste debate, expuseram as suas intervenções sobre esta situação que o filme teve o mérito de resgatar do esquecimento, confrontando a comunidade local e não só, e sobretudo as entidades competentes para assumirem as medidas de emergência sociais que tal cenário decadente exige.
Como começou por afirmar Jaime Soares, “para tudo deve haver sempre uma luta, e nós estamos a lutar e lutando dia após dia, tentando por muitos meios, sem violência. O filme fala por si! Já lá vão 34 anos que estamos naquele lugar em decadência, até dizer chega”, e acrescentou, “não aguentamos mais!”. Este morador do bairro da Marinha, defendeu ainda que, “queremos o mínimo para as crianças, não queremos regalias, queremos algo humilde, que a nossa comunidade possa viver em conjunto e no meio de toda a sociedade e humanidade”.
Já Esmeralda Souto, ainda que tenha admitido que, “não são só os ciganos que estão a viver assim. Na comunidade em geral, há muitas famílias que estão a viver com estes problemas”, afirmou que, “aquilo que se viu no filme e que se pode ver deslocando-se lá, é realmente a realidade. São demasiados anos em que esta situação se arrasta” ou seja, como fez questão de sublinhar, “a crítica é a todas as pessoas que estiveram bastante indiferentes”.
Mas como concluiu a também membro do grupo “Unidos pela Dignidade”, “quero acreditar, que depois deste filme, as pessoas que não conheciam, comecem a ver a comunidade de outra maneira”.
Visivelmente tocada pela emoção, ali perante muitas famílias da comunidade cigana vitimas das condições desumanas que horas antes tinha acabado de observar pessoalmente na visita que fez ao bairro da Marinha. Maria Gil, ativista cigana convidada para intervir na sessão, membro da Associação Saber Compreender e atriz no Colectivo PELE, começou por dar o seu testemunho, afirmando que, “o que eu vi hoje, ultrapassou tudo o que eu até aqui tinha visto, enquanto mulher portuguesa cigana que sou e enquanto ativista”.
Mas procurando resistir ao aflorar das emoções, adiantou que, “para além das emoções, temos que ver as responsabilidades. Não podemos continuar a alegar que foram vários governos (…)”, porque nesse caso teríamos que ir séculos atrás, “ao decreto do rei que proibia alugar casas a ciganos”. “A verdade é que estamos em 2018”, afirmou Maria Gil, que espicaçou o debate, “eu só espero que o que vi hoje, não seja pela condição de serem portugueses ciganos. Não quero acreditar em tal! Prefiro achar que é um problema de estrutura. Que é uma questão estrutural no nosso país e das nossas instituições, que têm de ser responsabilizadas”. Para esta ativista, a situação das famílias no bairro da Marinha é de emergência, por isso terminou dizendo que, “gostava que não nos fixássemos nas esperanças, mas nas respostas que todos temos que encontrar e dar enquanto cidadãos deste país, que é de todos” concluiu.
Mesmo sem respostas concretas e de emergência como a situação exige e as famílias ciganas presentes ansiavam para os casos mais urgentes com o aproximar de mais uma época de inverno, as expetativas nas palavras do presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, proporcionaram um debate olhos nos olhos com o autarca que ouviu palavras de quem se sente desiludido de tantas promessas adiadas. Salvador Malheiro, que chegou a tempo de ver ainda a parte final do filme, fez questão de se dirigir a muitos dos presentes pelo próprio nome, começando por afirmar, que, “eu também sou dos que conheço aquela realidade há muito tempo”.
Mas, reconheceu o autarca, “o diagnóstico social de Ovar é muito complicado. Temos classes desfavorecidas por muitos lados. Temos uma classe piscatória que vive na miséria e temos outros locais no nosso Município onde se vive na miséria, e na Marinha vive-se claramente na miséria”, assumiu o edil dirigindo-se aos presentes na sessão, em que disse, “vejo aqui pessoas que mereciam estar melhor”, referindo nomes concretos de cidadãos da comunidade cigana, como, “um casal novíssimo que merecia ter uma casa. Merecia estar a viver de forma autónoma. Não está! Vejo outras pessoas que já conseguimos de certa forma minorar as suas condições de vida”, e rematou, “já estive na casa de todos! Estas pessoas têm um potencial extraordinário”.
A propósito das iniciativas, de reivindicação e denúncia das condições de miséria em que a comunidade cigana vive, Salvador Malheiro chegou mesmo a admitir que, “se eu estivesse do lado de lá, faria igual ou pior!”, manifestando ali na sessão, “tenho a certeza absoluta que todos juntos vamos conseguir”. Mas as famílias que mais sentem na pele as condições desumanas em que estão a viver, queriam naturalmente ouvir medidas concretas do presidente, no entanto, foram muitas palavras de reconhecimento e intenções, como, “o potencial das nossas comunidades está exatamente nas pessoas, e esta gente, é gente de trabalho, é gente forte e bonita”. Por isso, insistiu, “somos apologistas de integrar esta gente de forma natural. Temos medidas concretas que foram criadas de propósito para as classes mais desfavorecidas. Não só para etnia cigana, mas para toda a gente”, referindo-se ao apoio ao arrendamento em que o Município paga metade em função dos rendimentos das famílias.
O autarca destacou ainda o sistema de que se tem recorrido para famílias ciganas conseguirem alugar casa, nomeadamente através de alocação, “não podemos fazer mais!” afirmou, para de seguida esclarecer algumas expetativas que pairavam nesta comunidade, sobre a possibilidade do referido edifício “rosa” na Avenida D. Maria II, em fase de aquisição à CGD pela Câmara Municipal de Ovar, poder ser uma eventual solução de alojamento de famílias desta comunidade de etnia cigana.
Sobre o edifício “rosa” que está há muitos anos inacabado e abandonado, o presidente pôs fim a qualquer réstia de esperança ou ilusão, quando afirmou, “não é para os ciganos, é para aumentarmos o leque de casas para serem colocadas à disposição de quem mais precisa, com regras perfeitamente esclarecidas para todos”.
Numa noite em que a comunidade cigana ganhou direito a uma sessão pública para debater com frontalidade e serenidade, as suas condições de vida, reivindicando “dignidade”, o autarca referiu também que num Orçamento municipal anterior foram colocados “100 mil euros para requalificação ou novas casas, mas esse objetivo não vai resolver o assunto”, reconheceu, assumindo por isso que, “temos uma estratégia maior!”, que passará sempre, em termos de casas para respostas sociais habitacionais, pela requalificação do edifício “rosa”, mas como afirmou, “vai demorar tempo!”.
Ora tempo é o que já não têm as novas gerações, e no presente, as crianças e jovens desta comunidade cigana em meio escolar, que justamente exigem melhores condições de vida, com mais “dignidade” e integração plena na sociedade que não os pode continuar a descriminar, como durante vários séculos tantas outras gerações o foram, vitimas.
01dez18








