A Galeria sala117, no Porto, tem patente a exposição Eye-vo-re da artista plástica Mariana Barrote. Eye-vo-re forma-se pela convivência de objetos que constroem entre si uma malha variegada de possibilidades para pensar o corpo como espaço primevo para a gestação do ato de provocar.
No entanto, o pensar o desenho como matriz leva à reunião de pinturas, de pequenos desenhos tridimensionais em linóleo, de objetos construídos para serem manipulados no vídeo, de desenhos.
Em Eye-vo-re surge primeiro a pintura, camuflando, iludindo e narrando o mundo como o vê J.M. Clezio, mundo esse onde “não há animais nem plantas, há apenas homens, mais ou menos mascarados.” A pintura surge como convite: com malhas multicoloridas de tinta, de natureza polypoika, dirigindo-nos ao espaço onde reina o desenho e o vídeo. Jogos miméticos incorporam gestos que se tornam ritualizados e desconstruídos, presentes na documentação do desenho. A exploração poderá acentuar o não revelado, pelo desvio da norma, por fascínios e pela hybris.

O desenho formula metáforas visuais que refletem sobre o seu ato, partindo do enraizamento do gesto e do olhar. O vídeo, de forma lírica, descortina os processos inerentes à atividade de desenhar, sustentando-a como o jogo rítmico de tensões entre a sedução e a cegueira.
Propõe-se o alinhamento do energon (natureza intrínseca ao desenho segundo Roland Barthes) como um ato de entrega: capaz de seduzir o olhar até onde a transgressão ocorre. Negação da anatomia ao gesto de desenhar coincidindo movimentos corporais que provocam estranheza: propondo um corpo que incorpora não só a anatomia humana como o corpo excessivo, entre o humano e o seu devir. Esta sugestão desenvolve-se pela simbiose entre o desenho e o vídeo. Eye-vo-re fomenta rumores em torno do corpo manipulado em um rosto e nocancelamento da visão; todo ele movido na sedução, camuflagem e ocultação.
Texto: Joana de Belém / EeTj
Fotos: pesquisa Google
01fev20