A tradição do Cantar dos Reis em Ovar cujas características que a distinguem de tantas outras, como as “janeiras”, vêm de 1883 em que, os reiseiros, Alves Cerqueira e o poeta António Dias Simões lhe deram a forma muito peculiar na originalidade das letras e músicas, como especificidade cultural que vai resistindo ao longo dos tempos, com alma e paixão assumida de geração em geração, por cada Troupe de Reis na defesa e valorização deste património cultural, ainda que, com diferentes resultados artísticos na sua afirmação, expressão e inovação. Uma evolução na tradição de que vão ficando para memória coletiva registos na imprensa, como alguns destes humildes “tributos” à tradição, que o autor deste trabalho, entretanto ao serviço do Etc e Tal jornal vem partilhando na sua colaboração com a imprensa.
Entre os vários anexos de recortes da imprensa local com alusões a esta tradição ao longo de mais de um século, que acompanharam o projeto de candidatura do Cantar dos Reis de Ovar a Património Cultural Imaterial de Portugal, cuja inscrição na Matriz do Património Cultural Imaterial dois anos após a sua apresentação (2016), ainda não foi alcançada pelo Município de Ovar que em 2014 assumiu tal projeto de candidatura em conjunto com a Universidade de Aveiro. Pode-se encontrar o texto “A tradição mantem-se no século XXI” (Jornal de Ovar, 07/01/2000). Trata-se de um dos vários trabalhos das últimas décadas que o autor teve natural privilégio de ver selecionado para valorizar uma tal candidatura, que entretanto se veio a saber, ainda nas noites reiseiras (janeiro), que faltava enviar o suporte físico do processo, para completar a candidatura.
“Um lapso”, reconheceu ao jornal Diário de Aveiro (27/01/2019), o coordenador científico da candidatura, Jorge Castro Ribeiro da Universidade de Aveiro, por não ter sido enviado o processo em papel, ainda que toda a documentação tenha sido submetida na MatrizPCI (online). Segundo lamentou o coordenador cientifico ao referido diário, “agora, passados dois anos, lembrou-se de nos avisar, provavelmente porque houve alguém da Direcção Geral que só agora fez o seu trabalho. Mas podia tê-lo feito há mais tempo”. Apesar deste percalço num processo que começou a ser preparado em 2014, a comunidade reiseira mantem-se consciente do seu papel indispensável na defesa e preservação de tão rico património cultural de Ovar.
Sem nunca ter vivenciado o ambiente reiseiro como elemento ativo numa Troupe de Reis ao longo de seis décadas, tradição a que o autor desta peça se limitava a assistir e acompanhar a sua evolução, ainda com memória da realização da Noite de Reis na Praça da República, em que as antigas Troupes cantavam os Reis nas escadarias do edifício da Câmara Municipal de Ovar de forma espontânea, sem a organização a que passaram a estar dependentes até aos dias de hoje. Viria a ser nesta relação com a imprensa local, que se proporcionariam várias abordagens sobre o tradicional Cantar dos Reis em Ovar, com apontamentos e registos sobre vivencias reiseiras que incluíram experiencias pessoais no seio de várias Troupes nas suas atuações em vários palcos, durante esta atividade de colaboração com a imprensa que se mantem nos últimos anos com este jornal online.
Estes primeiros textos sobre o tema Cantar dos Reis em Ovar coincidiram com o Centenário assinalado em 1993, mas “falar da História dos Reis em Ovar, é difícil, tanto mais que esta tradição tem uma característica, também muito própria, ao longo deste século dominada pela espontaneidade.”, afirmava-se em “Os Reis – 100 anos de Tradição” (Região de Aveiro, 20/01/1993). Na edição anterior deste mesmo semanário os reiseiros da Ribeira partilharam, “Uma tradição que não se perde – No dia-a-dia de uma Troupe de Reis”, (R.A., 13/01/1993). Dois anos depois, “JOC-LOC encantou” (Jornal de Ovar, 13/01/1995), ao cantar para uma comunidade escolar (Escola da Habitovar), surpreendendo uma equipa de reportagem do jornal do Ministério da Educação, “Noticias da Educação”. A influência da tradição começava em tenra idade, “Crianças reiseiras no Furadouro” (J.O., 12/01/1996).
O privilégio de absorver as vivências reiseiras, teve então início com, “Roteiro reiseiro em Ovar” (Jornal de Noticias/página do leitor, 26/01/1997), em que “nas noites frias que antecedem o habitual desfile de troupes no palco do Cineteatro de Ovar, no dia 6, foi gratificante acompanhar algumas das troupes de reis da freguesia de Ovar (…)”. No ano seguinte num trabalho assinado com Manuela Morgado, “Cem anos de história” (J.O., 09/01/1998), reafirma-se, “uma tradição secular que, crêem os vareiros, jamais se esquecerá”. Uma afirmação consubstanciada no envolvimento da comunidade local, como uma das particularidades desta época reiseira em que, “Famílias abrem as portas à tradição” (J.O., 16/01/1998). Este trabalho faz particularmente referência a uma das características da tradição reiseira, como eram as visitas das Troupes de Reis a casas de famílias tradicionais da burguesia local que, em ambiente acolhedor ouviam as melodias de “apresentação”, “mensagem” e “despedidas” pelas vozes resistentes ao frio de noites geladas e o instrumental com predominância das cordas como manda a secular tradição.
Do lote de Troupes de Reis que se consolidaram e chegaram aos dias de hoje como elementos fundamentais deste património cultural, destacou-se pelos contributos na renovação e afirmação da tradição a Troupe de Reis da Escola EB 2,3 António Dias Simões, que foram “Novos embaixadores reiseiros” (J.O., 08/01/1999) ao deslocar-se à Assembleia da República no mesmo dia em que a JOC-LOC cantou para o então Primeiro-ministro António Guterres, “Reis na Capital” (J.O., 08/01/1999). Mas a “Troupe de escola de Ovar há 10 anos a cantar os Reis” (J.N./p.l., 29/12/1999), acabaria por ficar pelo caminho.
Com o bom exemplo das Troupes de Reis mais características e com particular responsabilidade na preservação do típico Cantar dos Reis em Ovar, “A tradição mantem-se no século XXI” (J.O., 07/01/2000), tanto pela Ovarense, Orfeão de Ovar ou “JOC-LOC no novo milénio com «velha» tradição” (J.O., 04/01/2001).
Hoje já chegam à TV, mas na época os reiseiros de Válega não eram propriamente os escolhidos para a divulgação e promoção deste património cultural, ainda muito limitado às “velhas” e “citadinas” Troupes. No entanto foi igualmente um privilégio dar-lhes voz e conhecer a sua igual dedicação e paixão à tradição. Assim, “Tradição «reiseira» canta-se em Válega” (Diário de Aveiro, 17/01/2001) ou “Reis animam freguesia” (J.L., 11/01/2001), foi uma oportunidade de conviver e conhecer melhor a tradição nos arredores da cidade de Ovar através da Troupe de Reis de Valdágua.
Foi ao longo destas décadas, uma verdadeira “Maratona reiseira” (J.O., 11/01/2001), acompanhada com particular entusiasmo como vareiro e na qualidade de colaborador de imprensa para escrever histórias vividas e partilhadas pessoalmente no seio destas famílias reiseiras, sempre renovadas por gerações mais novas que a partir das escolas estão a “Aprender a tradição dos reis” (J.O., 11/01/2001) e lá voltam como adultos reiseiros “Os Reis na escola” (J.O., 09/01/2003).
A magia do encontro das Troupes de Reis teve várias décadas como palco extraordinário o Cine-teatro de Ovar que era sempre “Casa cheia para ouvir o Cantar os Reis” (J.O., 10/01/2002). Um edifício que desde os anos 50 era o espaço cultural da cidade com significativa capacidade de lugares, que deixaram de existir com o estado de degradação e sobretudo as opções dos autarcas que deixaram esta sala à margem de qualquer aposta municipal, quando o investimento se projetava para o Centro de Artes de Ovar (CAO), que é hoje o palco privilegiado da tradicional Noite de Reis.
Gratificante nestes testemunhos da consolidação e rejuvenescimento das Troupes de Reis, são também o acompanhamento de “Gerações de vareiros a cantar os Reis” (J.O., 08/01/2004) e em alguns casos, a darem nova vida ou até a recuperarem memórias reiseiras, como a Troupe de Reis dos Bombeiros Voluntários de Ovar, que, como “A tradição subiu ao palco” (J.O., 13/01/2005), para “Cantar os Reis” (J.O., 06/01/2005), assinalando o ressurgimento da Troupe dos BVO com letras e músicas de Edwiges Helena. Testemunhos a que não escaparam Teresa Queirós, “Vendedora de frutas e da revista «Reis»” (J.O., 13/01/2005).
Nesta extraordinária experiencia de contato com, “Diferentes gerações reiseiras” (J.O., 05/01/2006), ficaram ainda que simbólicos “tributos” a esta tradição, um conjunto de memórias reavivadas por veteranos reiseiros e suas gerações familiares, como João Costa (JOC-LOC), Américo Oliveira (Orfeão de Ovar), José da Vesga, que durante muitos anos participou ativamente e escreveu letras e músicas da JOC-LOC, ou ainda Álvaro Branco, solista em várias troupes que viria a dividir esta sua paixão entre a Troupe Ovarense e por fim a dos BVO como exemplar soldado da paz nesta Associação Humanitária. Memórias registadas nestes ambientes únicos, que permitiram observar a evolução geracional das Troupes, as substituições naturais de algumas figuras reiseiras reconhecidamente carismáticas, como António Brandão (Ovarense) ou José Muge (Orfeão de Ovar), alguns dos que foram deixando histórias por este meio partilhadas, e que alguns destes trabalhos “absorveram” em papel de jornal que, aqui se deixam alguns registos, como contributos para este património cultural.
Nesta centenária tradição a Troupe de Reis do Orfeão de Ovar assinalou em 2007 meio século, “50 anos a preservar a tradição” (J.O., 04/01/2007), enquanto a da Ribeira mantem ainda hoje a “Tradição reiseira no feminino” (J.O., 04/01/2007).
A necessidade de palcos alternativos ao Cine-teatro de Ovar, levaram como recurso a um amplo espaço para acolher a Tradição, à realização de algumas edições do Encontro de Troupes no Salão dos BVO para, “Cantar os Reis há 115 anos” (J.O., 10/01/2008). Entretanto também era atingido o “Meio século da JOC-LOC na secular tradição reiseira” (J.O., 23/01/2009). E assim até hoje o Cantar dos Reis se manteve como, “Tradição vivida com muita emoção” (Praça Pública, 06/01/2010). Estes são alguns dos registos sobre uma das bonitas tradições, que o Etc e Tal jornal também continua a dar relevo.
É assim com este empenho e entusiasmo assumido por diferentes gerações, que esta tradição enraizada na comunidade vareira, que envolvem nestas Noites de Reis cerca de 700 reiseiros que integram mais de vinte troupes de adultos e infantis, que se aguarda o reconhecimento e valorização deste património cultural através da inscrição do característico Cantar dos Reis de Ovar na Matriz do Património Cultural Imaterial.
Texto e fotos: José Lopes
01mar19













