Menu Fechar

O TEATRO REGRESSA COM VIDA À “SEIVA TRUPE”… PELAS MÃOS DE CASTRO GUEDES, A “CHANCELA” DE JÚLIO CARDOSO E O APOIO DO MINISTÉRIO DA CULTURA! AFINAL, A “CERTIDÃO DE ÓBITO” FOI MESMO PARAR AO LIXO…

Numa altura em que todos ou quase todos, e principalmente as gentes ligadas diretamente ao mundo das artes teatrais, pensava-a a caminho da morte, eis que a Seiva Trupe como que ressurgiu das cinzas – qual Fénix -, tendo iniciado, no passado dia 09 de maio, um novo capítulo da sua vida, com a apresentação da nova direção artística, liderada por Jorge Castro Guedes

José Gonçalves              Luís Navarro

(texto)                               (fotos)

A parceria com a Direção Regional da Cultura do Norte, sede na qual – o palacete Allen, ou Casa Allen, na portuense António Cardoso – foi apresentado o novo elenco que gerirá os destinos da Seiva Trupe-Teatro Vivo, deu os seus positivos resultados a avaliar pelas palavras, em exclusivo a este jornal, de Jorge Castro Guedes, um homem extremamente conhecido – não só, mas essencialmente – nas lides teatrais.

“A única surpresa que há aqui, neste momento, é que quando toda gente julgava que a Seiva Trupe ia morrer, a senhora ministra da Cultura, Graça Fonseca, teve o bom senso e mais que o bom senso: a visão estratégica, de pensar que era preciso dar uma oportunidade à Seiva Trupe, respeitando o seu passado e, justamente, também com renovação, com o aparecimento de um outro diretor artístico, na sequência do convite do antigo diretor, Júlio Cardoso”.

Salientando não haver “qualquer rutura” entre o presente e o passado de 46 anos de uma instituição que marcou a história do teatro não só do Porto, mas também do País, o novo diretor artístico da Seiva Trupe regressa, no fundo, à casa onde deu os primeiros passos profissionais…

“Comecei na Seiva Trupe profissionalmente, com o Júlio Cardoso justamente, e, de uma forma absolutamente inesperada, volto a vir a parar ao Porto para dirigir a Seiva Trupe-Teatro Vivo, 43 anos depois de ter imigrado. O que é de facto com imenso gosto que o faço”.

E faz… para desenvolver uma nova política, ou seja “a política dos três erres. Respeitar o passado. Renovar o presente. Rumar ao futuro”, ainda que esteja “mais para renovar o presente – com os meus assessores, a Sandra Salomé e o Rui Spranger, que me acompanham como assessores artísticos -, e continuar a continuidade da Seiva. No momento presente o que é matricial, o que é identitário da Seiva é para manter em absoluto. Agora, obviamente, que há ajustamentos nas linhas programáticas, nas minhas próprias metodologias”.

Estão a passar-se coisas interessantes no teatro na cidade do Porto, mas…

Ainda de acordo com Jorge Castro Guedes – que nos recordamos de ver, como responsável máximo e encenador no Teatro Estúdio de Arte Realista (TEAR) -, “na cidade do Porto estão a passar-se coisas muito interessantes”, em termos de teatro. “No entanto”, realça, “não é com os níveis de financiamento que existem. Não é com a falta de massa crítica que existe que é possível fazer teatro. Tudo isso tem de ser recomposto, tem de ser feito através dos esforços de várias partes. Não nos podemos atirar só à questão dos financiamentos serem insuficientes. Claro que o são, mas como disse a senhora ministra da Cultura, em entrevista: muito antes de discutir-se se é um, dois ou três por cento, é preciso saber para quê? Qual é a missão da Cultura em Portugal?”

E a cultura em Portugal passa também pelo Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que, uma vez mais, decorreu o mês passado no Porto, e que teve o seu embrião, precisamente na Seiva Trupe…

“O FITEI foi uma iniciativa que começou com a Seiva Trupe, hoje tem a sua absoluta independência, tem um caminho diferente, agora está a fundir-se com os Dias Da Dança, e não sei qual será o seu futuro. Sobre isso nada tenho a dizer”. Palavras do novo diretor artístico da Seiva Trupe que dela não é“ nem o filho pródigo, nem o Bruto que mata o pai César. Sou um discípulo do Júlio Cardoso, fiz o meu caminho próprio, muitas vezes estivemos em convergência e outras em divergência. Acho que não me teria convidado se não fosse para continuar o que é essencial, mas também para introduzir renovações”.

Júlio Cardoso – O “senhor Seiva Trupe”… emocionou-se!

Lembrado o ator António Reis, outro dos fundadores, com Estrela Novais da Seiva Trupe, mas que esteve ausente da cerimónia de apresentação da nova direção, por “motivos de saúde” – disseram-nos, foi Júlio Cardoso, que há pouco mais de um ano este jornal entrevistou, que recordou de forma emocionada e emocionante o passado da instituição que “tentou modernizar, modernizando”, ainda em tempo de ditadura, “as artes”, do teatro à música, passando por outras intervenções culturais que movimentaram a cidade.

De recordar, e por Júlio Cardoso foi também realçado esse e outros factos, que a Seiva Trupe-Teatro Vivo foi constituída oficialmente em 11 de setembro de 1973. Em 1993, e depois de “ene” de espetáculos com “teatro de rigor artístico, cultural e de comunicação”, além de recitais, colóquios, mesas-redondas e concursos de textos de teatros, foi reconhecida como Entidade de Utilidade Pública. Para em 26 de março de 2010 – outra data marcante – e aquando das comemorações do Dia Mundial do Teatro, ter sido condecorada, pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com o grau de Membro-Honorário da Ordem de Mérito.

Teatro do Campo Alegre

Entretanto, a Seiva Trupe celebrou a 2 de Fevereiro de 2000 um contrato com a Fundação Ciência e Desenvolvimento, que previa que a companhia de teatro se tornasse a companhia residente do Teatro Campo Alegre, até 31 de Dezembro de 2014. Em Março de 2011, a dívida acumulada por parte da companhia de teatro ascendia a 121 mil euros, acrescida de juros de 44 mil euros, mas, após uma negociação longa, em adenda ao contrato, em 15 de Novembro de 2011, a Seiva Trupe reconheceu uma dívida de 50 mil euros, comprometendo-se a pagá-la em 36 prestações mensais. Em outubro de 2013, a Seiva Trupe foi despejada do Teatro do Campo Alegre, pois a companhia de teatro falhou o pagamento das prestações de Agosto e Setembro de verbas em dívida que em 2011 tinham sido alvo de uma renegociação e acordo entre as duas instituições”.

Um teatro de qualidade técnica e artística

Agora, a Seiva renasce e, como foi referido na apresentação oficial – um longo discurso de Jorge Castro Guedes, interrompido e bem (estava no programa) com as intervenções musicais de João Carlos Soares (arpa) e Sofia Guedes (flauta) –, “sendo um marco incontornável e emblemático do Porto, este mesmo não se cinge aos limites administrativos do concelho, mas antes ao que se poderá considerar uma grande mancha de que o Porto-cidade é polo. Um polo que irradia a norte, sul e leste num raio de 20, 30, 40 ou mais quilómetros da Praça da Liberdade. Por isso mesmo, independentemente do local onde se sediem as suas instalações, há toda uma atividade a ir fazendo concelho a concelho, freguesia a freguesia num sentido dinâmico e dual: indo aos locais e, a par, ir transportando para a sua sala, assim que a tenha, os públicos dessas zonas”.

João Carlos Soares (Arpa)
Sofia Guedes (Flauta)

O novo diretor artístico fez questão também de frisar, e no que à eleição de futuros públicos, “não interessa, nem seria possível ter a veleidade de cobrir a totalidade, que a mais oferta hoje existente pode fazer, e já vai fazendo, com muitas variantes. Impõe-se-nos definir um alargado espectro de públicos-alvo diferenciados, sem perder de vista que caminhamos num tecido teatral e social novo. Procurar atingir um número de espectadores alargado, requer, de par, que se façam opções seletivas. Não se dispersando, nem se fechando, largo é o leque daqueles a quem se dirija a Seiva Trupe-Teatro Vivo, procurando estruturá-lo em torno de um teatro de qualidade técnica e artística, profissional e de contemporaneidade estética, permanência de memórias e busca de inovação. Fá-lo-emos de forma aberta e variada, em demanda de elevados índices de públicos, como se disse, mas atentos para não permitir que em ato isolado se chegue a resultados de circunstância que deturpam a realidade num otimismo enganoso”.

A juventude como público

Mas falar em públicos, importante salientar um muito especial: “no caso da Seiva Trupe-Teatro Vivo no segmento jovem, que se iniciará em final da adolescência”, explica Jorge Castro Guedes, “queremos, em termos etários, dizer a partir dos 15/16 anos e em termos escolares do ensino secundário – e, muito pontualmente do 9.º ano de escolaridade – e do ensino superior. Sobre este(s) público(s) – que entre si apresentam diferenças, desde logo nas motivações – empregaremos reportórios próprios em sentido de identicamente ao que antes se disse, ir à própria escola e, de par,, havendo sala própria, ir preparando o hábito para esta frequentarem. Embora sem renegar uma aproximação, mormente por via dos que intermedeiam nesta presença (professores e pais), um reportório que coincida ou esteja muito próximo dos programas escolares, é nossa intenção alargar esta prática a reportórios outros, especificamente adequados a essas idades, nomeadamente no que respeita ao ensino secundário”.

À procura de um espaço próprio

Quanto a espaço, ou a espaços, essenciais na arte de representar, Jorge Castro Guedes referiu que “uma companhia de reportório, como a Seiva Trupe-Teatro Vivo se se quer manter na diferença e carácter próprio, sejam quais forem os seus reajustamentos à realidade nossa contemporânea, exige um espaço, uma sala própria, um ponto cardeal material para onde os públicos converjam. Não a tendo, nem a podendo ter de um dia para o outro, disso mesmo se fez da adversidade uma oportunidade. Optou-se por encontrar uma relação direta entre a temática e o seu contexto de apresentação, percorrendo locais emblemáticos do Porto. Pode mesmo dizer-se que, nesta fase, estaremos em ‘digressão’ no interior do Porto. Mas a indispensabilidade programática daquilo a que nos abalançamos exige – a curto prazo – uma sala, onde o aspeto sequencial de apresentações, quase ininterrupto, seja garantido, mantendo-se permanentemente habitado de criações e de espectadores. Essa é para esta Direção Artística uma prioridade. Temo-lo como um imperativo do serviço público e expressão identitária da Seiva Trupe-Teatro Vivo. A solução agora encontrada, embora permitindo um diálogo com a cidade, é de transição”.

Programações

Sandra Salomé
Rui Spranger

Quanto à programação, ou a programações, fique a saber que “a Seiva Trupe-Teatro Vivo procurará, ano a ano, enfatizar grandes eixos temáticos, sem perder do horizonte a natureza e diversidade de públicos-alvo. Mas, em nome disso não se pode abandonar eixos programáticos e programações concordantes com eles. Sem se deixar arrastar por e para inoportunidades de um esforço de didatismos primários como razão de ser, a pedagogia faz-se no caminho e não no objetivo”, disse Castro Guedes, acrescentando que “não nos queremos virados ‘para dentro’, nem submetidos ao gosto reinante. E em complemento deste desígnio, que sobressai na programação-base às formas de representação cénica convencionalmente reconhecidas como as canónicas, também incluiremos outros modelos. Desde a adaptação ao teatro dos já hoje disseminados flashmobs às ‘maratonas’ de leituras relativas a um autor, tema ou época, ou de ‘crónicas de café’ a recitais teatralizados, entre o mais, iremos implantando no terreno várias formas de vitalização da relação com os públicos e alargamento do espectro da sua captação, fixação e desenvolvimento crítico. Pela sua importância e particularidade, passo a descrever duas, que merecerão, em fases de crescimento, a nossa particular atenção”.

Financiamento(s)

Para tudo o que atrás se referiu seja uma realidade, vem sempre ao de cima “uma diversificação de financiamentos. Importa – e muito – estender a captação de recursos a vários setores, públicos e privados. Pelo que aproveito para aqui conclamar o acesso a um verdadeiro mecenato, indevidamente usado pelo Estado, deturpando a sua razão de ser e monopolizando-o em proveito próprio. Mesmo assim importa que se diga que a Seiva Trupe-Teatro Vivo entende que todos os recursos financeiros devem ser seriamente escrutinados e refletir-se em formas objetivas e passíveis de estudo dos resultados. Além disso, a administração parcimoniosa e sustentável não pode ser suplantada pelo mero desejo do fazer. Todavia, do mesmo modo que alguma ousadia, devidamente medida no risco, deve estar presente porque, como dizia Agostinho da Silva, “às vezes é preciso desafiar o destino”.

Fernando Rocha, vereador da Cultura da CM Matosinhos

E, como se referiu, a intervenção de Jorge Castro Guedes foi longa, mas mesmo assim, importante para captar a atenção dos presentes (sala cheia), com destaque – por surpreendente – para o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Matosinhos, Fernando Rocha, ao invés do que aconteceu com o seu homólogo do Porto, que esteve ausente.

EM AGENDA

Para já, e isso é importante, estão já agendados para este ano alguns espetáculos.

Assim sendo, de 25 a 28 de setembro na Sala 1 da Exposições da Cooperativa Árvore, será apresentado “O Funeral de Neruda”. Texto de Luís Sepúlveda e Renzo Sicco. Encenação de Renzo Sicco. Com Clara Nogueira, Filomena Gigante, Joana Teixeira, Júlio Cardoso, Maurizio Leon e Rui Spranger,

De 10 a 25 de outubro (às quartas, quintas e sextas-feiras), no “Pinguim Café”, lugar para “Madame Monsanto”. Texto e interpretação de Castro Guedes. Direção de Rui Spranger e Sandra Salomé.

Por último, e ainda para este ano, de 21 de novembro a 07 de dezembro, ainda em local a designar, “O Calcanhar de Troisi”. Texto e encenação de Bruno Schiapa. Interpretação de Rui Spranger.

E é assim, a renovada Seiva Trupe – Teatro (que se espera mais que) Vivo! Cá estaremos para o reportar…

01jun19

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.