Maximina Girão Ribeiro
Hoje, falamos em epidemias e pandemias que se distinguem segundo a sua extensão territorial. Assim, quando se faz referência a doenças que se disseminaram por uma região geográfica limitada como, por exemplo, uma cidade, ou um continente, trata-se de uma epidemia. Já o termo pandemia é utilizado para se referir a uma doença que se espalhou por um espaço geográfico muito vasto, como por vários continentes, ou se globalizou à escala mundial, como é o caso da Covid-19.
Neste momento em que a humanidade vive com a terrível ameaça pandémica do Corono vírus, ouvimos constantemente palavras que marcam este tempo, como “confinamento” ou “recolhimento domiciliário” (ficar em casa), “quarentena” (estar em isolamento por X dias), “prevenção” (contra o vírus), “distanciamento” (social), “máscaras” (de protecção),…
Ao longo da História, a medicina sempre teve de enfrentar todo o género de epidemias, as quais tiveram repercussões demográficas, mudanças económicas, políticas e sociais e permanentes desafios da ciência médica para colmatar os terríveis estragos que a humanidade foi sofrendo por causa de vírus, bacilos, bactérias e todo um conjunto de micro-organismos que devastaram tanto ou mais do que guerras, tremores de terra, tsunamis, erupções vulcânicas, ou qualquer outro desastre natural.
São conhecidas epidemias desde tempos remotos, assinaladas e documentadas, mas daremos interesse às mais conhecidas, como a do séc. XIV que atingiu a Europa, também conhecida como Peste Negra, Peste Bubónica ou Grande Peste.

A Peste Negra teve a sua origem na Ásia, propagando-se ao longo da Rota da Seda, atingindo a península da Crimeia, em 1343. Rapidamente, esta doença foi disseminada, através das pulgas que viviam nos ratos. Estes roedores abundavam nas embarcações dos mercadores genoveses que comerciavam os produtos vindos do Oriente, por toda a bacia do Mediterrâneo. Desta forma, através da Península Itálica, toda a Europa foi atingida.
Portugal, a partir de 1348 já sofria com esta onda epidémica. Embora a doença tenha sido combatida à custa de uma pequena melhoria da higiene e pela diminuição da população dos ratos urbanos, o certo é que surtos semelhantes a este se repetiram em séculos posteriores. As más condições de vida, com as populações mais desfavorecidas aglomeradas em casas pequenas, mal arejadas e infestadas de ratazanas e pulgas, facilitavam a propagação, a par da falta de saneamento, do consumo de água conspurcada, da ausência de cuidados higiénicos pessoais, do desconhecimento e da inexistência de antibióticos, de vacinas, ou de insecticidas, tudo foram condições propícias para as infestações constantes.

Neste período da História, a doença era considerada como um castigo divino, como uma punição, ou até, como resultado de possessões demoníacas. Contra as epidemias, as pessoas recorriam tanto a rituais de magia/bruxarias, como a orações e promessas…
A maioria dos medicamentos era feita nos mosteiros, pelos monges que recorriam a plantas, cultivadas por eles próprios, nos claustros ou nos terrenos que lhes pertenciam. Esses remédios eram elaborados na farmácia do mosteiro (a chamada botica) e, muitas vezes, os monges também tratavam os doentes dentro do mosteiro, numa enfermaria.

As populações infectadas usavam ramalhetes de ervas aromáticas para limpar o ar e queimavam folhas de incenso, no interior das habitações. Os médicos da época (os chamados físicos) não tinham ideia do que causava a doença, mas perceberam que o isolamento era uma forma de evitar que a peste se propagasse ainda mais e retiravam os infectados das cidades, colocando-os extra-muros. Outras medidas de prevenção e tratamento foram tomadas pelas autoridades para controlo e eliminação das doenças, proibindo-se a deslocação de pessoas e mercadorias, a fim de evitar o alastramento das enfermidades.
Os doentes eram tratados com sangraduras e sanguessugas, na esperança de limpar o sangue dos pacientes. Os médicos da peste praticavam sangrias e aplicavam diversos tipos de tratamentos, como colocar rãs ou sanguessugas nas ínguas para “reequilibrar os humores”, como práticas de uma rotina normal.
Para lidarem com os infectados, os médicos de todas as épocas, “inventaram” vários processos para se precaverem em relação às doenças. O traje de protecção consistia numa espécie de casaco comprido de tecido pesado, normalmente em couro encerado, uma máscara com aberturas para os olhos que eram protegidos por vidro e um nariz em forma de cone, ou seja, um bico longo de ave que permitia um distanciamento maior em relação à pessoa doente e que servia para conter substâncias aromáticas e palha, funcionando esta como um filtro para o “mau ar”. Alguns dos materiais perfumados colocados no “bico” eram âmbar, folhas de hortelã, erva-cidreira, cânfora, cravo, láudano, mirra, pétalas de rosa e estoraque [um bálsamo]. A maioria dos médicos da peste também usava um chapéu de aba, que se tornou identificativo da sua condição de médico.

Toda esta indumentária protegia o médico do chamado “ar miasmático” que, segundo uma teoria defendida na época, as doenças teriam origem nos miasmas, isto é, no conjunto de odores fétidos provenientes de matéria orgânica em putrefação nos solos e nos lençóis freáticos contaminados. Deste conjunto de protecção do médico constava também um bastão/vara de madeira, usado para ajudar a examinar os pacientes, sem a necessidade de os tocar com as mãos. Diz-se também que este bastão/vara era usado, a pedido dos doentes, para serem castigados pelos seus pecados. Então, pediam para serem vergastados, como forma de se arrependerem dos seus erros.
Mais tarde, o século XIX foi a época das grandes pandemias que muito afectaram as populações: a cólera, a mais mortífera (1817 a 1824), cujo contágio se fazia por meio de água ou de alimentos contaminados; a peste bubónica (1899); a febre-amarela e a varíola. Também, mais tarde, a gripe espanhola, exactamente há um século (entre Janeiro de 1918 e Dezembro de 1920), que matou mais de 50 milhões de pessoas no mundo. Poderíamos referir também o tifo exantemático (transmitido por parasitas comuns no corpo humano, como piolhos); a tuberculose e, mais recentemente, o ébola, etc., etc.

Contudo, é a partir do séc. XIX, com as medidas profiláticas baseadas nas ideias higienistas, assim como o surgimento de uma nova geração de cientistas, de que destacamos, em Portugal; os médicos Ricardo Jorge e Câmara Pestana, que se debruçaram no estudo das áreas da higiene e da epidemiologia, promovendo medidas de prevenção das doenças, com ênfase na higiene, no sentido de educar as populações, educação que era assegurada pelas autoridades e divulgada nos jornais. A limpeza das casas e das roupas, a importância de abrir as janelas e arejar as casas e livrar-se dos “miasmas pútridos”, eram os conselhos mais divulgados.
Uma inovação importante nesse período foi a invenção de uma máscara profilática facial, criada pelo médico Afonso de Lemos, destinando-se a ser usada por médicos e enfermeiros, na observação e tratamento dos doentes infectados. As máscaras faciais tiveram uma enorme divulgação e utilização, durante a gripe espanhola, a partir de 1918.
Os tempos mudaram – a ciência evoluiu e fizeram-se conquistas consideráveis a todos os níveis. Hoje, existem outros meios de diagnóstico, de prevenção e de tratamento. Embora a nossa preocupação seja enorme em relação a este inimigo invisível, a Covid-19 mas, na actualidade, tudo é diferente, em relação à forma como se vivia noutros tempos, ao pânico que se gerava, às superstições e à ignorância e desconhecimento que pairava numa sociedade onde tudo faltava para sobreviver.
Fica uma palavra de esperança por dias melhores, mais serenos e harmoniosos, em que possamos retomar, em segurança, o nosso quotidiano habitual. Na certeza de que, todos juntos venceremos esta batalha, fica o desejo/apelo de: resistirei… resistiremos!
E, parafraseando a poeta Filipa Leal, registo a primeira frase de um seu poema:
“Havemos de ir ao futuro!”
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
Fotos: pesquisa Google
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