Carmen Navarro
Não digo que antigamente é que era bom, não, não e não!
Mas, a verdade é que o Porto perdeu personalidade e o belo cheiro provincial de aromas antigos, costumes mais humanistas que caraterizavam os Tripeiros de caráter forte e coração mole, se foram!
Devagarinho, ao longo de todo o século não parou de crescer e caminhou rapidamente até ao século XXI, abriu as portas a todos, a todos os estrangeirismos, a cultura que saiu daí modificou a cidade. É toda esta mudança que nos confunde. Os Bairros Operários e as Ilhas desapareceram como tal, com pequenos arranjos são agora anunciadas como: “Moradias Duplex, Zona Residencial Reservada”, E os novos pseudointelectuais acham muita graça à modernidade das habitações mais privadas. E o AL também lá bateu à porta, para desencanto de muitos turistas.
Ribeira Triste
Ribeira quem te tirou
O encanto que era teu
Deixou-te vazia de Tudo
Tua beleza morreu.
Fecharam todas as portas,
Que outrora graça te dava,
Havia tudo em ti,
Agora tudo se acaba.
Foi o chamado progresso
Que à tua porta bateu
Levou o que tinhas de lindo
Em troca nada te deu.
Veio com tudo de mau,
O hipócrita te chama de linda,
Veio com estrangeirismos
Só eu te amo ainda.
Etelvina Sá

Depois de todas estas transformações a gentrificação imperou e descaraterizamos a cidade. Sei que não se pode nem deve congelar uma cidade ela não pode ser repensada à luz de outros tempos, nem pode ser museu a céu aberto, as pessoas passam e deixam a sua pegada e assim se vai perdendo referências de pessoas e espaços que caraterizavam a cidade, assim apesar da modernização ela fica mais pobre. O que é que incomoda? Será que a cidade tem que ficar igual às outras?… Pois nada impede que seja autentica, nada é imutável há que reabilitar, mas nunca transformar deixemos isso para as zonas em expansão.
Ribeira do Porto
Nesta querida cidade
A Ribeira é a saudade
Que mais fere os corações.
Está moderna e dif’ente
Mas da sua castiça gente
Só restam recordações.
A Ribeira deserta
Mas tem a sua porta aberta
Ao turismo em geral.
Os seus fixos habitantes
Já são menos do que antes
Mas o bairrismo é igual.
Neste Porto tão bairrista
A Ribeira é simbolista
De gente hospitaleira.
Ela que é tão invejada
É a jóia mais Amada
Nesta cidade Tripeira.
Fernando Alves
Não basta sermos Património da Humanidade, quando o que era genuíno se perdeu E por este andar a cidade histórica é reduzida a cenários, só fica a memória das suas gentes.
Nesta cidade que foi marcadamente industrializada, mesmo quando a máquina veio substituir o braço, as classes operárias continuavam a dar cor e voz á cidade e aos seus cafés famosos por albergarem as discussões do momento dos seus frequentadores habituais.
As cidades são feitas de memórias deixadas por quem lá viveu nas vielas, ruas e praças e largos, isso não se pode perder porque se não, ficam irreconhecíveis, embora o granito, os monumentos, o cimento estejam lá, falta-lhes a gente genuína de linguajar próprio de um bom Tripeiro que por vezes falava num calão próprio da cidade, ou dizia um palavrão que na sua boca acabava por ter graça e que geneticamente era compreensível, onde anda a fonética a graciosidade do falar à moda do Porto, é que também contribuiu para sermos património, os saberes populares tudo isso desapareceu.
O desenraizamento das populações cada vez é maior. Tudo isto parece não ter aparentes pontos de contato, mas esta é uma parte da minha cidade e certamente o mesmo se passa em outras cidades.
O Porto já foi o centro do mundo, na personalidade Tripeira “O Porto é uma naçom”.
Minha Cidade do Porto
Cidade minha, de brumas e neblinas,
Do granito cinzento, duro e forte,
Do Barredo, da Sé e das “Alminhas”
Cidade capital de todo o norte.
Das pontes majestosas sobre o Douro,
Da praça de D. Pedro, o “Liberal”
Das avenidas e das ruas estreitas,
Da gente rude, franca, mas leal,
Da linda marginal, da velha Foz,
Da Virgem e de S. Pantaleão,
Dos centenários Bolhão e Ateneu
E das noites sem fim de S. João.
Foram muitos os heróis que aqui nasceram,
Desde o Infante ao “Duque” da Ribeira.
É grande, muito grande, a tua História!
Orgulho-me mais em ser “Tripeira”!
Antónia Ribeiro
Não digo que temos que voltar ao tempo de má memória em que as carrejonas acarretavam gigos de carvão do desembarque do mesmo que vinha rio abaixo nas Barcaças, ou das montanhas de Carqueja que eram descarregadas para as mulheres fazerem molhinhos e depois levarem amarados às costas em que uma fita se apoiava na cabeça para dar um pouco de equilíbrio, chegavam a carregar até cinquenta quilos, calçada da Corticeira acima num declive de 21% até ao cimo, para na fonte lá existente matar a sede e descansar um pouco, para de seguida palmilharem a cidade.
O Douro já não é o porto do Porto, Já não é a estrada preferida de quem tinha que mercar na cidade. A estrada do Douro é agora um produto turístico
Os Valboeiros e outras embarcações, como os Rabelos, não traziam só vinho fino do Douro para o cais de Gaia, mas tudo o que a cidade necessitava diariamente, vinha pela estrada Rio Douro. Quando no século XIII no reinado de D. Dinis, foi lançada a proibição da cozedura de pão no Porto. Nessa altura decretou-se «As padeiras de trigo iam para Valongo e as de milho para Avintes» e o pão para a cidade passou a vir pela estrada do Rio Douro. Séculos mais tarde ainda vinha a broa de Avintes e os famosos biscoitos de Valongo.
O Porto hoje é diferente, os Tripeiros têm melhor qualidade de vida e têm uma coisa que se chama liberdade.
Há dias a Primavera chegou num despontar maravilhoso, colorido e perfumado transformou a cidade, primeiro foram as magnólias brancas a perguntar se podiam entrar, logo depois as de cor rosa carmim e como quem sente que lhe estão a tomar a cidade as Japoneiras rebentaram com camélias lindas de cores majestosas.
Porto
O Porto das varandas feitas de rendas,
O porto das janelas d’ encantar,
O Porto em que o rio é d’oiro quand’o banha,
E de prata, quando chega ao mar.
O Porto da Ribeira medievo,
O Porto das muralhas Fernandinas,
O Porto do Passeio das Cardosas,
O Porto das manhãs com neblinas.
O Porto de Camilo e Júlio Diniz,
O Porto de Garrett e Arnaldo Gama,
O Porto de António Nobre e Augusto Gil,
E tantos outros que lhe deram fama.
O Porto do Imperial e Magestic,
O Porto do ex-Paladium e ex- Rialto
E de outros cafés que já se foram,
Em que as tertúlias tinham ponto alto.
O Porto das cinco pontes majestosas,
Duas dele monumento mundiais,
O Porto das Alminhas da Ribeira
Onde nos parece ouvir os seus ais.
O Porto do Infante D. Henrique,
O nosso grande herói navegador,
O Porto da partida para Ceuta,
O Porto que a ajudou com todo o ardor.
O Porto da bela Torre dos Clérigos,
O Porto que deu nome a Portugal,
Mereceu, com toda a dignidade,
Passar a Património Mundial.
Antónia Ribeiro
Depois da demolição da Casa onde morreu António Nobre, para dar lugar a um mamarracho, desapareceu agora num incêndio a Casa onde nasceu Almeida Garrett.
A Cidade a perder a memória.
Umas portas se vão abrindo, mas outras, como as da memória se vão lentamente fechando.
E… Bibó Porto!
Fotos: pesquisa Google
01jun19



