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CANTAR DOS REIS EM OVAR: UMA TRADIÇÃO COM MENSAGENS DE ESPERANÇA

O património cultural que representa o tradicional Cantar dos Reis em Ovar pode não reunir consenso sobre a sua fidelidade às origens reiseiras nesta cidade, ou mesmo os esforços coletivos na preservação das suas típicas características como tradição secular. Mas indiscutivelmente ao longo do período de Reis, em que diferentes Troupes de Reis de adultos e infantis se mobilizam e desdobram para cumprir este ritual da caminhada reiseira, é sempre um dos momentos em que a comunidade ovarense partilha com grande entusiasmo, eloquentes mensagens de esperança num tempo de tantas inquietações, de riscos de retrocessos civilizacionais, de ódios e fundamentalismos entre povos. São pois reconfortantes as mensagens reiseiras que por terras de Ovar e arredores, deixam paz, amor e poemas com palavras declamadas, como, “Meninos migrantes / de sítios distantes / vítimas da guerra / fugindo da fome / em busca de paz, em busca de pão / Vinde! Vinde! / Esta é a Lusitana terra / e o amor que a consome / é acolher-vos / de todo o coração!”, cantando ainda em coro a Troupe de Reis do Orfeão de Ovar, “Enquanto houver uma criança (…)”.

José Lopes

(texto e fotos)

Durante cerca de uma semana em que a atividade reiseira é mais ativa para o cumprimento do programa de saídas e atuações de cada Troupe de Reis em casas de famílias, cafés, coletividades, instituições e cada vez mais em encontros de Troupes organizadas por diferentes entidades, como Bombeiros Voluntários de Ovar, em que a sua Troupe de Reis arrancou no dia 2 de janeiro para cumprir a tradição ao mesmo tempo que recebia em casa todas as que este ano saíram à rua. Seguiram-se várias outras noites reiseiras organizadas, como no Orfeão de Ovar e Centro Social da Habitovar. Uma experiencia que este ano foi também ensaiada pela Casa da CONTACTO. Encontros que também se alargam às freguesias de Válega e Arada, ainda que com diferentes critérios nos convites, já que uns são abrangentes na representatividade, e outras organizações destes encontros mais citadinos, limitam-se a dar palco às Troupes de Reis “ditas” mais características e representativas do tradicional Cantar os Reis em Ovar, em que se destacam, até pela sua longevidade ininterrupta ao longo de várias décadas, as Troupes de Reis da JOC – LOC, Ovarense e Orfeão de Ovar, visivelmente consolidadas pela passagem de testemunho de geração para geração.

É no entanto inquestionável o contributo que vem sendo igualmente dado a esta tradição em Ovar, por várias outras troupes que também, mais uma vez não deixaram os seus créditos reiseiros por mãos alheias. Tanto a da Ribeira com a sua particularidade de composição mista (masculina e feminina) de que é pioneira, como da Boa União, BV de Ovar e a Tradição & Juventude que, reconhecidamente representou a quando do seu aparecimento, uma garantia do envolvimento da juventude na preservação da tradição, ainda que com seu cunho muito próprio que também vem marcando o seu lugar com atuações irreverentes nestes palcos do Cantar dos Reis. Outros exemplos são dignos de registo, como a Casa da Amizade que, com persistência, soube afirmar-se no lote de Troupes de Reis que, incluem admiráveis ritmos reiseiros, igualmente assumidos pala ACR de Sande, Salgueiral e Cimo de Vila, bem como os Fogueteiros de Arada.

Particular relevo na divulgação e preservação da tradição, vem tendo já com uma longa experiencia reiseira, as troupes de Válega, como a da ACR de Valdágua, Associação dos Antigos Alunos da Escola Oliveira Lopes e Casa do Povo de Válega. Esta última teve mesmo a feliz iniciativa de cantar na casa do reiseiro Manuel Ferreira, autor das letras e músicas desta troupe. Um gesto recheado de simbolismo, uma vez que, o Manuel Ferreira por questões de saúde está alguns anos limitado na sua mobilidade e deixou de poder acompanhar com sua alegria e entusiasmo, com sua voz e violão, tal azafama que durante décadas lhe foi tão peculiar, de rua em rua, em noites frias como se fizeram sentir este ano sentir.

Tal como se assiste a um saudável rejuvenescimento na componente das Troupes de Reis, tanto nos coros e solistas, como nos instrumentais em que se cruzam autodidatas, músicos, profissionais e alunos das diferentes escolas de música locais, destacando-se sonoridades musicais de instrumentos de cordas tão característicos desta tradição, como os violinos, violões ou violas. Também se vão afirmando autores de letras e músicas que vão substituindo nomes de veteranos reiseiros que enriqueceram este património cultural. Maria Luísa Resende é mesmo uma das autoras de letras que ainda resistiu a escrever, como vinha sendo habitual entre outras colaborações reiseiras, para a Troupe de Reis da Ribeira, apesar das debilidades do seu estado de saúde, deixando em jeito de mensagem de despedida, dúvidas, “Somos todos boa gente? / Boa pinta… boa raça… / Lágrima pronta a saltar / Quando escutamos desgraça / E a emoção acontece?”. Autora durante décadas das letras na Troupe de Reis do Orfeão de Ovar, que este ano teve a colaboração de Manuel Ramos Costa na autoria das letras, Maria Luísa Resende e outros reiseiros, como, António Redes Cruz e José Muge, tiveram palavras de agradecimento por parte da Troupe com quem colaboraram nos poemas e nas músicas. Gratas palavras que diziam:

“Órfãos da vossa participação activa, porém eternamente gratos!

Seguimos imbuídos do mesmo espirito, incorporando os vossos ensinamentos e carisma transmitidos durante décadas de partilha.

Um ciclo se fecha, outro se abre.

A tradição é intemporal, mas rejuvenesce.

A tradição é tradição!”

A longa caminhada reiseira de todas as Troupes de Reis, mesmo das que se assumem como “Trupe”, como manda a tradição teve como ponto alto o Encontro do Cantar dos Reis no Centro de Artes de Ovar (CAO) no dia de Reis (6 de janeiro), no mesmo palco em que se encontraram igualmente as troupes infantis no dia anterior. Ambos os encontros separados por diferentes públicos, mas com a mesma finalidade de afirmação, preservação e valorização deste modo de Cantar os Reis em Ovar, têm ainda a particularidade de ser o momento e oportunidade das diferentes Troupes poderem assistir às atuações umas das outras, num animado ambiente de verdadeiro espirito reiseiro, ainda que nessa mesma noite se concluam algumas das visitas programadas, como uma das tradições já marcante na cidade de Ovar em que se pode ainda assistir à passagem de várias Troupes no Café Avenida, fazendo reviver um tempo em que alguns outros cafés fecharam portas.

A noite do Cantar dos Reis no palco do CAO foi ainda oportunidade para o lamento do presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, referindo-se ao atraso por parte do Ministério da Cultura na apreciação da candidatura do Cantar dos Reis a Património Cultural Imaterial de Portugal. Uma inscrição, que segundo o autarca deveria demorar, no máximo, 120 dias, mas desde 2016 em que a candidatura foi apresentada em conjunto com a Universidade de Aveiro, a apreciação continua adiada. Salvador Malheiro deixou a garantia de continuar a interagir com o Ministério da Cultura para que este património reiseiro, muito específico de Ovar, seja finalmente reconhecido e venha a obter a devida confirmação da inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Revista Reis de 2019

Quase com tantos anos de tradição como a Troupe de Reis da JOC-LOC que a fundou, a Revista Reis vai na sua 53.ª edição. Uma publicação anual que sai à rua transportando mensagens reiseiras com a própria Troupe formada em 1959 na sequência da Troupe do Comércio e Indústria ter terminado, saindo pela última vez em 1958. Memórias que um dos protagonistas desta fase de constituição da Troupe JOC-LOC, inicialmente designada JOC e Escutas, como é João Costa, figura reiseira que desde a primeira hora integra também a equipa da Revista Reis, escreve neste n.º 53, em que, deixa mais alguns apontamentos sobre o historial da Troupe JOC-LOC a Cantar os Reis há sessenta anos. Segundo destaca João Costa, 60 anos, “foi percorrer um caminho de uma velha tradição nascida em 1883, pela vontade de meia dúzia de reiseiros, entre eles, Alves Cerqueira, que escolhia as músicas, e António Dias Simões, o poeta que escrevia as letras”.

A Revista Reis 2019 tem como tema de capa o recentemente falecido Dr. Alberto Lamy, como “advogado e homem de cultura 1934 – 2018”, figura ilustre reconhecida igualmente nas letras como historiador local, a quem são dedicados texto assinados por Manuel Pires Bastos, Inez Andrade Paes, Augusto Arala Chaves, Manuel Bernardo e Salvador Malheiro.

Das várias outras rúbricas que habitualmente integram o conteúdo da Revista, destaca-se “Figura Reiseira”, que este ano é dedicada à memória do reiseiro da Trupe da Ovarense, António Sanfins que faleceu a 29/08/2018. Entre outros temas que vão de “A emigração Vareira para o Douro”, por José Neves. “Artes e Ofícios – Carolices do Avô Carlos”, por Joaquim Fidalgo “Miguel Oliveira – Carnaval Sujo”, por Maria Amélia Tavares, “Terras e Gentes” com referencias a todas as oito Freguesias (ainda que a fusão administrativa tenha reduzido a quatro), ou ainda “Prémio Nobel da Paz 2018”, por Clara Casaca. Estes são alguns dos conteúdos de um instrumento fundamental na recolha e compilação de memórias das tradições e do diversificado património desta terra, em que ficam mensagens como escreve Maria Amélia Tavares, “Esse tempo será um tempo novo, / E do teu sentimento mais profundo e / Nascerá uma ESPERANÇA-ESTRELA-GUIA / Que brilhará, para sonhares um NOVO MUNDO!”

01fev19

 

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