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“Inacreditável”(mente) bom

Inês Faro e Melo

A indústria de entretenimento tem um grande fascínio por crime desde sua conceção mas, recentemente, foi tomada for uma verdadeira febre de contos baseados em ocorrências reais, o subgênero do suspense chamado de True Crime. Essa obsessão não é de todo estranha: afinal, entender o pior de nossa espécie nos ajuda a ser melhores.

Baseada no artigo ganhador do Pulitzer “An Unbelievable Story about Rape”, “Inacreditável” procura abordar temas desconfortáveis de forma impactante, mas fáceis de compreender.  À primeira vista, a minissérie dá entender que dedicará a maior parte de seus esforços à questão envolvendo a “credibilidade” de vítimas de estupro e abuso sexual, um tópico que foi  amplamente discutido dentro das produções de Hollywood dos últimos tempos.

O primeiro episódio destaca exclusivamente o caso de Marie Adler (Kaitlyn Dever), uma jovem que foi feita refém e violada dentro de sua própria casa. A série não está apenas interessada em reiterar o bom senso e a racionalidade que ditam que é sempre essencial acreditar na vítima, para que o devido processo possa ocorrer para determinar a verdade da situação, mas em observar as consequências de um sistema falho, ainda que, infelizmente, plausível dentro da nossa sociedade atual.

Afinal, isto acabou por levar a que Marie se visse encurralada e dissesse que afinal não tinha acontecido nada, levando a consequências por falsa acusação.

O ponto de vista de Marie continua a ser retratado ao longo de todos os episódios, mas o foco volta-se agora para duas detetives, Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette), três anos depois, que se deparam com o rasto de um violador em série. As personagens ainda não sabem da existência de Marie, mas para nós, espectadores, o peso do primeiro episódio nunca deixa de voltar à tona durante cada etapa desta busca.

Esta perspetiva funciona mais como uma série policial, acompanhando as detetives juntando forças ao verem conexão entre casos recentes de abuso sexual. Esse lado se conduz de forma mais tradicional e argumentativa do que prática, mas é igualmente forte. Muito disto se deve à excelente dinâmica entre as duas: Duvall, que é mais reservada e calculista, e Rasmussen, que fala sempre o que pensa.

As atuações são um dos pontos mais fortes de “Unbelievable”. Kaitlyn Dever entrega-se de corpo e alma para fazer justiça ao peso que Marie carrega por toda a sua vida. Já Toni Collette junta carisma e ameaça numa detetive durona, mas bastante humana ao mesmo tempo. O verdadeiro destaque, porém, é Meritt Wever. A atriz que interpreta a personagem de Duvall  protagonizar um papel que não tem muitas palavras, mas que exige uma performance física intensa, comunicando muito através ds seu olhar.

Mas o que realmente faz tudo funcionar é a união de tudo. Inacreditável revelou-se uma série verdadeiramente densa, que encaixa uma nova face do problema. Desde citar a relação entre violência doméstica e abuso sexual, até à epidemia de casos do tipo em campus universitários.

De facto, a Netflix usa ao máximo o potencial do meio televisivo para pintar um retrato mais fiel e honesto da ineficiência de um sistema que não só faz o mínimo para proteger sobreviventes, como também se esforça muito para se manter inerte. Apesar da narrativa ser emocionalmente desgastante em alguns pontos, a sensação de otimismo que fica após o último episódio é muito bem vinda, o que permite uma experiência mais consistente e distinguível para o espectador. É, sem dúvida, uma série a não perder.

Foto: pesquisa Google

01nov19

 

 

 

 

 

 

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