O Auto da Barca do Inferno é, decerto, um dos textos mais conhecidos do teatro português. Trata-se, em primeiro lugar, de uma obra sobre a qual já muito se escreveu. Existe investigação abundante e minuciosa sobre as “fontes” da peça por exemplo. Onde pode Gil Vicente ter encontrado inspiração para o julgamento a que submete as suas personagens? Qual seria o tipo de relações que o dramaturgo mantinha com o Poder? Até que ponto poderia ele ir na sátira que dirige à corte e à sociedade do seu tempo?
A Escola da Noite e o Centro Dramático de Évora decidiram juntar-se e levar por diante um projeto conjunto, pensando prioritariamente nos públicos escolares. E em boa hora o fizeram. As duas companhias vêm mantendo com Gil Vicente, desde há muitos anos, uma proximidade regular e feliz. O resultado é, por isso, excelente. Fica-nos na retina um notável aproveitamento do espaço, figurinos ajustados e inventivos, uma organização surpreendente do movimento e, sobretudo, o notável desempenho dos atores.
Vendo o espetáculo (espera-se que existam condições para que ele chegue, o mais possível, às escolas portuguesas) somos convidados a pensar em temas de sempre: Vida e Morte, Bem e Mal, Ter e Poder. E, para tal, nem sequer precisamos de sair completamente do século XXI. Com os pés assentes no nosso tempo, bastará apurar o ouvido e a visão para escutarmos a sensibilidade e a moral do século XVI. No final, só podemos concluir que essa época não está ainda tão afastada de nós como pode parecer.
Sessões escolares de 9 a 18 de Janeiro às 10:30 e 15:00 horas
Público em geral 19/1 às 21:30h e 20/1 às 16:00h
Reservas: 266 703 112 – geral@cendrev.com
Texto e fotos: Cendrev / EeTj
01jan19