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Como se vivia na cidade durante o cerco do Porto

Maximina Girão Ribeiro

Agora que vivemos numa situação de isolamento social e lutamos com múltiplas medidas de precaução para nos defendermos de um inimigo invisível (o covid19), vem-me à ideia a forma como terão vivido os portuenses, enquanto decorreu o cerco do Porto.

Fechados numa cidade, cercada por 40 mil homens, fiéis a D. Miguel, os portuenses passaram privações e angústias, com combates que proliferavam em diversos pontos da urbe, entre as duas facções rivais ( tropas liberais de D. Pedro e as forças absolutistas, fiéis a D. Miguel). D. Pedro contava com apenas 7500 homens, aos quais se juntou uma boa parte da população do Porto.

Entre 8 de Julho de 1832 e 18 de Agosto de 1833, a cidade foi bombardeada, praticamente todos os dias.

Algumas famílias, mais prudentes e, por certo, mais favorecidas economicamente, desde o início do conflito, acautelaram-se comprando os artigos mais indispensáveis para o seu sustento, como farinhas, carnes salgadas, bacalhau, unto, etc. Outra medida que tomaram certas famílias mais abastadas, foi a saída da cidade para as suas quintas de recreio, situadas nos subúrbios.

A Serra do Pilar durante o cerco

Atempadamente, também o governo permitiu que em todos os portos do continente, pudessem ser descarregados trigos e farinhas estrangeiras, produtos destinados especialmente para o sustento das tropas.

A construção das linhas de defesa da cidade criaram, desde logo, certas limitações à circulação dos portuenses e os confrontos entre absolutistas e liberais foram deixando a cidade completamente arruinada. As explosões e os tiros aterrorizavam mulheres e crianças e os bombardeamentos constantes, aliados à fome e às epidemias (o tifo e a colera morbus), foram factores calamitosos para os habitantes do Porto. A doença começou a atacar a cidade, primeiro o tifo que matava em 24 horas, não havendo cura para esta doença infecciosa. Mas, foi a collera morbus, provocada pela falta de higiene e pelas águas conspurcadas, que mais devastou a população e, também, muitos animais. Segundo consta, a collera morbus entrou na cidade, após o desembarque do marechal Solignac que, acompanhado por alguns soldados belgas, veio colocar-se ao lado de D. Pedro.

O cerco do Porto contado pelo coronel Owen

Com o decorrer da contenda, os quatro principais hospitais existentes, no Porto, em 1832 – o da Misericórdia ou de Santo António, o da Ordem Terceira do Carmo, o da Ordem de S. Francisco e o da Caridade (Ordem do Terço), começaram a ficar sobrelotados e, as fracas condições sanitárias de cada um deles, criaram um cenário catastrófico, com um número exagerado de feridos e de doentes que de tudo careciam para a sua salvação. Por isso se gerou uma onda se solidariedade, através de donativos, envio de roupas, lençóis, panos para curativos, fios, panos de linho, travesseiros, candeeiros, garfos, fronhas, camisas, toalhas, colchões, cântaros, ligaduras, cobertores, mantas, malgas, aparadeiras, ataduras para sangrias novas, dinheiro, sapatos, entre outros artigos…À falta de carne, os doentes eram alimentados a sopa de bacalhau, temperada com açúcar e aguardente. Os colchões (enxergões), feitos de palha, eram desmanchados para alimentar os cavalos.

A mendicidade e a fome grassavam por toda a cidade e os próprios militares viam-se em condições deploráveis, não só pela falta de fardamentos adequados, como pela fraca alimentação, pois faltava o pão, chegando-se ao ponto de um pão ser dividido por quatro e, muitas vezes, nem pão tinham e só lhes eram dadas batatas ou arroz, pois faltava a carne e outros géneros, cuja entrada na cidade era muito condicionada, dado que os mantimentos só podiam chegar, vindos por mar mas, a descarga dos navios era perigosa, não só pelo receio devido à presença da forte esquadra de D. Miguel, como pela perigosa força do mar, durante um inverno rigoroso.

Uma rua do Porto durante o cerco

A cidade padecia da escassez de pão e carne, bem como de carvão e lenha para cozinharem e se aquecerem. As lojas que vendiam pão e farinhas, vinho, carnes e peixe, depressa ficavam vazias e os preços dos produtos subiam exageradamente. Começaram a surgir algumas iniciativas de solidariedade como a “Sopa Económica” (Fevereiro de 1833), para distribuição aos mais pobres. Também o Convento das Carmelitas distribuía uma sopa económica que, diariamente chegava a mais de oito mil pobres.

Para a habituação a um quotidiano de sobressalto, durante o cerco, os habitantes da cidade foram encontrando formas de minimizar a rotina dos bombardeamentos e, para protecção das casas, utilizavam-se couros crus, espalhando-os pelos soalhos das casas, a fim de amortecerem o impacto das granadas ou de balas rasas. Mas, o mau cheiro dos couros, depressa levou ao abandono deste material.

Barcos ao largo da Foz do Douro

No final do conflito, a cidade estava arruinada, quer economicamente, quer sob o ponto de vista humano – o exército liberal contava, entre mortos, feridos e prisioneiros, cerca de 3 478 perdas, enquanto o exército absolutista registava perdas na ordem dos 23 004 homens. A população da cidade teve, também, uma quebra substancial.

As Guerras Liberais de 1832-1834 representaram a heróica resistência da cidade do do Porto e das tropas de D. Pedro, a que se ficou a dever a vitória da causa liberal, em Portugal, assegurando- se, assim, o trono a D. Maria II, a filha dilecta de D. Pedro IV.

 

Obs-Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: pesquisa Google

01abr20

 

 

 

 

 

 

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