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FONTES DE OVAR – UM PATRIMÓNIO DE MEMÓRIAS QUE VÃO SECANDO

Votadas ao abandono durante décadas, nem mesmo as pontuais intervenções de preservação e restauro, ou mesmo obras de requalificação no âmbito de projetos de regeneração urbana com fundos comunitários em algumas das fontes mais emblemáticas de Ovar, como a Fonte dos Combatentes (ou Fonte do Hospital), Fonte Júlio Dinis (ex-Fonte do Casal), Fonte dos Pelames, Fonte da Vila, Fonte da Arruela ou Fonte da Mota, têm sido suficientes para impedir o triste destino de desleixo, tal a degradação e mesmo ruinas em que se encontram a generalidade das fontes em que se procurava água fresca em cântaros de barro das muitas olarias que nesta terra produziam utensílios e louças de barro.

José Lopes

(texto e fotos)

Elementos do património, que, na história ainda recente da vila de Ovar (cidade desde 1984), foram fundamentais no abastecimento de água à população, até acabarem por secar ou com o aviso de água imprópria para consumo, nas que ainda corre um “fio” do precioso líquido, que outrora alimentava a “rede” de linhas de água que se encontram umbilicalmente ligadas ao rio Cáster ao longo das suas margens, realçadas pelo projeto do próprio Parque Urbano da cidade de Ovar, em que a antiga existência destes canais de água, foram paisagisticamente valorizados os pontos de referência das nascentes, mesmo já sem a vida que as caraterizavam.

As fontes de Ovar são quase referência obrigatória nos programas eleitorais dos diferentes partidos nas eleições autárquicas, sempre em nome do património social, cultural e arquitetónico que representam. São mesmo roteiros de caminhadas e jornadas ecológicas, bem como ponto de referência na educação ambiental das comunidades escolares locais. Algumas das fontes proporcionam mesmo cenários naturais para eventos culturais, como a recente experiencia ensaiada pelo FIMO que levou à Fonte dos Combatentes e à Fonte Júlio Dinis espetáculos de Marionetas. Foram muitos os artigos de jornais dedicados a este património e ao seu estado de abandono, mas também são elementos de investigação na história local da autoria de vários autores.

Integradas num acessível e agradável percurso beneficiado pela consolidação do Parque Urbano, em que as principais linhas de água se cruzam na cidade de Ovar dando corpo ao rio Cáster que segue até à ria. Encetamos uma caminhada pelas fontes de Ovar, cujo registo de imagens, não deixam dúvidas de que este património de memórias, de um povo que ainda há meio século, a elas recorria para abastecimento de água, se depara com uma tal decadência, em que as memórias se vão apagando e secando, ainda que algumas das quadras que resistem ao tempo, em painéis de azulejo, reafirmem:

“DIZEM QUE AS FONTES CHORAM? CANTANDO ESPALHAM SEU BEM! SÓ CHORA A FONTE QUE NUNCA MATOU A SEDE A NINGUEM” (Fonte da Arruela). Já as fontes públicas da Rua da Fonte e mais tarde Rua Alexandre Herculano, enaltecem a sua função independentemente das classes que serviam. “POBRE OU RICO, ISSO QUE IMPORTA? / DÁ-LHE A TODOS DE BEBER. / CANTA, CANTA ETERNAMENTE. / NÃO TE CANSES DE CORRER” (Fonte da Mota). As fontes não só se cansaram de correr, como a sua frescura de outros tempos é assim lembrada a quem passa, “ÁGUA PURA E CRISTALINA, / FRESQUINHA DE CONSOLAR, / VEM DE TI PRÓS NOSSOS LÁBIOS, / MATA A SEDE A QUEM PASSAR” (Fonte da Vila).

Neste registo das principais fontes, reconhecidamente localizadas em leitos de cheia e consequentemente fator de constante degradação, apesar das obras de requalificação de que vão beneficiando em função da sensibilidade dos vários executivos, a exemplo da Fonte Júlio Dinis, que acabou por beneficiar de intervenção a quando da valorização das margens do rio Cáster e do projeto da Escola de Artes e Ofícios, construída na antiga fábrica de papel, que tornou a área envolvente desta fonte, num espaço público de maior dignidade. Ainda assim, os sinais de degradação desta fonte, que começou por ser Fonte do Casal e mais tarde em memória do escritor das “Pupilas do Senhor Reitor” se passou a designar Fonte Júlio Dinis, tendo sido reconstruída pela CM de Ovar em 1940. São evidentes as dificuldades em manter este património com o desejável brilho que aquela zona merece e em que se podem apreciar painéis azulejares com marcas de sucessivas intervenções de restauro e conservação, para preservar memórias ali gravadas e pintadas, como, “Ó RIO DAS ÁGUAS CLARAS, / QUE VAIS CORRENDO PRÓ MAR; / OS TORMENTOS QUE EU PADEÇO, AÍ NÃO OS VÁS DECLARAR” ou ainda, “ANDAVA A POBRE CABREIRA / O SEU REBANHO A GUARDAR, / DESDE QUE ROMPIA O DIA / ATÉ A NOITE FECHAR”.

Definitivamente apagadas no tempo, estão memórias de um grande aglomerado de fontes que deram mesmo origem ao nome de, Rua da Fonte, atual rua Alexandre Herculano. Recorrendo à revista Dunas “temas & perspetivas” editada anualmente pelo Município de Ovar, uma edição anual sobre cultura e património da região de Ovar. Pode-se encontrar num texto de Lamy Laranjeira (Licenciado em Economia, autor de livros e artigos sobre a história e a etnografia local), “As Fontes da Rua da Fonte, em 1930” (Dunas, n.º6 de novembro 2016), um convite à “descoberta” arqueológica, para identificar ou imaginar locais nesta rua em que existiram 12 Fontes, que enumera discriminadamente: Fonte na propriedade do Sr. Figueiredo; Fonte na propriedade dos Correios; Fonte na propriedade da Família Camossa; 3 Fontes da Quinta da Sra. dos Anjos; Fonte Capitão Belmiro/D. Sofia; Fonte da Samaritana/Antoninha do Maciel; Fonte da Sra. Aninhas do Lamarão; 2 Fontes da Família Regueira e Fonte da Mota.

A relação da população com o património representado pelas fontes, que marcaram várias gerações, tanto social, como cultural e arquitetonicamente, é aprofundada e enriquecida com elementos históricos, como os que Lamy Laranjeira refere sobre a frescura destas fontes, ao ponto de uma firma de refrigerantes ali existente (Soares Paes), a exemplo dos residentes, recorrer à fonte situada na quinta da Sra. dos Anjos, porque, “não prescindia da linfa que botava da bica para o fabrico das gasosas, pirolitos e laranjadas, além de outros refrescos”. Deste conjunto de fontes maioritariamente particulares ao longo da então Rua da Fonte, surgiria a primeira a ser construída na Vila de Ovar com carater público para servir a população no abastecimento de água, sendo designada por Fonte da Vila. Seguiu-se mais acima na mesma rua, a Fonte da Mota.

Fontes e Chafariz foram naturalmente determinantes no abastecimento de água à Vila de Ovar e ao seu desenvolvimento, havendo “necessidade de dotar a vila de água suficiente para a sua sustentabilidade e, desta forma, responder às necessidades efetivas de uma vila em crescimento que, pelos censos de 1864, registava 10.359 habitantes”, lembra Joaquim Fidalgo (Licenciado em História, com vários artigos publicados no jornal João Semana e na Revista Dunas), num trabalho de investigação “Ovar na segunda metade do século XIX O abastecimento de água à Vila de Ovar” (Dunas, n.º13, novembro 2013). Este autor adianta no entanto, numa abordagem mais geral sobre a origem da água das fontes então existentes, que, “a água que abastecia a vila era proveniente de sete fontes que existiam no tecido urbano, algumas fontes não possuíam nascentes, e a água era resultante principalmente das infiltrações das chuvas”.

Perante tal conclusão na época, em que se reconhecia que as fontes forneciam água em péssimas condições, referindo-se às que eram provenientes das chuvas infiltradas nos terrenos, “a descoberta de um manancial de água na mãe-d`água em 1874, onze anos após o concelho distrital apelar à câmara para responder às necessidades de uma população em crescimento, quer natural, quer económico, vai responder (…)”, segundo Joaquim Fidalgo, às necessidades de uma população sequiosa de “melhor qualidade de vida”, através de “um investimento hercúleo”, tal foi o empreendimento para a canalização das águas, cujo projeto, “compreendia três módulos”.

Como adianta o autor do texto a que nos referimos, “no primeiro, todo o músculo seria canalizado para a construção da conduta principal, que começa na mãe d’água e termina na rua do Cruzeiro da Graça, módulo este que só ficará concluído com a extensão aos chafarizes”. Seguiu-se um segundo módulo que passou pela implantação de quatro chafarizes no tecido urbano, neste caso, na Ponte Nova, Outeiro e Campos.

Por fim, “o terceiro módulo o mais ambicioso, teria como objetivo o estudo do espaço urbano fronteiro à câmara municipal e à casa do tribunal, para a implantação do chafariz principal que, pela sua impotência, embelezaria o espaço urbano”, referindo-se o autor ao chafariz Neptuno, o ex-libris da cidade.

Ambos os meios de abastecimento de água à população, fontes com água fresca e cristalina e chafarizes com água canalizada a partir da mina de Mãe d´água, coabitaram na sua indispensável missão para a vida de uma comunidade, até à sua consequente degradação e nova falta de resposta às exigências de uma vila em crescimento, ainda que, como assinala Alfredo Costa (Licenciado em Engenharia Civil, Diretor dos S.M.A.S. de 1996 a 2005) no seu texto, “O abastecimento de água e o saneamento no concelho de Ovar” (Dunas, n.º8, novembro de 2008). “75 anos foi o tempo necessário para que se realizasse o abastecimento público de água a todo o Concelho de Ovar. Com efeito, data de 18 de junho de 1933 a deliberação da Câmara Municipal de encarregar o Eng.º Hidráulico Carlos Vieira de realizar os estudos da captação e melhor aproveitamento das águas da mãe-de-água, reforçando-se o abastecimento público de água a partir das fontes e chafarizes e para combate a incêndios”.

Destes elementos do património local que se perdem no tempo, restam paisagens e imagens deprimentes do abandono, a que grande parte, está, há muito votado.

01set19

 

 

 

 

 

 

3 Comments

  1. josé lopes

    Por lapso troquei a palavra imponência, por impotência, na referencia ao texto de Joaquim Fidalgo, quando este se refere no seu trabalho de história local, ao terceiro módulo de investimentos para o abastecimento de água à Vila de Ovar, que incluiu o chafariz Neptuno.

  2. Anónimo

    Ao caro Dr. Valdemar Gomes, sempre atento e interventivo em causas em que já ambos nos envolvemos, obrigado pelas palavras aqui deixadas.
    Abraço

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