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“Aquilo que…”

Joaquim Castro

 

O massacre das frases feitas, nomeadamente as que são pronunciadas na rádio e na televisão, acabam por ser uma tortura para quem gosta de um português sem as tais frases feitas, sistematicamente repetidas. Já aqui falámos deste assunto, mas há uma frase que nos leva a repetir a chamada de atenção. É a frase “aquilo que…” e suas variantes, como “aquele que…”. Ora, uma das maiores consumidoras desta expressão é a ministra da Saúde, Marta Temido, que utiliza exaustivamente estas expressões. Mas não é a única a fazê-lo, pois até o nosso Presidente já caiu nessa moda, assim como muitas outras personalidades, que bem as poderiam evitar.

O COVID-19 / A COVID-19

Diversas figuras públicas, que intervêm na televisão e na rádio, tanto falam do Covid-19, com da Covid-19. Mas qual é a forma correcta de pronunciar esta palavra? De acordo com a Infopédia – Dicionário Porto Editora, Covid-19 é uma palavra feminina. É uma doença respiratória viral causada por um coronavírus, cujos sintomas iniciais incluem febre, tosse e dificuldade respiratória, podendo evoluir para situações de pneumonia, falência dos rins e de outros órgãos e eventual morte, conforme refere a Infopédia – Dicionário Porto Editora. Mesmo autoridades da área da saúde, pronunciam erradamente o género do termo, mudando de feminino para masculino. Entretanto, o termo Covid-19, rapidamente perdeu o d, passando a ser pronunciada “Covi-19”.

IMPENSÁVEL PENSAR!

Pedro Mota Soares, presidente da Belenenses SAD fez uma intervenção na SIC Notícias, em 29.03.2020. Ele falava da possibilidade do campeonato de futebol não ser concluído nesta temporada, 2019/2020. Para ele, “era impensável pensar que o Campeonato de Futebol não vai ser prosseguido”. Mais recentemente, ouvi uma jornalista afirmar, em directo, que diversas personalidades tinham estado “reunidas numa reunião”. Também registei esta, de um agente imobiliário: “A procura de prédios não tão tão procurados… Foi na SIC Notícias. Bem sabemos que estes lapsos podem acontecer a qualquer um. Estes casos ficam aqui como mero registo, pela sua originalidade.

FRASES DESLUMBRANTES!

Uma personalidade de relações públicas da TAP saiu-se com esta: “Os voos que haviam de Luanda para Lisboa ficaram todos cancelados. Olha, se aviassem!

Uma jornalista da SIC noticiou que tinha havido um “parôco” de uma freguesia que deu a cruz a beijar, na Páscoa; em plena pandemia da Covid-19 – Se fosse um pároco seria bem pior!

Ou aquela “é uma doença de que pouco se sabe, como todos sabem…”.Ou seja, não sabiam mas sabiam. E outra, “o Governo vais desenhar uma solução, para combater o desemprego”. Pelo menos, os desenhadores, como eu sou, vão ter emprego para desenhar essas soluções.

Outra: “Convém meter a máscara na cara, para proteção contra o Coronavírus”. Eu diria, “meter a cara na máscara”, se bem que, neste caso, “meter” significa pôr.

Também fiquei admirado, quando uma daquelas meninas que falam do trânsito disse que o “tráfico” estava pouco intenso. Devia ter dito tráfego.

ATÉ OS MORTOS DISPARAM!

Não é novo, mas, nos últimos tempos, o verbo disparar ganhou um novo protagonismo, para significar grande aumento: “O número de mortos da Covid-19 disparou, em Itália”. “A diferença pontual do resultado disparou, a favor do Futebol Clube do Porto”, que defrontava, em casa, o Guimarães, num jogo de basquetebol. Também fiquei a saber que o preço da água disparou, no município de Oliveira de Azeméis. Estes disparos estão muito na moda, sendo que alguns vão atrás da moda de outros, na linguagem noticiosa. Mas é claro que, para disparar é preciso ter licença de uso e porte de arma.

COTOVELOS DOBRÁVEIS!

Numa peça da SIC, foi dito que a DGS – Direcção-Geral da Saúde, mandava tapar a boca com os cotovelos, por causa do Coronavírus. Bem tentei, mas não consegui! O que a DGS quereria dizer, é que se tapasse a boca com a parte oposta ao cotovelo, a parte que fica entre o braço e o antebraço. Também teve graça, a Directora-Geral da Saúde, Graça Freitas, ter dito, na Assembleia da República, que a última coisa que queria era que houvesse pânico e corrida aos supermercados. E rematou: “Se for preciso, em última análise, é sempre possível recorrer à horta de um amigo”. E quem não tiver um amigo que tenha uma horta?

UMA DÚVIDA CHAMADA “GLICÉMIA”

A palavra glicemia pronuncia-se com “e” fechado e sem qualquer acento gráfico. Significa glicose no sangue. É uma palavra formada a partir de dois elementos gregos: “glykýs” (doce) e “emia” (sangue). Este segundo elemento entra na composição de diversas palavras, como anemia, alcoolemia e leucemia. Na língua de origem, emía (aima+sufixo-ia) tem o acento tónico no “i”. Ora, mandam as normas que, ao importar termos estrangeiros, a língua importadora seja fiel à etimologia, conservando a acentuação de origem. Assim sendo, embora esteja cada mais generalizada a outra forma de pronunciar a palavra, “glicémia”, o correcto será ler e escrever: glicemia, tal como se diz anteriormente. Voltando a anemia, reparem que ninguém pronuncia “anémia”!

A ESTRANHA FORMA “INTERVIU”

Escreve ou pronuncia “interviu”? Não faça isso; é um erro do tamanho de um avião. Se assim fosse, o pretérito perfeito do verbo intervir, seria: eu intervi, tu interviste, ele interviu, nós intervimos, vos intervistes, eles interviram. Ou seja, cada forma do verbo, cada erro. Então como é? É assim: eu intervim, tu intervieste, ele interveio, nós interviemos, vós interviestes, eles intervieram. O verbo intervir é um verbo composto e tem na sua estrutura interna um verbo simples, o verbo vir. Ora, os verbos compostos conjugam-se de acordo com o paradigma de flexão que está na sua base. Neste caso, o verbo vir, conforme se lê na obra “500 Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa”, da autoria de Sandra Duarte Tavares, mestre em Linguística Portuguesa”. Mas há muita gente, mesmo com canudo, que comete este erro gramatical. Uma desgraça!

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: pesquisa Net

01mai20

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