Menu Fechar

A pena mais pesada

Ana Costa de Almeida

Em época natalícia, de renovação, de esperança no ano advindo, merecem lembrança aqueles que não encontraram ou não encontram paz, com a memória atormentada por erros do passado, por muito tempo que tenha já decorrido.

Para além do que sejam problemas, preocupações, anseios de cada um, há quem vivencie em cada dia o que fez e causou no passado, por muito longínquo que este possa já ser, numa pena que se perpetua.

Aquele cujo olhar perpassava as grades da prisão, alcançando o seu país e a família a cinco mil quilómetros daquele lugar fechado, isolado, onde não podia ajudar a prover ao seu sustento. Esse mesmo que, menos de um ano depois, olhava o céu que não tinha visto da sua cela durante dois anos, agora percorrendo as ruas porque recuperada a sua liberdade, mas já não o contacto e o convívio com o seu pai, que, desesperado com a detenção do filho, morrera lá longe entretanto.

Aquele que, preso há já mais de dez anos, apelava sempre a “cinco minutos” no parlatório com um advogado, para o que seria mais um desabafo sobre o homicídio da sua mulher, e mãe dos seus filhos, levado a cabo por ele quando a encontrou envolvida com o seu melhor amigo e dita já grávida deste. Relato de factos já tão distantes no tempo, mas tão presentes e recordados cada dia por aquele homem, que tantos anos depois ainda dizia amar a mulher e sentir a sua perda, sem alívio possível pelo que fez, ao longo do que vinha sendo e terá continuado a ser a sua vida.

justica (00)

O homem que foi detido em Portugal, em execução de mandado de detenção internacional emitido anos depois da condenação no seu país de origem por factos aí cometidos quando era ainda um rapaz. Esse que, sujeito a reclusão tantos anos depois, já com companheira e um filho, pugnou insistentemente por que lhe fosse permitido continuar a trabalhar de modo a, com o pouco que ganhasse, poder contribuir para a subsistência do seu agregado familiar, estando a sua companheira obrigada a ter dois empregos para minimamente conseguir assegurar o pagamento de todas as despesas. O mesmo cidadão que durante todo o tempo de reclusão escondeu do seu filho menor essa sua condição, com iguais esforço e dor da progenitora, limitando os contactos com a criança a conversas ao telefone, cada dia, como se estivesse o pai num outro lugar qualquer a trabalhar.

O rapaz que telefonou a horas tardias a advogado que o havia defendido no passado, quiçá porque, sem mais a quem recorrer na altura, sentiu que poderia encontrar forças, incentivo e calma nas palavras daquele. O advogado não viu a chamada e não atendeu. O rapaz recaiu no consumo de drogas duras, andando algures perdido e esquecido entre becos e por caminhos obscuros de onde não haverá amigos que o consigam recuperar.

A menina-criança que ainda hoje chora compulsivamente e esconde a cara com vergonha sem conseguir explicar por que, após gravidez por si levada até ao fim e ocultada de todos, magoou, em pânico e perturbada aquando do parto com que lidou sozinha e ainda menor, a sua bebé, a filha que adora, que cuida, de quem é mãe e amiga todos os dias. Menina que ouviu a sua julgadora dirigir-se-lhe de forma desumana e com indiferença para com o manifesto maior sofrimento da adolescente, sofrimento que persiste e sempre persistirá dentro dela, como a verdadeira “pena” mais pesada.

Tantos são os que (sobre)vivem sem se conseguirem desprender de feitos e prejuízos grandes causados a outrem e a si próprios, sendo o erro em si, e o que por causa dele sentem, pena que perdura durante anos, senão para sempre.

E o Advogado, de perto e confidente, vivencia esses sentimentos, esses tormentos, assimilando-os, acumulando-os, gerindo-os interiormente. As pessoas com quem lidou e os sentimentos por estas intensamente vividos estão, e assim permanecem, presentes na memória do Advogado, quais fantasmas adormecidos que despertam a qualquer momento e, por vezes até em rodopio, se manifestam e o marcam enquanto pessoa e no profissional que é.

A lembrança das dores dos outros é intrínseca ao Advogado e um seu privilégio, pelo que pôde participar na vida de outrem e para ela contribuir como melhor soube. Ainda que se trate de pena pesada que, de ofício, também sobre o Advogado impende e perdura, os fantasmas de dias, meses, anos passados trazem-lhe também de novo o consolo da ajuda que prestou, e o sentido de quão enriquecedor é ser-se Advogado, na forma como se cruzam e se marcam mutuamente vidas humanas.

Foto: pesquisa Google

01jan19

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.