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HÁ SINAIS DE “FENDAS” NA MURALHA DE PEDRA DO FURADOURO!

Das diferentes fases de obras de consolidação, das defesas de pedra ao longo da praia do Furadouro, cinco anos depois da intervenção que resultou no reforço de uma longa muralha a norte do esporão central, os sinais de “fendas” que nestes poucos anos se têm acentuado, mesmo com pontuais recolocações de pedra, persistem e são bem visíveis vários pontos de desagregação do nivelamento da estrutura da muralha que assim vai cedendo à constante erosão e aos efeitos das marés vivas mais violentas, que habitualmente fazem, com maior ou menos impacto a ondulação galgar a Marginal.

José Lopes

(texto e fotos)

O cenário de aparente fragilidade desta muralha, com vários pontos de risco que deixam entradas escancaradas e facilitadoras para mais rápidos galgamentos, não sendo uma novidade, são fatores inquietantes na zona central do Furadouro que obrigam, na linha do tipo de intervenções de reforço das defesas costeiras nesta zona urbana, a medidas preventivas mesmo que sejam paliativos, como vem acontecendo há várias décadas a enterrar muitos milhões de euros na areia, que curiosamente não fica “saciada” de engolir pedra sobre pedra.

A gestão dos efeitos da erosão e as consequentes medidas de intervenção, ainda que sejam competência da Administração Central como Ministério do Ambiente e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), esta tem merecido por parte do Município de Ovar a disponibilidade de assumir competência do Governo, nomeadamente no que toca à procura de soluções ainda por testar na costa portuguesa, como os quebra-mares submersos destacados, uma infraestrutura que reclama alcançar com o que considera, uma “boa performance conseguida em 2018 na preparação e apresentação de candidaturas a fundos da União Europeia (…)”, destacando ainda o que diz ser, uma “articulação profícua com o Ministério do Ambiente, a APA e a ARH-Centro, com reflexos diretos na defesa da Orla Costeira”, segundo o Relatório de Gestão e Contas do Município de Ovar 2018.

Como é afirmado neste Relatório de Gestão e Conta, “no momento certo, substituímo-nos à Administração Central, criando condições para garantir a realização de investimentos prementes de defesa da nossa costa e que farão a diferença quanto às soluções técnicas até aqui preconizadas”. Uma referência ao quebra-mar e à inventariação do estudo de impacto ambiental deste projeto de “Obras de Proteção Costeira Complementares, na Praia do Furadouro e Cortegaça”. Projeto inevitavelmente experimental que, caso se concretiza, certamente nos próximos anos exige simultaneamente sucessivas intervenções para tentar partilhar este território com o mar e os seus efeitos de erosão alternados a norte ou a sul do litoral do concelho de Ovar em que têm sido implementadas diferentes soluções e técnicas para defesa e consolidação das praias, das zonas urbanas e áreas dunares.

Uma espécie de jogo de “manta curta de retalho” do “tapa-destapa” que, no caso da zona frontal do Furadouro, zona de rebentação, em que se estão a acentuar as “fendas” na muralha, também não é viável a considerada “inovação local e de baixo custo”, como é o caso já experimentado a norte e a sul desta praia (assim como em Cortegaça), em que foram colocados geocilindros na perspetiva de regeneração dunar após rigorosos invernos que entretanto vieram fustigando a costa com fortes tempestades e agitação marítima. Intervenções na altura promovidas pela APA e Administração da Região Hidrográfica do Centro (ARH-C) que foram financiadas pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR).

A par das características dinâmicas das correntes marítimas no litoral, há não só a intervenção humana identificada há muitas décadas, com todas as suas consequências devidamente identificadas pelos especialistas nas alterações naturais da deriva litoral e o respetivo impacto da erosão costeira. Mas também há uma estranha falta de coordenação e planeamento coerente de forma ecológica e ambientalmente sustentável, relativamente às intervenções de norte a sul do país no litoral. Curiosamente, em nome do desenvolvimento económico de uns interesses, raramente se equaciona os efeitos de um determinado projeto no “quintal” do vizinho.

No caso do Furadouro ou Espinho, como povoados que mais vêm sofrendo a fúria do mar desde o último século, segundo a história do litoral norte-centro português, entre outros fatores que resultaram num significativo recuo da linha de costa, consta uma grande obra de engenharia, como foi a construção do Porto de Leixões e seus dois molhes, entre 1882 e 1892. Tal como já naquela altura, em nome de ser vital para o “desenvolvimento da economia do país”, se condenou o litoral a uma luta com “Golias”, transformando a zona litoral entre Douro e Vouga num “campo de batalha”, em que, “na tentativa de obstar a tais agressões foram sendo encetadas ao longo dos anos múltiplas ações, infelizmente convergentes numa única estratégia – o arremesso de pedra sobre o oceano” (Álvaro Reis, A Praia dos Tubarões – Ordenamento e gestão da orla costeira, 2006).

Mas mais de um século depois à “pedrada” e em nome da melhoria das condições do Porto de Leixões, que segundo o parecer favorável da APA são: navegabilidade, segurança, capacidade e operacionalidade comercial. O projeto da APDL-Porto de Leixões que implica o prolongamento do quebra-mar exterior em 300 metros e de aprofundamento do canal de entrada, lançado recentemente pela ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, em Matosinhos, volta a merecer a atenção e inquietação de ambientalistas.

Em causa podem estar os impactos deste projeto que irão ser acompanhados por um grupo de trabalho, os quais deverão certamente merecer também atenção dos autarcas dos municípios mais uma vez potencialmente sujeitos a eventuais consequências desta obra, fundamentalmente no agravamento da erosão no litoral. Preocupações que no caso da Praia de Matosinhos deram origem ao movimento “Diz Não ao Paredão Matosinhos Merece Melhor”. Um movimento que se propõe alertar e sensibilizar a comunidade em geral para a possibilidade de degradação da praia de Matosinhos, enquanto em Ovar há muito foi desvirtuado e silenciado o Movimento Vamos Salvar o Furadouro, quando as suas defesas continuam a ser fragilizadas por “fendas” na muralha de pedra.

 

Nota: O título desta peça inspira-se no título do livro de Alves Redol “Uma Fenda na Muralha”, Publicações Europa América, “(…) Vê-se-lhe a baba pastosa e branca crescer nas trevas, galgar de longe e espraiar-se em raivas que não encontram agora onde cevar a violência.”

01mai19

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