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As Mulheres na Poesia

Carmen Navarro

Hoje trilhamos caminhos em uma sociedade em que as discussões acerca dos direitos, do estatuto das mulheres, em todas as áreas, são um fato, seja na cultura, na arte, ou em outra profissão qualquer e a sua designação também deve ser contestada. O certo é que há profissões desempenhadas por homens, que têm nomes femininos; como artista, dentista, jornalista e outros em que a única diferença está na mudança do artigo, ou (a) ou (o).

Portanto, ser Poeta ou ser Poetisa dizem literalmente a mesma coisa, embora hoje em dia me pareça que a palavra poetisa tem qualquer coisa de depreciativo, talvez derivado do fato da terminação da palavra (isa). Nesta designação o termo usado para homem denota poder. Há muito a fazer também no que concerne à produção artística feminina que tende a ter uma leitura diferenciada, por aquilo que são e não pelo espelho masculino. Sei que causa sempre um sobressalto quando nos referimos a questões femininas e muito mais, quando lutamos pela igualdade de valores. É de muito mau gosto, quando se remete a escrita das mulheres para uma suposta menoridade.

Não vamos fazer uma abordagem ao estudo de género. Mas, não podemos deixar de referir que o século XIX, foi pernicioso e, em muitos casos devastador para as mulheres, devido à prepotência masculina e às convenções sociais que espartilhou as mulheres, só as valorizando como «fadas do Lar» enclausurando-as dentro de casa, ficando com o rótulo de ser frágil, retirando-lhes as liberdades que usufruíram no século XVIII.

Entre o século XVIII e o XIX, uma mulher extremamente culta se destacou, a lendária Marquesa de Alorna, (conhecida como Alcipe), devido à sua vida atribulada, e à perseguição do Marquês de Pombal que a encerrou durante 19 anos no Convento de Celas, onde recebeu uma educação superior tendo por Mestre o Sacerdote Filinto Elisio.

Eu Cantarei um Dia da Tristeza

Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.

Mas ah! Que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.

Marquesa de Alorna, in “Antologia Poética”

Só quero mostrar que a escrita de poesia feminina teve um papel já no século XX, muito marcante e transgressor, ao arrepio da sua época. Vou só trazer algumas Poetas e um seu poema. Noutras abordagens falaremos com mais pormenor.

Judite Teixeira. Nasceu em 1880 e faleceu 1959.

Os seus livros foram considerados imorais, e queimados no Pátio do Governo Civil, juntamente com o livro “Canções” de António Botto, o que levou que a Poeta fosse esquecida. Só recentemente começou a ser valorizada. Mais uma vítima do fascista Salazar.

Vaticínio

Hás-de beber as lágrimas sombrias
que nesta hora eu bebo soluçando!
E o veneno das minhas ironias
há-de rasgar-te os tímpanos cantando!

Hás-de esgotar a taça de agonias
neste sabor a ódio… e, estruturando
hás-de crispar as tuas mãos vazias
de amor, como eu agora estou crispando!

E hás-de encontrar-me em teu surpreso olhar
com o mesmo sorriso singular
que a minha boca em certas horas tem.

E eu hei-de ver o teu olhar incerto
vagueando no intérmino deserto
dos teus braços tombados sem ninguém!

Judith Teixeira, in “Antologia Poética’

Irene Lisboa. Nasceu em 1892 e faleceu em 1958

Magnifica escritora e Poeta excelente pedagoga, também votada ao esquecimento, foi colaboradora da Seara Nova, mulher extremamente inteligente e livre, sofreu a perseguição do Regime.

Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indómitos ódios.
E se, se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.

Irene Lisboa

Maria Lamas, Nasceu em 1893 e faleceu 1983.

Jornalista, tradutora escritora e ativista. Com 25 anos divorcia-se, tem duas filhas, assume-se como mulher independente. Publica o seu primeiro livro com o pseudónimo de Rosa Silvestre. Foi uma incansável lutadora pelos Direitos das mulheres.

Nunca é de mais lembrar a Poeta Maria Archer. Nasceu em 1899 e faleceu 1982, Com Maria Lamas, tiveram a coragem assombrosa de afrontar a sua época e a própria PIDE. Soube entender o feminino até ao âmago.

No conservadorismo feroz que vigora na época, uma poeta se destaca Florbela Espanca, assim com as anteriores fez parte das pouquíssimas mulheres que teve acesso à Universidade. Mulher livre que enfrenta uma época retrógrada, reacionária e preconceituosa. Sempre incompreendida. Nasceu em 1894 e suicidou-se no dia dos seus anos em 1930.

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

 Natália CorreiaPoeta, Romancista, Inteletual extremamente versátil e ativista social. Revelou-se uma rebelde e audaz, assumiu causas e agigantou-se pelas Liberdades, atravessou o século XX, nasceu em 1923 e veio a falecer em 1993. A audácia de Natália Correia levou-a a compilar a “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” que viria a publicar em 1965, em pleno Estado Novo e que lhe trouxe imensos dissabores.

De Amor Nada Mais Resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia, in “Poesia Completa” 

Muitas Poetas ficam por nomear que viveram e lutaram contra uma sociedade castradora que teimava em as humilhar e a serem vítimas de uma sociedade profundamente machista.

Após o 25 de Abril deu-se o reconhecimento da força da palavra da mulher na Literatura Portuguesa, e muitas são as que se têm vindo a evidenciar, não só como Poetas, mas também, como romancistas ou ficcionistas. Diremos mais este reconhecimento foi abrangente a todas as formas de arte de inspiração feminina e da própria mulher.

 

Fotos: pesquisa Google

01mai20

 

 

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