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Almada Negreiros – O Espírito Modernista

Carmen Navarro

 

No Inicio do século XX o modernismo rompeu com o tradicionalismo decadente, estético vigente, então existente na sociedade. Esse movimento artístico e cultural cortou com padrões antigos e deu-se a inovação, teve o seu primeiro reflexo nas Artes e na Literatura e por consequência na sociedade burguesa e decadente, profundamente marcada pelo classicismo racionalista e naturalista que ofereceu forte resistência às inovações.

Modernismo é mais uma maneira de pensar que um estilo. O marco inaugural deste movimento foi o lançamento da Revista Orpheu em março e junho 1915, que marcaram a introdução do modernismo em Portugal.
(O nome da Revista é uma referência ao mito de Orfeu, um poeta que encantava tudo e todos ao tocar a sua flauta).

Nesta altura a Europa passava por grande instabilidade social. Foi uma época de grandes avanços científicos e tecnológicos, sempre em constante transformação e deu-se o surgimento de novos paradigmas do pensamento. A música e a arquitetura que traziam excesso de ornamentos, também absorveram os novos ventos da modernidade de tal maneira que esta influência perdura até hoje em cidades de todo o mundo.

A primeira fase, Geração do Orpheu ou (Orfeísmo). Entre 1915 e 1927.Primeiro Grupo Modernista teve à frente, Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.

ACONTECEU-ME

Eu vinha de comprara fósforos
e uns olhos de mulher feita,
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem,
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha que pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros

in: Orfeu

Ao sair esta Revista foi alvo de duras críticas, como: Que retratava a decadência da Literatura, para alguns era o símbolo do decadentismo.

Júlio Dantas afirma que não há razão para tanta publicidade e sucesso desta revista, afirmando que os autores são pessoas sem juízo.

A periodicidade era trimestral, só saíram duas, a terceira já estava pronta, mas com o suicídio de Mário Sá Carneiro, o seu pai pesaroso com a situação, não deu a verba para a publicação, pois era ele que a financiava. O espírito de mudança não morreu com a revista, pelo contrário, reforçou-se com a adesão de novos criadores e começou a desenvolver intensa denúncia da mediocridade académica instalada na criação literária em Portugal.

Caracterizou-se por:
Rutura com o passado, numa atitude inovadora (provocando escândalo).
Distanciamento do sentimentalismo
Espírito Critico e questionador
Espírito dinâmico acompanhando as transformações tecnológicas Linguagem quotidiana,
Oposição ao pré estabelecido

Destaca-se de entre outros extremamente importantes, Almada Negreiros, que foi o maior representante do Grupo, era genial, não ficou só pela escrita. Distinguiu-se nas Artes Plásticas (pintura, desenho, vitral, tapeçaria) que provocou a libertação da Arte, onde teve grande impacto nas gerações subsequentes de modernistas. No Bailado. Nas letras foi sempre intervencionista, escreveu manifestos futuristas, textos doutrinários, peças teatrais, critica, romance, ensaio e poesia, esteticamente de versos livres e brancos (ausência de métrica e rima).

“Eu queria, como tu, não saber que
os outros não valem nada
pra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar a tona d’água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!”

Almada Negreiros

O primeiro escrito de vulto foi o “Manifesto Anti-Dantas” 1915. Reação critica à estreia da peça de Júlio Dantas “Soror Mariana”.

Depois de um percurso já muito diversificado e rico casa em 1934 com uma grande pintora Sara Afonso e no ano seguinte nasce o primeiro filho. Em plenitude escreve os ensaios, romances e poesia. Realiza Palestras e Colóquios continuando a pintar e realizando obras de Vitral e frescos em edifícios. Influenciado por outras correntes experimentou o Futurismo.

A sua pintura potenciou o geometrismo e um colorido vigoroso. Nunca se entregou a nenhum movimento artístico ou politico. Preferiu uma certa marginalidade. Coisas de um grande Génio. Na época outras revistas foram publicadas: Exílio e Centauro em 1916. Portugal Futurista em 1917 e Athena em 1924 -1925.

O Modernismo durou até aos anos 70. Manifestou-se em 3 fases.

Primeira: A de Orpheu
Segunda: Geração de Presença (Revista Presença) que pretendia dar continuidade ao trabalho iniciado com a Revista Orpheu. 
Terceira
: Neorealismo, último momento do Modernismo, tem início em 1940 com a publicação de Gaibéus de Alves Redol. Este período caracteriza-se pela oposição ao ditador António de Oliveira Salazar. Outros escritores e artistas se seguiram em defesa das mesmas ideias: Ferreira de Castro; Soeiro Pereira Gomes e muitos outros…

A SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros

José Sobral de Almada Negreiros, nasceu na Roça da Saudade, freguesia da Trindade, São Tomé e Príncipe, em 7 de Abril de 1893.
Os primeiros anos da sua infância foram passados em São Tomé.
Em 1900, já órfão de sua mãe e devido ao fato de seu pai, oficial de cavalaria ter sido nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris, onde fixou residência. Com apenas 7 anos Almada e seu irmão António vêm para Lisboa para casa de uma sua tia e depois internados no Colégio Jesuíta de Campolide, onde irão residir até à extinção do colégio, na sequência da implantação da Republica. Frequentou o liceu em Coimbra. Retorna a Lisboa para frequentar a Escola Internacional. Nesta altura publica as suas primeiras caricaturas e desenhos na revista “A Sátira”.

Realiza as suas últimas obras em 1969 – o painel “Começar” no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, começado no ano anterior, e os frescos “Verão” na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.

Em 15 de Junho de 1970, aos 77 anos, morre no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, no mesmo quarto em que tinha morrido Fernando Pessoa.

Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX.

 

Fotos: pesquisa Google

01jun20         

 

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