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“CHEIROS INSUPORTÁVEIS” DA “ETAR DE SOBREIRAS” REVOLTAM MORADORES QUE ACUSAM RESPONSÁVEIS DE NEGLIGÊNCIA NA TRASFEGA DE LAMAS E DE POLUÍREM O ESTUÁRIO DO DOURO!

Os moradores (perto de meia centena) da Rua de Sobreiras, junto ao Estuário do Rio Douro (na portuense freguesia de Lordelo do Ouro) dizem-se fartos dos maus-cheiros provenientes da Estação de Tratamento de Águas Residuais – ETAR, que se encontra paredes-meias com as suas casas, principalmente, quando, de madrugada, é efetuada a trasfega de resíduos (que classificam de “lamas”) por camiões de caixa aberta ou cobertos, única e simplesmente, por uma lona.

José Gonçalves                            Rita Bicha

(texto)                                            (fotos)

A revolta não é de agora, mas, mesmo depois de muitas promessas por parte dos responsáveis da ETAR em resolver o problema, ou, pelo menos, minimizá-lo, a verdade é que a situação, segundo os moradores, tem vindo a piorar. “Os cheiros são insuportáveis. Não podemos ter as janelas abertas durante a noite. Isto é impossível”, desabafam.

O “Etc e Tal jornal” foi, depois alertado por uma moradora, a meio da tarde do passado dia 18 de novembro, à zona de Sobreiras – que não só se resume ao aglomerado de casas junto ao Estuário do Douro, mas também às “Torres”, na Rua de Paulo da Gama, artéria na qual se encontra também a sede da Associação Nacional de Jovens Empresários e a Pousada da Juventude –, por causa dos cheiros produzidos pela Estação de Tratamento de Águas Residuais  (ETAR), que se encontra no local, desde fevereiro de 2003, principalmente quando a trasfega de “lamas”  é efetuada..

A estranha constante humidade nas escadas..

E mesmo durante a tarde – só que juntinho à ETAR -, conseguimos inalar cheiros pouco “convidativos”, sendo ainda visível, na rua de Sobreiras, e junto a um dos portões da ETAR – por onde entram e saem camiões – resíduos na linha de carro elétrico, o que prova uma das razões de protestos dos moradores.

Dando uma volta pela marginal, notam-se, junto à ETAR e na minipraia fluvial lá existente, avisos à interdição de banhos, isto para, mais à frente, no Largo de António Calém, nos aparecer mais um “cano de esgoto para o rio Douro”, desta feita da Ribeira da Granja, situação sobre a qual este jornal fez já uma reportagem, queixando-se o presidente da Junta de Freguesia de Ramalde (autarquia por onde ela passa e deixa maus-cheiros) de ausência de um programa eficaz de despoluição desse “braço” de água.

Mas, a revolta da população de Sobreiras não é somente relativa aos maus-cheiros, pois é também com preocupação que detetam, e provam, constantes descargas poluentes no Estuário do Douro, com as gaivotas e as tainhas “sempre prontas para o petisco, mal eles fazem as descargas”.

A ETAR DE SOBREIRAS…

Antes de passarmos aos testemunhos dos moradores da Rua de Sobreiras, fique o(a) leitor(a) a saber que a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Sobreiras foi inaugurada em Fevereiro de 2003, tendo representado um investimento de cerca de 33,6 milhões de euros, com uma comparticipação do Fundo de Coesão da União Europeia, de 31,3%.

A referida ETAR está localizada junto ao Estuário do Rio Douro (Rua das Sobreiras – cota baixa -, até à Rua de Paulo da Gama – cota alta e entrada principal) na freguesia de Lordelo do Ouro, no Porto, e trata os afluentes de uma população equivalente a 200 mil habitantes.

Esta ETAR encontra-se numa zona residencial e o local da instalação abrange 1,6 hectares, ocupando uma área classificada como de interesse ambiental e patrimonial, de paisagem voltada para o rio. É totalmente coberta e utiliza técnicas que, segundo dizem, “asseguram vários níveis de flexibilidade às variações de carga e caudal e de qualidades de água tratada”.

Para ter uma ideia real da importância da ETAR de Sobreiras saiba ainda que ela serve a zona ocidental da cidade do Porto, de Miragaia ao Castelo do Queijo, e da Circunvalação até à Areosa, numa área que inclui os Hospitais de Santo António e São João. A ETAR desenvolve-se em vários níveis e encontra-se parcialmente enterrada. Para além disso, as coberturas dos principais órgãos de tratamento são vegetalizadas e a zona envolvente ajardinada.

QUEIXAS E MAIS QUEIXAS

Tudo muito bem até aqui, ou seja até ao ponto em que os moradores contestam a forma como se encontra a funcionar a referida estação. Os dedos indicadores – neste caso “acusadores”–  da população apontam para a trasfega de resíduos, processo que provoca uma “onda” de maus-cheiros que atinge um raio de largas centenas de metros (depende dos ventos), e que, por isso, é efetuada de madrugada, e principalmente entre as duas e as três horas, havendo, às vezes, algumas horas extras cumpridas à luz do dia.

Uma dezena de moradores – “seriam mais se fosse a uma hora em que a maior parte não estivesse a trabalhar!” – reuniu-se, com o “Etc e Tal jornal”, juntinho à estátua do “Mensageiro” ou “Anjo” – como é popularmente conhecida a obra de Irene Vilar, inaugurada em 2001 – para darem a conhecer a sua preocupação e revolta quanto aos procedimentos da sua vizinha ETAR de Sobreiras ao longo dos últimos anos, mas, principalmente, nos tempos mais recentes.

“VOX POP”

E ouvimos:

-“Quando estão a descarregar as lamas isto é um cheiro insuportável! A gente acorda de noite com a garganta seca e a arder”.

-“Não vai há muito tempo deixei uma janela aberta durante a noite e acordei nauseada, com um ardume nos olhos”.

– “Já houve problemas destes muitas vezes, e eles disseram-nos que iam resolver a situação”.

– “De verão, com as melgas, isto não se aguenta!”.

– “De noite, lá para as duas horas, ou seja na altura de entrarem as lamas, acordo sempre com o cheiro”.

-“Antigamente vinham camionetas de caixa aberta, punham um encerado (quando punham!), e , às vezes, a lamas caíam, sendo preciso chamar os bombeiros para lavar as ruas”.

-“Agora as caixas são fechadas, às vezes vejo-os de manhã. Só que o cheiro é horrível!”

-“Quando há aqui festas ou outros acontecimentos, eles não veem tirar as lamas, porque parece mal!”

-“Dizem que fizeram a ETAR mais moderna da Europa. Então, admite-se o facto de despejarem para o rio resíduos não tratados?! Do meu barco filmei os toalhetes a boiar: uma pouca-vergonha!”

Um “vox pop” duro e puro.

Mas, uma “voz do povo” ,ou um moderno “vox pop”, que nos chega já depois de alguém… do povo… ter feito queixas a quem de direito, e de quem de direito levar evasivas, tais como “isto não é nada connosco”; “são casos pontuais”; “é só a senhora que se queixa”, e coisas do género…

Com estas e com outras, a “Águas do Porto” acabou, no fundo, por assumir alguns erros; erros esses que estão a prejudicar uma população inteira, residente na zona contígua à ETAR, e até nas empresas imobiliárias que, ao quererem fazer vendas no local, pedem, por certo, a Deus que o potencial cliente/comprador não saiba em que condições vai viver na zona.

Uma das moradoras, Conceição Fonseca, refere que já foi “muitas vezes queixar-me. Dizendo-me, lá na ETAR, que as descargas e os maus cheiros eram pontuais, só que há dias que não é um só caso de descargas. Às vezes, de manhã, quando estou a abrir a janela tenho logo que a fechar, porque não se aguenta com o cheiro. A partir da uma hora da madrugada é horrível! Já tem havido pessoas que vêm aqui para fazer caminhadas, e tão depressa saem dos carros como neles entram, porque não se pode estar com o cheiro”.

O testemunho de Conceição Ferreira é partilhado por outros vizinhos, um dos quais vira-se para o Rio – ou melhor, para o Estuário do Douro -, e alerta-nos: “está ver aquelas gaivotas? É ali que sai a porcaria para o rio. Está a ver?! Estão ali à espera do petisco. Então, se é assim, aquilo que para ali vai são águas tratadas?”.

Nós vimos a registamos e fica a pergunta no ar.

E o problema é “quando vem um bocadinho de vento Sul. O rio por aqui fica todo castanho de porcaria. É uma coisa indescritível”, diz outra moradora, que já foi junto de responsáveis pela ETAR de Sobreiras, mas avisa: “quando vai só uma pessoa, eles dizem logo: ai! É só a senhora que se queixa!”.

ESTRANHOS SILÊNCIOS

Mas, não! Há queixas ou alertas também provenientes da cota alta de Sobreiras, “da zona das Torres” como é popularmente conhecida (Rua Paulo da Gama / Rua de Diogo Botelho), onde também “reside muita gente e que apanha com estes cheiros”, refere um dos moradores que estranha o facto de “os responsáveis pela Pousada da Juventude, ou pelo Centro de Formação, aqui ao lado da ETAR, nada fazerem ou nada referirem sobre este problema, que, com certeza, também os afeta”.

Mais: “naquelas casas senhoriais, aqui ao lado, viviam e vivem pessoas muito conhecidas da sociedade. Por certo, ainda não apanharam com os cheiros por terem vidros triplos nas suas residências. Mas, ele sabem o que se passa. Ora, com tantos conhecimentos e influências que têm, por que razão nunca tentaram abordar este problema?”

E a moradora Conceição Fonseca volta à carga, salientando o facto de já se “ter escrito para a Câmara Municipal do Porto – tenho até assinaturas dos moradores da rua (de Sobreiras) –, mas eles disseram que não era nada com eles, que o problema era com as «Águas». E por falar nas «Águas», quando eles deram isto a uma empresa, então, nessa altura, é que era horrível! Eram maus-cheiros de dia e de noite”.

“Desta última vez que fui falar lá, na ETAR”, refere ainda a nossa interlocutora, “a senhora que me atendeu disse-me que eles não estavam a pôr os produtos que deviam de pôr, mas que isto ia melhorar. Mas, o certo é que não melhorou… piorou até!”

Seja como for, fica, desde já o registo de uma falha!

Todavia, Conceição Fonseca não ficou por aqui.

“Cheguei a ligar para a Quercus, mas também disseram que o problema não era deles… que era um problema das «Águas» do Porto!

“NÃO QUEREMOS QUE A ETAR SAIA DAQUI, O QUE QUEREMOS É QUE ELA FUNCIONE DENTRO DAS NORMAS”

As reações não ficam por aqui, e cada morador fez recordar a um outro mais e mais casos que se passaram desde 2003 – altura em que a ETAR entrou em funcionamento-, mas ocorrências também mais recentes, como temos vindo a revelar

“Quando nos disseram que a ETAR vinha para aqui prometeram-nos que isto iria ser um local sem cheiros. Mas não! Era preferível estar como antigamente estava, porque não havia cheiros nenhuns. Não se admite um investimento de tantos milhões e isto ficar assim… pior que o que estava”, desabafa um morador, que juntamente com os outros nunca se lembrou de formar uma associação, independentemente de estarem revoltados principalmente nas alturas em que “o rio, por aqui, fica todo castanho. Isso prova que as águas que daqui saem não são tratadas”.

Mesmo assim, e reconhecendo que a ETAR está “a funcionar mal”, dizem, os moradores que “não queremos que ela saia daqui, a ETAR é realmente necessária, mas o que deve é funcionar dentro das normas e não assim!”

E depois, há quem também coloque em causa a seleção de bandeiras azuis para as praias da Foz: “tudo só pode ser uma aldrabice, é que esta porcaria toda vai parar ao mar. Os toalhetes que a gente utiliza nas casas de banho andam todos por aí a boiar, parece a festa das bandeirinhas, mas não são azuis… são brancas. E onde é que isso vai parar?” pergunta-se, sabendo-se de antemão a resposta.

Vindo ainda ao de cima o problema que mais preocupa os moradores de Sobreiras:

“Disseram que as lamas seriam transferidas num camião-cisterna, mas nunca foram. Primeiro foi mesmo de caixa aberta, e agora só tapam os resíduos, que levam a transbordar, com uma lona”.

ALUNOS DE ENGENHARIA “AGRADADOS” COM ETAR

A ETAR de Sobreiras foi, há sensivelmente um ano, visitada por alunos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, e o resultado dessa visita programada, não podia ter sido melhor:

“Contrariamente à maioria das ETAR, que apresentam os vários órgãos em construções separadas e ao mesmo nível, esta é compacta em que os vários órgãos e reservatórios se encontram num mesmo edifício, dispostos em diferentes níveis de forma a otimizar os processos de tratamento das águas residuais”.

“O efluente que chega à cota baixa é inicialmente elevado para a cota alta, sendo a partir daí a circulação gerada pela ação da gravidade, desnivelando sequencialmente os diferentes órgãos intervenientes no processo. São apresentadas as linhas gerais da conceção da estrutura do edifício que resultou no projeto de execução da obra”.

Em média, chegam diariamente à ETAR de Sobreiras 25 mil metros cúbicos de afluentes, conduzidos por três emissários.

“O processo de tratamento abrange três linhas fundamentais: a linha líquida, a linha de lamas e a linha de desodorização. A linha líquida é constituída por gradagem, desengorduramento, decantação primária lamelar, tratamento biológico por lamas ativadas, filtração terciária em areia e desinfeção UV. As lamas biológicas são espessadas por flotação, misturadas com as lamas primárias removidas, seguindo-se um processo de desidratação por centrifugação e estabilização química com cal. Dadas as características da instalação e da envolvente habitacional, o ar poluído é tratado em torres de lavagem química”.

NEM SEMPRE TUDO FUNCIONOU BEM NA “ETAR” DE SOBREIRAS…

Mas, nem sempre tudo correu bem. Há catorze anos registaram-se problemas, quatro anos mais tarde desse episódio – dito como resolvido – surgiu um outro que teve por parte de Rui Sá, então, vereador municipal, uma intervenção direta na questão.

A… 07- 07 -2005

“A Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Sobreiras, no Porto, estará a funcionar a 100% no final de Julho, depois de uma interrupção, devido a problemas de funcionamento, que fizeram com que, desde Março passado, os esgotos fossem canalizados diretamente para o rio Douro. Rui Sá, presidente do conselho de administração dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento (SMAS) portuenses, assegurou que a empresa teve a garantia por parte do consórcio Soares da Costa/Mota-Engil/Degrémont, que construiu e está a explorar a ETAR, «que todos os equipamentos seriam testados e reparados e que, a partir de agora, a ETAR deverá continuar a funcionar normalmente». Em 2040, esse caudal poderá aumentar até aos 54 mil metros cúbicos”, leu-se em notícia.

EM 2009

“DENÚNCIA DE RUI SÁ VAI LEVAR VEREADORES A VISITAR O EQUIPAMENTO (ETAR SOBREIRAS). CÂMARA NEGA PROBLEMAS” – notícia JN

Foto: António Amen – entrevista de Rui Sá ao “EeTj” há oito anos

E lê-se:

“A ETAR de Sobreiras estará a lançar no rio Douro esgotos por tratar e os maus cheiros têm motivado queixas dos moradores. A denúncia foi feita, por Rui Sá, vereador da CDU durante a reunião da Câmara do Porto.

O vereador comunista, que fez aprovar a constituição de uma delegação municipal que irá este mês visitar a Estação de Tratamento de Águas Residuais de Sobreiras, afirmou aos jornalistas, que “continua a sair esgoto pelo exutor”.

“A cor escura da água e a presença de cardumes de tainhas junto ao exutor significam que está a sair matéria orgânica. Isso tem acontecido vezes demais e há moradores que se queixam de maus cheiros. Estive lá na passada semana e vi que o portão por onde saem as lamas [resíduos que resultam do tratamento de águas residuais] estava aberto, o que deixa escapar o cheiro todo”, revelou Rui Sá.

O vereador, que já foi responsável pelo pelouro do Ambiente e presidiu aos SMAS, não quis adiantar causas para os problemas mas recordou que “todas as ribeiras que davam para as praias foram entubadas e dirigidas para a ETAR de Sobreiras (embora se diga que há uma zona de bypass, ou seja, quando chove muito, podem ir diretamente para o Douro)”.

PROBLEMAS ANTIGOS IDÊNTICOS AOS ATUAIS

Foto: “Público”, com a devida vénia

Ora, os sinais levantados por Rui Sá, há dez anos, são precisamente os que relatam, hoje, a população. Terá havido outro problema no exutor? Não sabemos, o que se sabe é que a população queixa-se; há provas do que diz, e se, na verdade, há problemas, como é que as entidades responsáveis os pretendem resolver.

Tentamos entrar em contacto com determinados responsáveis, mas não obtivemos qualquer tipo de resposta. Seja como for, este jornal está sempre aberto a publicar a opinião (responsável) de quem quer que seja e a qualquer momento.

01dez19

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