O último passo para a reconversão do antigo Matadouro Industrial num polo empresarial, cultural e social que promete transformar a zona oriental da cidade do Porto, está dado.
A Câmara do Porto ganhou o recurso que interpôs acerca do chumbo do visto prévio dado pelo Tribunal de Contas à obra que será executada pela Mota Engil e cujo projeto é do famoso arquiteto japonês Kengo Kuma, em parceria com os portugueses, da Ooda.
O Tribunal de Contas tinha recusado o visto prévio ao referido projeto a 4 de fevereiro de 2019, ou seja, há 14 meses, tendo dado ao Município 10 dias para apresentar recurso, o que fez em tempo. Passado mais de um ano, a Câmara do Porto ganhou o recurso, recebendo o visto, último passo necessário ao início dos trabalhos.
O antigo Matadouro Industrial do Porto, situado na freguesia de Campanhã, está desativado há 20 anos, chegou a ser posto em hasta pública pelo anterior presidente da Câmara, mas nunca foi vendido. Agora, vai ser alvo de um investimento de quase 40 milhões de euros, suportado na íntegra pela Mota-Engil, empresa do Porto que venceu o concurso lançado pela Câmara do Porto para a concessão do espaço.
Ali vai nascer agora uma área para a instalação de empresas, galerias de arte, museus, auditórios e espaços para acolher projetos de coesão social que prometem ser o impulso que faltava à Freguesia de Campanhã, à zona oriental da cidade, mas a toda uma região. As obras deverão demorar cerca de dois anos e transformarão por completo a zona.
O arrojado projeto de arquitetura, feito em parceria com o gabinete Ooda, instalado em Matosinhos por jovens arquitetos oriundos da famosa escola de arquitetura do Porto, é da autoria do arquiteto japonês Kengo Kuma, conhecido pela assinatura do estádio que vai acolher os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021; por equipamentos culturais como o Suntory Museum of Art, também no Japão, o francês Besançon Art Center; ou pelo “spa” caribenho do Mandarin Oriental Dellis Cay.
A Mota-Engil, que já prestou caução à Câmara do Porto, fica obrigada a cumprir o programa delineado pela autarquia, nos próximos 30 anos. No final desse período o equipamento ficará municipal. À autarquia, que ocupará uma parte do antigo Matadouro, cabe a realização de projetos de dinamização cultural, de envolvimento da comunidade e afetos à coesão social.
Durante mais de um ano, o Município esperou pelo acórdão que vem agora dar razão, em toda a linha, ao Município, que sempre argumentou que o que estava em causa não era uma parceria público-privada, mas ainda que fosse, as regras das mesmas não se aplicam às Câmaras Municipais, além de que, mesmo que se quisesse considerar tal, esta seria uma parceria virtuosa.
A par de outros grandes investimentos que têm vindo a ser realizados em Campanhã, como o do Parque Oriental (já em uso) ou o do Terminal Intermodal, que está em construção, ou o projeto de habitação acessível a ser construído no Monte da Bela, este era considerado por Rui Moreira como um “game changer”, capaz, realmente, de mudar o panorama da cidade e impulsionar o emprego e coesão social naquela zona do Porto.

A ideia da reconversão do Matadouro, nestes termos, foi apresentada pela primeira vez em 2016, por Rui Moreira, na Trienal de Milão e o concurso que se seguiu, acabou por exceder as expectativas. No projeto do arquiteto japonês, além da construção de uma grande cobertura que unirá o antigo e um novo edifício, a proposta destaca-se pela construção de uma passagem pedonal por cima da Via de Cintura Interna (VCI), que “cria um impacto visual único para quem atravessa” a mais concorrida via da cidade. Outro dos elementos-chave é a rua pedonal coberta, que atravessa o espaço de ponta à ponta, ligando ao jardim suspenso sobre a VCI que dará acesso à estação de metro do Estádio do Dragão.
O Matadouro, de acordo com a autarquia, “pode servir como grande impulsionador económico, social, cultural e demográfico das freguesias mais orientais do Porto (Bonfim e Campanhã), mas será também um extraordinário pólo dinamizador de toda a cidade”.
“Não tenho dúvidas que, tal como a Casa da Música, na zona Ocidental da cidade, esta será a obra icónica da zona Oriental e não é por acaso que desperta o interesse dos investidores privados”.
O concurso de concessão contou com três concorrentes e indicava “a reconversão integral do complexo, mantendo a sua memória histórica e natureza arquitectónica”. Os autores do projecto vencedor dizem que a sua proposta, com mais de 20 mil metros quadrados de área construída, pretende “reactivar, reinventar, este espaço e dar continuação a essa história e memória da cidade”.
“Sem querer sermos exagerados, diríamos que o futuro “Matadouro estará para o Porto como o Centro Pompidou está para Paris, tal a exposição internacional acrescida que esta obra do italiano Renzo Piano deu à Cidade Luz”, concluem os promotores.
QUEM É KENGO KUMA?

O novo Estádio Nacional de Tóquio, que receberá a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos adiados para 2021, foi projetado por Kengo Kuma, o mesmo que, em parceria com os premiados arquitetos portugueses da OODA, um gabinete que nasce da famosa escola de arquitetura do Porto, desenvolveu o conceito que será implementado no Matadouro. A concessão, que pode agora avançar, foi sexta-feira confirmada, depois da Câmara do Porto ter ganho o recurso apresentado contra a decisão do Tribunal de Contas de não conceder o visto.





Mal comparado, podemos dizer que o projeto que será desenvolvido no Matadouro é “a nova Casa da Música” da cidade, tal o impacto que terá do ponto de vista da referência arquitetónica e do que representará para a cidade, tendo em conta os nomes envolvidos no projeto.
Nascido em Yokohama, produto da escola de arquitetura de Tóquio, Kengo Kuma é autor de outros objetos de enorme importância para a arquitetura mundial, como o Suntory Museum of Art, na capital japonesa; a Bamboo Wall House, na China; a sede do Grupo Louis Vuitton, no Japão; o Besançon Art Center, em França; e um dos maiores spas das Caraíbas, para a Mandarin Oriental Dellis Cay.
O projeto prevê uma grande cobertura que, num só gesto, une o antigo, que será preservado, e o novo edifício de remate, assim como a passagem por cima da VCI.
Todo o trabalho foi feito com o cuidado e sensibilidade de quem intervém em património histórico, mas pretendendo criar unidade e identidade. Estabelece assim um diálogo de escala com as grandes infraestruturas adjacentes e, de forma subtil, através dos materiais, com o casario da freguesia da Campanhã. O desenho da cobertura não só une todo o complexo, como através do seu movimento (cumieiras) sublinha as partes essenciais do programa, servindo como pontos de referência e orientação.
A proposta cria um impacto visual único para quem atravessa a vci e permite fazer com que a cidade ganhe elasticidade e usufruto durante 365 dias, enquanto ativa o lugar com o seu programa e abre também todo um conjunto de novas oportunidades para os espaços exteriores e para a comunidade.
Garante-se assim a desejada visibilidade e atração a esta zona da cidade, que será fundamental para o sucesso a longo prazo do processo de consolidação territorial e de inclusão social. A passagem aérea, enquanto ponte pedonal superior sobre a VCI, permitirá unir o complexo do Matadouro à zona do Estádio do Dragão a poente. Mas, enquanto jardim e miradouro, será também o remate mais visível de uma abordagem que cria uma nova identidade marcante.
Texto: Porto. / EeTj
Fotos: Porto. / Miguel Nogueira (Porto.) e pesquisa Google
01mai20











