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ATERRO EM SOBRADO – PROBLEMAS COM MAUS-CHEIROS E PRAGA DE INSETOS MANTÊM-SE E LOGO EM TEMPOS DE “COVID-19”! Marisol Marques (dirigente da “Jornada Principal”) chama à atenção para outras pertinentes questões…

As questões relacionadas com o aterro situado em Sobrado e gerido pela empresa “Recivalongo” estão longe de estar resolvidas, como o pretende a população da freguesia, a Associação Jornada Principal e a Câmara Municipal de Valongo.

Os atentados ao meio ambiente e ao bem-estar da população – agora, com uma percentagem preocupante de infetados pela covid-19 -, são, há praticamente um ano, “permanentes”. Para complicar as “coisas” foram criadas facilidades ao trabalho da referida empresa de reciclagem, com o alargamento do horário laboral e ausência de emissão de guias , como referiu ao “Etc e Tal” a dirigente da associação “Jornada Principal”, Marisol Marques.

 

José Gonçalves

(texto e entrevista)

 

EeTj – Quanto sabemos, parecem haver novidades relativas ao aterro gerido pela Recivalongo, em Sobrado … e, pelos vistos, não são as melhores…

Marisol Marques – “É verdade! Infelizmente as últimas medidas promulgadas pela tutela, leia-se Ministério do Ambiente, vão facilitar as pessoas que exploram o aterro, isto porque, para além de permitirem o alargamento do horário laboral – ainda há pouco tempo, denunciamos o facto de os resíduos terem ficado a descoberto de uma sexta-feira à segunda-feira seguinte, não havendo o cumprimento das regras e da legislação que os obriga a tapar os resíduos com terra -, vêm, agora, ausentar as entidades da emissão de guias, o que nos preocupa muito. E voltamos a questionar tutela sobre como é que isso é possível? Esta questão das guias não passa de uma medida populista, aproveitando-se a questão da pandemia, para que a mesma seja concretizada. E é populista, porque não são os técnicos que estão na linha da frente, e, como tal, que vão fazer a emissão das guias, não há o risco de contágio! As guias são feitas por outras pessoas o que permite que venha para aqui não se sabe o quê, em que quantidade, e qual o destino…”

O “Etc e Tal” à conversa com Marisol Marques, em Sobrado, há cerca de um ano

Mas, falou-se, não vai há muito tempo, em resíduos hospitalares?! Isso é verdade?

Sim. Numa primeira fase, estava previsto que resíduos hospitalares não perigosos – os do grupo 1 e 2 – viessem para o aterro, mas por muita pressão das gentes de Sobrado, da Associação Jornada Principal e da Câmara Municipal de Valongo junto da tutela, houve um recuo relativamente a essa questão. Portanto, enquanto houver capacidades, esses resíduos serão incinerados.

No fundo, era o que pedíamos, até porque isto da pandemia é uma novidade, mesmo a nível científico, e, como tal, não se sabe os perigos que depois daí podem advir. Isto, para além de que há locais que não estão inscritos, como os hospitais de campanha, ou improvisados. Tudo o que para ali possa vir tem de ter as tais guias de emissão”.

Já fizeram chegar à tutela a vossa posição, e da tutela qual foi a resposta, se é que houve resposta?

“Até hoje temos tido respostas vagas. Não há preocupação! Nós só queremos saber o que vem, a quantidade que vem e de onde vem”.

PARECE QUE TEMOS GÁS ESPALHADO NO INTERIOR DAS NOSSAS CASAS

Continuam os maus-cheiros assim como os outros problemas que, até há pouco, tempo incomodavam a população?

“Se houve, após a caminhada de 10 de junho do ano passado, uns meses, durante os quais o impacto não se sentia, ou seja, não eram tão fortes os odores… isso passou! A partir de outubro voltaram os cheiros. E começamos a senti-los muito mais, principalmente, durante as festas de Natal e de Ano Novo, que, diga-se de passagem, foram horríveis. Entravamos dentro de casa e parecia que tínhamos gás espalhado no interior das nossas casas. E daí para cá tem vindo a ser assim…”

Agora, com o confinamento domiciliário…

“…é horrível!”

…ainda mais com as pessoas permanentemente, ou quase, em casa.

“Exatamente! Se uma grande parte da população saía da freguesia para trabalhar, pelo menos durante essas horas não sentia esses cheiros, agora não! Estamos em casa; estamos confinados e aí somos autênticos prisioneiros pois não conseguimos abrir as janelas nem as portas. Mesmo para usufruirmos das nossas varandas, dos terraços, dos espaços que nos permitem ir na rua… não podemos, não conseguimos devido aos maus cheiros.

Para além disso, há o problema relacionado com os insetos. Estamos na primavera, já se faz sentir algum calor, e os insetos são terríveis. As picadas são constantes! Isto piorou imenso porque, como os cidadãos estão mais alertados para este problema, fizeram-nos chegar fotografias com as consequências da poluição. Ainda há pouco tempo, enviamos uma carta para o Ministério da Saúde a relatar a situação e não tivemos qualquer resposta. O que é certo, é que as últimas fotografias foram de bebés e de crianças picados pelos insetos e a precisarem de recorrer ao médico e a medicamentos para sanar de alguma forma as picadas e as maleitas”.

TEMOS UMA PETIÇÃO COM QUASE CINCO MIL ASSINATURAS PARA ENTREGAR NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA…

Marcha – foto “VO”

O ministro do Ambiente nunca vos recebeu? Nunca tiveram uma reunião?

“Pedimos uma reunião ao senhor ministro do Ambiente e ele deu-nos uma resposta referindo que a sua secretária de Estado nos iria receber no passado dia 19 de março. A reunião ficou adiada, porque já estávamos em confinamento por causa da pandemia. Nós estávamos prontos para nos deslocarmos a Lisboa. A verdade, porém, é que, até hoje, o ministro Matos Fernandes nunca nos recebeu!”

Na presença do ministro da tutela – foto “VO”

Mas, o encontro com a secretária de Estado fica adiado, ainda que sine die. Contudo, será realizado?!

“Esperemos que sim. Logo que a pandemia termine, que espero que sejamos recebidos. Acreditem que não vamos baixar os braços, como já deu para perceber. Temos uma petição com quase cinco mil assinaturas para entregar na Assembleia da República, processo esse que ficou também adiado devido às circunstâncias. Assim sendo, abrandamos um pouco o nosso ritmo, mas só mesmo por causa da covid-19. Por exemplo, no fim-de-semana logo a seguir a oito de março, tínhamos já as bandeirolas preparadas para vestir Sobrado de negro, colocando-as nas varandas, nos postes etc. mas, tudo ficou também teve de ser adiado devido à pandemia”.

EM SOBRADO TEMOS INFETADOS PELA COVID-19! FORAM OS PRIMEIROS DO CONCELHO DE VALONGO E SÃO DAQUI, ATUALMENTE, A MAIORIA DOS CASOS POSITIVOS…

E com o é que a população de Sobrado está a reagir à pandemia, agravada, por certo, com a presença do aterro?

“É, como disse, muito desagradável porque se sentem muito mais os maus-cheiros….”

Há infetados em Sobrado?

“Há! Foram aqui que surgiram os primeiros casos registados no concelho de Valongo. Tenho vários vizinhos em quarentena, com os testes já feitos e que deram positivo; outros foram internados. Uma das vizinhas foi das que teve um bebé há pouco tempo, e que foi notícia, pois ela estava infetada, mas a criança acabou por nascer sem problemas. Portanto, por aqui há muitas pessoas com casos da covid-19. Alias, o concelho de Valongo tem muitas centenas de infetados e, a verdade, é que uma grande parte é daqui, de Sobrado…”

Mas, como ia dizendo, há pouco, a vossa luta vai continuar…

“Ah, sim… temos feitos debates com diferentes temáticas. Recentemente, realizamos um direto via Skype, com os dois empresários de Sobrado, um chefe do agrupamento local dos escuteiros e uma professora. Cada um dos intervenientes deu a sua opinião sobre a situação que se vive na localidade…”

Estamos a falar das forças vivas da região…

“Exatamente! E os empresários foram unânimes em dizer que, se fosse hoje, não investiam e nem compravam casa em Sobrado. A professora que além de estar diretamente sujeita ao impacto ambiental, acaba por todos os dias a receber queixas dos alunos, que não querem sair da sala de aula, ao intervalo, porque o cheiro é tão nauseabundo que preferem ficar no hall da escola.

Viver assim é muito complicado! Os escuteiros, paredes-meias com o aterro, faziam diversas atividades nestes montes. Sobrado recebia outros agrupamentos para acampar e, como é óbvio, deixaram de o fazer.”

O PRESIDENTE DA CÂMARA DE VALONGO É UM ALIADO QUE NOS DÁ MUITA FORÇA!

José Manuel Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Valongo – foto JP

Há, pelos vistos muita gente a comungar dos propósitos da associação Jornada Principal, um dos quais – sabemos, por que é público – o presidente da Câmara Municipal de Valongo. É importante ter um apoio desses?!

“O senhor presidente da Câmara Municipal de Valongo tem sido de uma grande transparência connosco e é um aliado, que, realmente, nos dá muita força. A nossa associação também deve muito ao empenho que a Câmara Municipal nos tem dado, e a qual acaba por ser a mola impulsionadora para continuarmos o nosso trabalho”.

Há, sensivelmente, um ano, um responsável da Recivalongo abeirou-se da reportagem do “Etc e Tal jornal” e de elementos da associação Jornada Principal” e falou sobre o problema. A partir daí…

Da parte da “Recivalongo” ainda não houve recetividade em falar convosco? Em sentarem-se juntos à mesma mesa?

“Não. De todo! E para piorar a situação releve-se ainda o facto, que até foi notícia, relacionado com um pedido dessa empresa à Direção de Recursos Hídricos para fazer descargas na Ribeira do Vilar. Isso foi denunciado, na altura, pelo senhor presidente da Câmara de Valongo em direto para vários canais de televisão, sendo depois o pedido indeferido! Caso contrário, se nós estávamos mal, pior ficaríamos! Haveria descargas para a Ribeira do Vilar poluindo depois o rio Ferreira e depois o rio Douro”.

POUCAS PESSOAS SABIAM QUE PORTUGAL IMPORTAVA LIXO…

Aliás, sobre o rio Ferreira e uma ETAR têm surgido diversas contestações por parte de partidos políticos, como a Bloco de Esquerda e o PAN… temos essa notícia na presente edição do “Etc e Tal”…

“Da ETAR de Reigada, sim! Das obras! Estava previstas já terem terminado com as obras há imenso tempo e nada! Também temos acompanhado essa situação e, dentro do possível, também temos colaborado. O Bloco de Esquerda e o PAN também estiveram aqui connosco, na nossa luta. Esteve cá a Catarina Martins. No fundo, as forças políticas têm sido incríveis para connosco, pois todas elas têm demonstrado muito interesse pela nossa questão. Éramos para ir ao aterro, em março último, com o PSD, mas também foi uma das ações previstas que teve de ser adiada.

A verdade é que os partidos têm sido muito importantes pela força que nos têm dado, como na questão da importação de resíduos, que deu forte polémica …”

Foi do conhecimento geral…

“Sim. Poucas pessoas sabiam, antes disso, que Portugal importava lixo.

Salvo o erro, de Itália?!

“Sim, de Itália, Reino Unido e Marrocos…”

Realço Itália devido aos graves problemas que por lá se vivem em relação à covid-19…

“Exatamente. O ministro do Ambiente disse que até maio deixaremos de receber, pelos movimentos transfronteiriços, os resíduos vindos de Itália. Estamos à espera de saber qual o mês de maio, de que ano, e em que dia do mês de maio… Estamos a aguardar resposta.

Neste caso, os partidos deram-nos muita força, porque, só com a sua presença e intervenção na questão, o preço da tonelada passou dos 9,90 euros para os 22 euros. E conseguimos, assim, fazer a diferença, não só para Sobrado, mas para o País. No fundo, ficamos contentes com as vitórias nestas pequenas batalhas, já que é para o interesse de todos… E isto também pelo facto de terem de ser revistos os resíduos provenientes de instalações que tratam os doentes com a covid-19. Houve, portanto, um recuo da tutela e esses resíduos vão ter mesmo de ser incinerados. E como disse, isso não é bom só para nós, a Azambuja, por exemplo, tem um aterro muito perto da população…”

O NOVO CORONAVÍRUS PÔS O PLANETA A REGENERAR…

Incêndio do aterro…

Como diz o povo «há males que vêm por bem». Até certo ponto o novo coronavírus veio colocar muito boa gente em sentido… e alertar para muitas coisas, e coisas sérias. No Ambiente a «reação» foi radical…

“Pôs o planeta a regenerar! Estávamos a entrar por um caminho que já não teria saída. Já não o seria um planeta para os filhos, quanto mais para os netos”.

As pessoas pararam para pensar…

“Sem dúvida! Estamos a ter uma verdadeira lição da natureza. Era bom também que os responsáveis pela Recivalongo levassem uma lição! Os aterros são necessários! Nós sabemos disso. Estamos no século XXI e todos nós somos consumistas, vivemos em sociedade e os resíduos têm de ir para alguma sítio, mas não para um aterro que fica quase no meio da população, e onde se enterra tudo: amianto com tecidos biodegradáveis; vários químicos que produz… ali é enterrado tudo! Assim não!

 

Fotos: Luís Navarro (©Arquivo EeTj), Jornada Principal  – JP e “Verdadeiro Olhar “ – VO

 

01mai20

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