Carmen Navarro
Os pregões do Porto, antigos e já quase todos desaparecidos, davam um sabor popular e musical à cidade que assim acordava ouvindo os célebres pregões da época apregoando os bens essenciais. Pregões que por vezes faziam pequenos versos e que ainda trazem recordações a muitos.
Desde longa data os tripeiros receberam bem os mais variados vendedores ambulantes. Por aqui circularam vários negociantes, muitos vinham ao sabor das estações do ano e, alguns eram anuais.
Todos eles se distinguiam pelos usos e costumes.
Minha rua está cheia de pregões.
Parece que estou vendo com os ouvidos:
“Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!”
Eu vou sair pra festa dos ruídos,
Mas vem, Anjo da Guarda… Por que pões
Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
Anda: escutemos esses palavrões
Que trocam dois garotos atrevidos!
Pra que viver assim num outro plano?
Entremos no bulício quotidiano…
O ritmo da vida nos convida.
Vem! Vamos cair na multidão!
Não é poesia socialista… Não,
Meu pobre Anjo… É… simplesmente… a Vida!…
Mário Quintana
O ardina, figura que tem uma estátua no Porto: Os ardinas de boné, casaco e grande saco aberto em L, foram uma figura típica do Porto. Alegravam as ruas da cidade com pregões. Para cada jornal o ardina tinha o seu pregão diferente e, acrescentavam “traz a ultima” “traz o roubo” ou “traz o crime”, “Olha o Noticias já trás o desastre ”o ardina na sua correria e pontaria, dobrava o jornal e mandava para as janelas mesmo as mais altas dos seus fiéis cliente, ou de um ou outro que o solicita-se e não falhava a pontaria, entrava e saía do Elétrico, mesmo em andamento, despertando o interesse na leitura e conquistando a admiração e o carinho da população. Era hábito logo de manhã a leitura, ou à tarde à saída do emprego ir até ao café, o leitor alugava por metade do preço o jornal ao Ardina, lia o que lhe interessava e voltava a devolver. Os ardinas faziam fila à porta dos Jornais para o receberem logo que estava pronto, para serem dos primeiros a chegar à Baixa.
A profissão de ardina foi se extinguindo por volta dos anos 70 do século XX, os jornais criaram as suas distribuidoras. Pela evolução da sociedade a maioria dos vendedores ambulantes desapareceram. Hoje ainda há vendedores ambulantes mas já não usam o pregão e normalmente têm local fixo que pagam anualmente.
Do meio da rua
(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito…
Como se no braço
Me tocasse alguém
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.
Outrora em criança
O mesmo pregão…
Não lembres… Descansa,
Dorme, coração!…
Fernando Pessoa
Foram tempos de alegria, ainda lembro alguns dos pregões mais vulgares no quotidiano. Ninguém se preocupava se os alimentos vinham bem ou mal embalados, se a higiene era escrupulosa, mas sei que os alimentos eram muito mais frescos do que hoje e tinham um sabor divinal. Não existiam congelados e poucas eram as pessoas que usufruíam de métodos de refrigeração, pois era um luxo para muitos. Pregões ainda ouvíamos alguns no Mercado do Bolhão, mas mesmo esse acabou, no espaço que hoje ocupam num Centro Comercial é proibido apregoar.
Pregões da Invicta que o tempo levou, Porto antigo de outros tempos, que o tempo moderno matou.
As vareiras com a sua canasta forrada de oleado á cabeça e, com os seus pregões cantantes despertavam a cidade:
“dagora biba!» ou «faneca da linha!”.
Oh Bibaaa da costaaaa.
Olha a sardiiiinha, é bibiiinha é da nooossa
Há carapau e sardiiinha linnnda.
Há Chicharro liiindo e fresquiiiinho, olha o carapauuu para o gaaato.
Ó fregueeesa desça a vaiiixo.
Ó fregueeesa leve um quarteirõue, é fresquiiinha a minha sardiiinha.
Tenho Chichaaarro lindo, carapau, pescada fiiina.
O azeiteiro ou pitrolino, homem com a sua carroça de chapa bem pintada, com torneiras de latão e burro a puxar, tocava a cornetinha “Pitroline, Azeite e binaaagre.”E vendia : vassouras, apanhadores, esfregões de alumínio para a loiça, sabão azul e branco.
Outro pregão que se ouvia logo de manhã, era o das galinheiras, que anunciavam assim: «Mééc-a galinhas ó frangos!»
As frutas ditas pobres eram as da época que existiam em grande quantidade e a fruteira aparecia.
A fruteira de Gigo enfeitado com verdes á cabeça apregoava: “Olha a bela la-rããja é da vaiiia…” “Mééc-a la-rããja
Por vezes também vendia hortaliça e aplicava a sua brejeirice:
“Ó fregueeesa benha ver os meus tomaaates, selaaada, trago pencas ó trinchudas é para o vacalhau”! “Mééc-a nabiças e alhos “ ( Mééc-a = Merca)
Vendedor da “banha da cobra”
Não custa dez nem quinze. Custa apenas vinte e cinco tostões!
Utensilios de madeira:
Mééérca cadeeeiras ou vaaancos, ó caixões de labááár”colheres de pauuu ou alhos ( tudo encarrapitado seguro por cordas e levado em equilíbrio à cabeça, no braço um cesto com os alhos e as colheres de pau).
O sorveteiro com o seu triciclo de caixa branca de madeira fechado e com duas aberturas de metal com tampa, ora tocando a campainha ora apregoando:
“Olh’ó gelado, frutóóóó ó chocolat, há baunilha
“Olh’ó o rajá fresquinho”
“Olh’ ó cone sorvete “
Pela manhã ou pela tarde passava o farrapeiro que num grito forte dizia:
“Está cá o ferro belho ”
“Quem tem trapos, ou garrafas que queira bender”
“Quem tem por´i metal, zinco ó chumbo, fatos pra bender”
O amolador com o seu carro todo em ripas de madeira, com uma grande roda e pedal que servia para mover a pedra, por vezes já bastante gasta, o homem de um modo geral galego, com boina preta e tocando a sua flauta de cinco tubos semelhante a uma flauta de Pam de som melodioso e muito característico que o identificava logo, mesmo vindo longe. (Na entrada Norte do Mercado do Bolhão ainda existia um e por incrível que pareça ainda à poucos dias passou um na minha rua.)
“amola tisoiras ó nabalhas!”
“Cá está o amolador, p’ra compor guarda-chuvas. Deito gatos em louça fina, olha o amolador á porta.”
Lá vinha o funileiro com o seu ferro de soldar sempre acesso e caixa de madeira às costas a apregoar
“Tachos panelas e alguidares p’ra compor, deito fundos de tachos!”
E o cauteleiro, já cansado com o seu boné com chapa identificadora reluzente. Era obrigatório estarem identificados com uma chapa com um número que lhes era atribuído pela SCM
“Olha a sorte grande, amanhã anda a roda.
Só sai a quem joga, olha a sorte grande.”
Castanhas cozidas. Perto da Estação de S. Bento, num cesto forrado de serapilheira o homem das castanhas vendia-as ainda quentes embrulhadas em cones feitos de papel de jornal.
“ Castanhas cozidas quem as quer quentinhas”
Os pregões não foram exclusivo dos Tripeiros, em Lisboa também se apregoava.
Lisboa dos Pregões
Lisboa de sol dourado
De manhã começa o dia
Começa-se a ouvir um fado
Na voz rouca de um rufia
Mas também há o pregão
Que se diz alfacinha
Como bate o coração
Ao ouvir a voz do Ardina
Com seu traje pitoresco
Aparece em cada esquina
Apregoando peixe fresco
Lina moça, bela varina.
Ouve-se o limpa chaminés
de cara suja e tisnado
Que veste macaco e boné
com cordas sobe ao telhado
Não se acumulam trapos
porque alguém os vai comprar
“Quem tem trapos ou farrapos
Pergunta o Trapeiro ao passar.
Ninguém fica sem almoçar
porque a velhinha Tia Chica
com voz melodiosa a cantar
apregoa a fava rica.
Esmerado o engraxador
na sua banqueta sentado
Põe os sapatos um primor
seja preto ou acastanhado.
Lisboa ficava mais bela
com tudo aquilo que era seu
À luz de um candeeiro
trabalhava o sapateiro
Da capa rota eram figos
os pregões todos amigos
Mas quase tudo se perdeu
Resta-nos para não esquecermos
o vendedor de castanhas
O carteiro e o calceteiro
O vendedor de gelados
tantos pregões apregoados
Tantos pregões que perdemos.
Aline Rocha
Estes são alguns dos pregões que a minha memória guarda. Vender é uma arte.
Fotos: pesquisa Google
01fev19





Ainda recordo com saudade alguns das peixeiras, dos amoladores, dos funileiros, dos vendedores de fruta, dos amoladores e guarda-soleiros, dos ardinas, dos vendedores de gelados e dos vendedores de bolos na praia.