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Tributo a Zeca Afonso

Carmen Navarro

José Afonso, o homem, o artista, o agitador, um espírito revolucionário, a voz sempre maior que o pensamento. Neste pequeno Tributo apenas vamos lembrar um pouco do Zeca Afonso.

Em 2 de Agosto se fosse vivo completaria 90 anos.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro a 2 de gosto de 1920.  Filho de um Juiz e de uma professora primária. Saiu da sua terra natal com três anos e aos seus progenitores, deve uma infância de andarilho. Faleceu em Setúbal a 23 de fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, aos 57 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica que já lhe tina sido diagnosticada cinco anos antes.

Ficou carinhosamente conhecido por Zeca Afonso, embora nunca tenha usado este diminutivo como cantor, compositor, letrista e poeta.

Zeca Afonso partiu fisicamente, mas continua bem vivo na nossa memória, muitas são as vozes que não deixam que se percam as canções e o pensamento que felizmente nos agitaram em tempos de ditadura.

José Afonso, ainda estudante de Liceu D. João III em Coimbra já cantava fados de Coimbra aliás o seu pai o Magistrado Nepomuceno, também foi cantor e amigo de Bettencourt que elevou o fado de Coimbra ao seu mais alto nível, foi talvez o maior cantor de fados de Coimbra  e um belíssimo poeta.

José Afonso matricula-se em 1949 na Faculdade de Letras, em Ciências Histórico-Filosóficas e simultaneamente, é convidado por António Brojo para o seu grupo de fados.

Em 1953, grava o seu primeiro EP, “Coimbra”,  gravado com o Emissor Regional de Coimbra.

Oh Coimbra do Mondego

(fado de Coimbra)  

Oh Coimbra do Mondego
e dos amores que eu lá tive [bis] quem te não viu anda cego
quem te não ama não vive [bis]

Do Choupal até à Lapa
foi Coimbra meus amores [bis] e sombra da minha capa
deu no chão abriu em flores [bis]

Letra e música: José Afonso

Mais tarde na etiqueta “Rapsódia” com edição da Casa Figueiredo – Porto, grava um 45 rpm com Fados e Guitarradas de Coimbra – “Balada de Outono”

Balada do Outono

(fado de Coimbra)

Águas passadas do rio
Meu sonho vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P’ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Letra e música: Zeca Afonso

Dr. José Afonso, este foi o tratamento muito coimbrão, como o seu nome apareceu nos primeiros discos. No lirismo das suas interpretações há um toque de saudade e um pensamento inquieto e assim Zeca Afonso, reinventa a canção “balada”e grava mais um 45 rpm. com o título “Baladas de Coimbra” onde já se nota a necessidade de abanar consciências. Como é exemplo a greve estudantil, realizada em maio.

No Lago Do Breu

No lago do Breu,
Sem luzes no céu nem bom Deus
Que venha abrasar os ateus,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
A noite não vem sem sinais
Que fazem tremer os mortais,
No lago do Breu.

Mas quem não for mau, não vá
Que o céu não se comprará
Não vejo a razão p’ro ser
Quem teme e não quer viver

Sem luzes no céu só mesmo como eu
No lago do Breu.

No lago do Breu,
Os dedos da noite vão juntos
Para amortalhar os defuntos,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
A lua nasceu mas ninguém
Pergunta quem vai ou quem vem
No lago do Breu.

Mas quem não for mau, não vá
Que o céu não se comprará
Não vejo a razão p’ro ser
Quem teme e não quer viver
Sem luzes no céu só mesmo como eu,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
Meninas perdidas eu sei,
Mas só nestas vidas me achei,
No lago do Breu.

José Afonso

O ambiente revolucionário e as correntes de mudança que se vivia na Alta de Coimbra veio a marcar José Afonso amante da Liberdade.

Ao longo dos anos 60 a sua atenção e preocupação é a crise académica e neste período, escreve as suas primeiras músicas de intervenção, acompanhado por Rui Pato, e a sua música passa ser uma “arma” contra a repressão da ditadura e o regime fascista.

Os Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana, com o seu ar sisudo,
E lhes franqueia as portas à chegada,
Eles comem tudo, eles comem tudo,
Eles comem tudo, e não deixam nada [bis]

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.

José Afonso

Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, foram baladas inseridas num 45 rpm. que saiu com o título “Baladas de Coimbra”, da etiqueta Rapsódia, no dia em que foi posto à venda no Porto, no mesmo dia, foi proibido e censurado pela PIDE, automaticamente retirado de venda, felizmente, guardaram-me um na discoteca em que era cliente. Este disco com esta chamada de atenção, para mim fui extremamente importante.

José Afonso também cantou as mulheres.

“Maria Faia”, “Senhora do Almortão”, “As Sete Mulheres do Minho”, “Mulher da Erva” ou “Cantar Alentejano”, dedicado a Catarina Eufémia. Estas são algumas.

José Afonso com diversos cantores que foram seus companheiros de estrada e das cantigas como: Luís Cília, José Mário Branco, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Manuel Freire, Samuel, José Jorge letria, Aristides e Vitorino que se acompanharam uns aos outros num grande espetáculo organizado pelo Circulo de Cultura Teatral/TEP no Palácio de Cristal, em duas sessões, uma à tarde e outra à noite, com o título de ” I Encontro Livre da Canção Popular” na cidade do Porto em 6 de Maio de 1974.

Abriram com “Grândola Vila Morena”. (Uma das canções escolhidas para anunciar a Revolução de Abril de 1974). Grande festa, foi um êxito espetacular. Quando José Afonso foi apresentado, recebeu uma ovação extraordinária, o recinto esteve completamente lotado nas duas Sessões.

José Afonso, homem sem medo, foi crítico do regime, abalou-nos com o seu pensamento que chegava a nós através das suas palavras que gravou em numerosos discos, em diversas etiquetas. Através da Orfeu, edição de Arnaldo Trindade – Porto, foi gravado entre muitos “Grândola Vila Morena”, lançou também alguns dos mais importantes discos de Canções de Liberdade.

Arnaldo Trindade, abriu as portas da editora Orfeu a José Afonso: – “Dei-lhe liberdade para cantar o que queria e como queria”.

A Morte Saiu à Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada à covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação.

Zeca Afonso

Também crítico do colonialismo, o que lhe causou muitos problemas com a PIDE, ao regressar a Portugal em 1967, depois de uma estadia em Moçambique para onde foi lecionar e procurar a estabilidade financeira que não conseguia ter em Portugal, começou a lecionar no Liceu de Setúbal, por pouco tempo, pois o regime de ditadura interditou-o da função de professor.

Partiu o autor cantor, mas o seu legado permanece vivo, através da sua voz que foi de denúncia, voz constantemente inquieta, da Amizade e do Companheirismo. A sua obra tem sido recuperada, em versões dos seus temas por músicos e cantores de diferentes gerações, Zeca Afonso maior que o pensamento é conhecido um pouco por todo o mundo, na Galiza é muito querido assim como para todos nós e a cantiga passou a ser uma “arma”.

Dizem ser a editora Movieplay que é quem detém os direitos comerciais da obra de José Afonso, e como está insolvente, não se sabe do paradeiro dos ‘masters’ das músicas gravadas pelo Zeca Afonso, assim a reedição destes trabalhos não pode ser feita. A Associação José Afonso tudo tem feito para salvaguardar a obra do cantor autor português.

Fotos: pesquisa Google

01set19

 

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