Entre as habituais rubricas, que dão corpo à Revista Reis editada há mais de meio século pela troupe JOC LOC, “Figura Reiseira” é o espaço reservado à memória de toda uma comunidade reiseira, que em cada edição anual, acrescenta e enriquece o espólio bibliográfico deste património cultural da secular tradição do Cantar os Reis, que este ano, na publicação n.º 54 (janeiro de 2020) destaca como tema de capa António Dias Simões, assinalando os 150 anos do seu nascimento (1870-2020), daquele que é considerado “Pai fundador do Cantar os Reis” em Ovar, como escreve João Costa, um dos fundadores da revista editada pela primeira vez em 1967 e reiseiro da JOC LOC desde a sua origem em 1959 como um dos seus impulsionadores.
Como recorda João Costa, o veterano reiseiro da geração pioneira da estrutura das troupes que chegaram até ao século XXI, e que leva mais de meio século a acrescentar elementos históricos e curiosidades à tradição reiseira através desta revista. Refere-se a António Dias Simões como pai e fundador do Cantar os Reis em Ovar, “terá sido em janeiro de 1893 que saiu à rua com pouco mais de meia dúzia de amigos, entre os quais Alves Cerqueira, cofundador da sua trupe, chamada do “Alves” ou dos “Velhos”, a cantar e a tocar belas melodias, acompanhadas com violas bandolins e violinos”, com letras das mensagens de Natal escritas por António Dias Simões, “poeta, dramaturgo, historiador, músico e também reiseiro”, que já em 1970 a quando do centenário do seu nascimento, foi homenageado pela revista Reis e a troupe JOC LOC.
Sobre a intervenção cultural de António Dias Simões, destacam-se ainda na vertente literária, o seu primeiro livro de versos “Vozes da Alma” e as várias obras, “Ovar-Biografia” que escreveu como historiador, ou como miniaturista e caligrafo “O Epitome da Vida de Santa Rita de Cássia”, entre várias peças de teatro, como, “Noite de Natal”, “O Amor e a Natureza”, “O Cometa”, “À Beira-Mar” e “Napoleão Petiz”. Escreveu também sonetos “A meus filhos”. Publicou textos no jornal local “A Pátria”, a exemplo de uma série de artigos “Ovar e Júlio Dinis – Desfazendo um equivoco”, segundo texto da palestra de Deolinda Cascais Palavra a quando do centenário do nascimento de António Dias Simões, em que afirmou, “mas Dias Simões não morreu! A sua obra perpetua-se na sua descendência, na pessoa de sua ilustre filha, D. Maria Amélia Dias Simões, e de seus netos”, (Revista Reis/1971). Uma referência à família de seguidores da obra reiseira, que João Costa também exalta como “dinastia Dias Simões”, no seu contributo para as memórias do património reiseiro partilhado na edição deste ano da Revista Reis.
Da vasta obra de António Dias Simões, figura de Ovar que na toponímica da cidade deu nome à rua (prolongamento a sul da Rua Fernandes Tomás) em que se localiza a casa onde nasceu a 29 de setembro de 1870 e que seria merecedora de uma homenagem pela Associação Desportiva Ovarense em 25/12/1939. Destaca-se também, que, “o interesse pelo desenvolvimento da instrução não foi apenas tema de um dos seus mais belos sonetos, mas preocupação do seu espirito, o que o levou a fundar o primeiro Colégio que existiu em Ovar – o Colégio Júlio Dinis” (revista Reis/1971).
Ao nome de rua, e às homenagens assumidas pelas comunidades reiseiras, a comunidade escolar da então Escola Preparatória de Ovar, que se empenhava no aprofundamento da tradição reiseira através da sua própria Troupe de Reis, adotou António Dias Simões como seu Patrono, que viria a ser aprovado no Diário da República de 20/12/1997. Uma singela homenagem que só mesmo a evolução da rede escolar para mega agrupamentos veio a desvalorizar e desmembrar definitivamente o espirito de comunidade até aí vivido.
Inicialmente como Troupe de Reis Escola Preparatória de Ovar, Escola E.B. 2,3 de Ovar e por fim, já com o anterior Patrono Alexandre Sá Pinto substituído, Escola E.B. 2,3 António Dias Simões – Ovar, esta comunidade escolar e educativa empenhou-se com alegria e entusiasmo na valorização do tradicional Cantar os Reis através das novidades reiseiras (letras e músicas), com que se afirmou através da sua Troupe de Reis, que durante uma década (1991-2000) contribuiu para enriquecer este património cultural.
Em alguns jornais ficaram registos alusivos à Troupe que era conhecida como “Troupe dos Professores”, ainda que fosse composta por vários elementos da comunidade escolar, educativa e local, em que se destacavam naturalmente vários dos docentes e não docentes desta escola.
Com o título “Roteiro Reiseiro”, a referência a esta Troupe da Escola dava conta que, “Seguimos os passos da Troupe da Escola EB 2 e 3 de Ovar, que soube, ao longo de sete anos de existência, transmitir a tradição dos Reis, de uma forma menos formal, procurando fazer a ponte entre os setores mais conservadores e os mais jovens. No lugar da habitual frieza entre as Troupes, fomos encontrar uma salutar confraternização reinadia entre, por exemplo, a Escola e o Orfeão, com a velhinha troupe a abrir alas, em plena rua, para, no final da atuação da Troupe da Escola, cantar com graça: “come a papa, menino, come a papa”, na sequência de uma música muito a propósito da Escola, no ano anterior. A resposta, igualmente foliona, não se fez esperar, desfilando em ritmo carnavalesco, como proporcionava o ritmo musical da sua letra de despedida, “gozemos bem a vida”. (Jornal de Noticias/Página do Leitor, 26/01/1997, JL)
“Novos embaixadores reiseiros”, foi o registo da estreia da Troupe da Escola a Cantar os Reis na Assembleia da República, no mesmo dia em que a JOC LOC cantava ao lado, no Palácio de São Bento para o então Primeiro-ministro António Guterres. “Para Almeida Santos, a atuação do grupo vareiro foi a melhor prenda que podia ter recebido, a poucas horas do debate, no Parlamento, sobre a ratificação do Tratado de Amesterdão. A Troupe da Escola, com letra de Theresa Jorge e música de António Barros, foi acompanhada, nesta viagem, por Esmeralda Souto, presidente da Junta de Freguesia de Ovar e simpaticamente recebida, à porta da Assembleia, pelo autarca presidente da Assembleia Municipal de Ovar e chefe de gabinete, Laranjeira Vaz.
Almeida Santos acompanhado, entre outros, dos deputados Rosa Albernaz, Pedro Penedo e António Martins, ouviu, atentamente, a docente Theresa Jorge a traçar as particularidades da tradição vareira, bem como a formação e intervenção da própria troupe, cuja composição vai para além dos elementos da comunidade escolar.” (Jornal de Ovar,
08/01/1998, JL)
Assumindo-se como uma Troupe de Reis mista a exemplo da Ribeira que já vinha seguindo estas linha de participação das mulheres, contrariando a tradição. A Troupe de Reis da EB 2.3 António Dias Simões chegou ao fim do que, “começou por brincadeira dentro da escola, cedo saiu para fora dos muros e entrou no coração dos vareiros”. Um empenhado, mesmo que no intervalo de tempo de uma década, em que, “a proposta partiu, na altura, do grupo de educação musical e, desde então, não mais esta escola deixou de participar com a sua Troupe de Reis e colaborar, com as suas tradições reiseiras muito próprias, na defesa e preservação desta rica e popular tradição cultural de Ovar. (…)
Assim ganhou laços e um espaço próprio entre as troupes mais características e antigas do Cantar os Reis em Ovar.
Durante os dez anos de existência da troupe, a escola levou a tradição a outras gentes (…)”, lê-se no texto com o título, “Escola Dias Simões canta reis há dez anos”. (Diário de Aveiro, 05/01/2000, JL)
Texto e fotos: José Lopes
01fev20










