Fernanda Ferreira
Era uma vez um reino cujo soberano, do alto do seu castelo, admirava diariamente os seus domínios, com a felicidade de se achar rico e poderoso.
Todos os seus súbditos o respeitavam, mas queixavam-se da sua mão pesada em relação aos impostos tributados.
Ele era detentor da soberania sobre tudo, tendo o dever de fazer cuidar do cumprimento da lei, manter a ordem e dar proteção aos seus súbditos em caso de guerra, desacatos ou criminalidade.
A nobreza e clero cediam ao povo o direito de viver em casas e terrenos que lhes pertenciam, mas com a obrigação de os cultivar e pagar, em géneros, elevadas percentagens do lucro, sendo depois parte desse valor entregue ao monarca.
Também os artesãos tinham de pagar impostos ao rei.
Era assim que as obrigações e deveres estavam estabelecidos e todos tinham de aceitar, embora, entre eles, reclamassem em segredo, com medo das retaliações.
Os monarcas, que eram filhos únicos, tinham tido a infelicidade não terem conseguido ter mais do que um filho, que estava no início da adolescência.
Como único herdeiro, o príncipe era ser educado por professores competentes que o ensinavam tudo o que um futuro rei devia saber, incluindo latim, filosofia, história, economia, como ser um bom orador, informações sobre os estados vizinhos e treino e táticas de guerra.
O seu mestre de armas, era um exímio professor e tinha um filho, dois anos mais velho que o príncipe, que se tornou seu escudeiro e um verdadeiro amigo.
Era tão devotado à família real e mostrava-se tão inteligente e empenhado em adquirir conhecimentos, que o monarca resolveu que ele podia assistir às aulas do príncipe.
O jovem escudeiro absorvia todos os conhecimentos com extrema facilidade e dava mostra de, não só aprender, como também compreender tudo na perfeição.
Era muito fácil gostar dele pela sua humildades e educação.
Todos admiravam a elevado grau de inteligência, sabedoria e sensatez que demonstravam os dois adolescentes nas suas conversas.
E assim se foram passando os anos, até que num ano cinzento, toda a população foi assolada por doença desconhecida.
Os velhos, crianças e os mais débeis não conseguiram aguentar e morreram, incluindo os pais do escudeiro.
Também o príncipe e o seu amigo ficaram muito doentes.
Os reis, aflitos por tamanha desgraça, chamaram o médico da corte e os melhores curandeiros para tratarem os dois.
Desde sanguessugas, escalda-pés, pachos frios na cabeça, emplastros de ervas, chás de várias qualidades e todas as espécies de mezinhas foram utilizadas, sem que os doentes melhorassem.
Desesperados, prometeram uma recompensa a que conseguisse curá-los.
Uma Maga, apareceu e disse:
-Quis o destino que assim acontecesse para que Vossas Altezas aprendessem com o desgosto e mudassem a vossa postura.
O povo vive quase na miséria para vós terdes mesa farta e vida faustosa.
Não quero a recompensa e até podeis mandar-me prender e castigar pelas palavras que vos dirijo, mas são verdadeiras.
A justiça divina far-se-á sentir duma maneira dura e irreversível.
O vosso filho será salvo com as ervas com que o tratarei, mas ficará impossibilitado de caminhar. O escudeiro também se salvará e, como é resistente, ficará completamente curado. É só isso que posso prometer a Vossas Altezas. Tudo o resto dependerá de vossas futuras atitudes porque, do mal de que fostes vítimas, podereis fazer algo de muito bom ou de muito mau e o futuro do reino dependerá disso.
O rei ficou irritado com estas palavras e revoltado por só o escudeiro ficar são, mas não mandou castigar a Maga, porque precisava dela para salvar o filho.
Tal como ela tinha dito, assim aconteceu.
O monarca começou a tratar mal o escudeiro, enraivecido por ele ter ficado bem e o filho deficiente motor, mas, com o tempo, observando que o jovem era extremamente devotado ao príncipe e grato à família real por tê-lo salvado, o seu real coração, inicialmente endurecido, começou a ter dó por ele ter ficado órfão, sem família e desprotegido e, pouco a pouco, começou a afeiçoar-se, como se de um seu familiar se tratasse.
Falou com a rainha e resolveram que o acolheriam e continuariam a formação do jovem, que deixaria de ser escudeiro para aprender a ser o conselheiro do futuro rei e seu braço direito, uma vez que era uma pessoa de confiança, muito inteligente e já com uma grande bagagem intelectual que aumentaria pela continuação dos estudos e o poria à altura de tamanho cargo.
A política de impostos foi revista e suavizada e o trabalho semiescravo do povo foi proibido e humanizado.
E assim foi, do mal se fez bem e o reino beneficiou imenso.
Quando o monarca morreu o seu filho foi aclamado rei e o amigo passou, como previsto, a ser seu conselheiro.
Todo o empenho na sua preparação foi recompensado e para o novo monarca, ele seria as suas pernas do e um segundo cérebro.
A felicidade do povo fez com que fosse mais produtivo e a inteligência e bom senso com que foram governados tornou esse reinado perpetuado na memória dos tempos.
Imagem: pesquisa Google
01fev20
