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As Antigas Quintas do Bonfim (I)

Maximina Girão Ribeiro

 

QUINTA DO REIMÃO OU DO CIRNE

 

O Porto, inicialmente rodeado por uma cinta muralhada, protectora de assaltos e ataques diversos ao burgo e às pessoas que o habitavam tinha, para lá deste núcleo populacional, alguns lugarejos constituídos por poucas casas e alguns casebres, além de bouças e bosques, bicas de água, regatos, riachos e ribeiros que movimentavam moinhos e azenhas, que regavam as leiras e as extensas propriedades com campos de lavoura. Existiam ainda caminhos estreitos e tortuosos, antiquíssimas estradas que iam dar às portas principais do burgo e, também, quintas, umas de residência permanente, outras, sobretudo a partir do século XVIII, de simples veraneio/recreio.

Porto muralhado – Gravura de Pedro Teixeira Albernaz (1634)

Para lá do burgo muralhado existia o chamado Arrabalde da Cidade que compreendia uma vasta área, cujos topónimos, alguns ainda hoje existentes, englobando a Rua de Entreparedes, a Praça dos Poveiros, S. Lázaro, a Rua e a Travessa das Oliveirinhas, os locais conhecidos por o Poço das Patas, Mijavelhas [Campo 24 de Agosto], Malmerendas (actual Rua do Dr. Alves da Veiga] e Reimão [hoje Avenida Rodrigues de Freitas), toda uma zona carregada de grande ruralidade.

Assim, extra-muros, os campos designados por Vale Formoso, que eram pertença da cidade, no século XV, a Câmara emprazou-os, ou aforou-os, isto é, exigindo pela ocupação do terreno o pagamento de um foro anual, a Pedro Anes de Santa Cruz e a seu filho Gonçalo Reimão, que aí estabeleceram uma quinta. Foi o nome de Reimão que passou a designar a extensa propriedade. Mais tarde, a filha de Gonçalo Reimão, Catarina Reimoa e o seu marido Diogo de Azevedo venderam a quinta a António de Madureira e a sua mulher D. Maria Fernandes das Póvoas, aos quais a Câmara renovou o emprazamento, em 1548, pelo foro anual de 180 réis, com direito absoluto à água da Arca do Poço das Patas e à do ribeiro de Mijavelhas, não só para regadio, como para accionamento dos seus moinhos. Este António de Madureira, que fora provedor da Santa Casa, em 1554-1555 e vereador da cidade, nos anos de 1535,1538 e 1550, com a compra deste lote de terrenos e com outros que, por ali perto possuía, reforçou a dimensão da denominada Quinta do Reimão. No vínculo, sucedeu-lhe seu filho primogénito Diogo de Madureira (o Novo), senhor da Torre de Atães, casado com D. Helena Miranda Soares, sem geração.

De acordo com o investigador Eugénio Andrea da Cunha e Freitas, já se encontrava a designação de Rua do Reimão em registos paroquiais de Santo Ildefonso, posteriores a 1640 podendo, portanto, a urbanização da zona ter começado no século XVII, conservando-se este nome, Reimão, até à 2.ª década do século XX. Plantas camarárias do fim do séc. XVIII, desenhadas por Teodoro Maldonado, em 1795, mostram projectos de urbanização local.

Em 1629, a quinta pertencia a uma descendente de António Madureira, que estava casada com Pêro Vaz de Sousa Cirne e é a partir desta data que a Quinta do Reimão passou a pertencer à família dos Cirne, ficando a designação da propriedade associada aos novos proprietários – Quinta ou Campo do Cirne.

Foi um dos descendentes dessa família, Francisco de Sousa Cirne de Madureira, um dos revolucionários de 1820, fidalgo da Casa Real, membro da Junta Provisional do Reino, provedor da Real da Companhia dos Vinhos do Alto Douro que, no ano de 1812, mandou construir um palacete, num dos limites das suas terras, com a frontaria virada para o Poço das Patas. Nesta altura, os terrenos da sua propriedade ainda pertenciam às freguesias da Sé e de Santo Ildefonso, pois a freguesia do Bonfim só foi criada a 11 de Dezembro de 1841, graças a um decreto governamental assinado por Costa Cabral, durante o reinado de Dona Maria II, depois de ter sido fixada pelo bispo D. Jerónimo José da Costa Rebelo a organização paroquial de 4 de Março de 1841. A nova freguesia constituía-se, assim, com um pequeno território suprimido à freguesia da Sé, tendo o restante sido tomado às freguesias de Santo Ildefonso e de Campanhã.

O primitivo edifício dos Cirne, de risco muito simples, depurado de decorações, foi construído sobre estacas, devido ao terreno alagadiço da zona do Poço das Patas [hoje Campo 24 de Agosto]. O palacete era constituído por um rés-do-chão e um andar com seis janelões, cada um com varanda e um outro janelão, no centro, também avarandado e flanqueado por sóbrias pilastras.

No frontão, de certo aparato, figurava a pedra de armas dos Cirne, influente e importante família portuense, em que um dos seus membros chegou a ser Feitor na Flandres. Esse brasão encontrava-se no cimo da fachada principal da casa, mas foi picado em 1890, ano em que a casa foi adquirida por novos donos e foi substituído por um simples adorno gravado no granito.

Este palacete foi também conhecido pelos nomes de Casa dos Cirne/Madureira e Casa do Poço das Patas e, ao longo do tempo, foi sofrendo alterações e adaptações sucessivas, conforme as necessidades das diferentes ocupações que foi tendo. Já em pleno séc. XX, na década de 30, teve obras para aumento de mais um piso e, a partir de 1955, foi adquirido para ser a sede da Junta de Freguesia do Bonfim, até à data presente.

Casa do Poço das Patas ou Palacete dos Cirne, em meados do séc. XIX
Edifício acutal da Junta de Freguesia do Bonfim

No ano de 1882, os donos da Quinta do Reimão, D. Maria Ana Isabel de Sousa Cirne Teixeira Blanco e o seu irmão António de Azevedo Cabral Sousa Cirne de Madureira deliberaram, de mútuo acordo, vender a extensa propriedade, por 95 contos de réis, ao negociante Eduardo Ferreira Pinheiro, de parceria com Joaquim Domingos Ferreira Cardoso, grande proprietário e abastado capitalista.

Esta imensa propriedade da Quinta do Reimão ou Quinta do Cirne é hoje uma zona urbana que se situa entre o Largo do Padrão, Rua de S. Victor, Largo Soares dos Reis até à entrada da Rua do Heroísmo e o Campo 24 de Agosto. Todo este vasto domínio manteve-se praticamente intacto, até 3 de Maio de 1882, altura em que se procedeu à venda, expropriação e loteamento desses terrenos, aprovando o Município, em 29 de Agosto de 1883 o “Projecto de arruamentos nos Campos do Cyrne” por proposta, de iniciativa privada, feita por Joaquim Domingos Ferreira Cardoso e José Eduardo Ferreira, assinando o projecto de urbanização o engenheiro camarário João Carlos d’Almeida Machado.

A urbanização do Campo do Cirne, em finais do século XIX, com a planificação dos arruamentos, hoje existentes e a criação desta zona residencial destinada à habitação da elite burguesa, seguiu os princípios orientadores, já em voga em outras cidades europeias.

Nos antigos terrenos de cultivo e jardins que pertenceram à quinta do Reimão, construíram-se casas e rasgaram-se artérias, quase todas com nomes de grandes figuras implicadas no Liberalismo: as Ruas Duque de Saldanha, Duque da Terceira, Duque de Palmela, Barão de S. Cosme, Rua Visconde de Bóbeda [aberta nas traseiras do Convento de Santo António da Cidade – a actual Biblioteca Pública], Rua de Joaquim António de Aguiar, Rua do Conde de Ferreira e a do próprio Ferreira Cardoso que aproveitou a ocasião para que o seu nome ficasse registado para a posteridade, embora este capitalista não tivesse nada a ver com as lutas liberais e o Liberalismo.

Por estes terrenos, aqui se situavam as tão celebradas Hortas  do Reimão onde, ainda em finais de Oitocentos, os burgueses portuenses iam com as famílias merendar, aos domingos, transportando os ricos farnéis, em cestos de vime. Nesses pacatos tempos era, para muitos, aqui no Reimão, num local que se situava sensivelmente a meio da actual Avenida Rodrigues de Freitas, que se passavam horas de agradável sossego, descanso, ou convívio familiar.

Nos finais do XIX, na Avenida Rodrigues de Freitas, na esquina com a Rua Barão de São Cosme existia uma casa térrea que servia refeições com um grande e aprazível quintal que, em dias de bom tempo, convidava a petiscar debaixo de uma ramada que cobria o espaço, onde se localizavam as mesas de ardósia que os frequentadores desta taberna ocupavam para saborearem as iguarias apetitosas que aí eram pedidas e feitas na hora.

Edifício da esquina da Rua de Barão de S. Cosme
Local onde ficaria a Taberna do Reimão

O escritor Camilo Castelo Branco frequentou esta casa e apreciava, especialmente, a pescada cozida com cebola e azeitonas. Mas, no Reimão, também se comia a lampreia, as tripas, o caldo verde e o peixe frito, servido com salada e azeitonas.

Na obra “O Cancioneiro Alegre” (1879) Camilo recorda com saudade o famoso peixe de cebolada servido “[…] no Reimão, na taberna de um maneta que levou deste mundo o segredo da boa pescada com cebolas.” Camilo, com os amigos Evaristo Basto e António Girão, mantinham um ritual de jantares em dias marcados e, à volta da mesa partilhavam as suas afinidades, a boa pescada, as conversas amenas e as longas discussões acerca das ideias de cada um.

Mais tarde, a casa térrea onde funcionava a tasquinha foi demolida e deu lugar a um novo edifício, onde funcionou o “Hotel Reimão”, também com um restaurante mas, tudo indica, que a sua fama gastronómica, nada se comparava com a anterior casa que servia comida.

Avenida de Rodrigues de Freitas

O que outrora foi a Quinta do Reimão é hoje, em grande parte, fruto de um sopro de renovação, operada a partir do dinamismo industrial da cidade, na segunda metade de oitocentos, a par da importância dos “brasileiros de torna-viagem” e do seu considerável capital acumulado, que contribuiu para o melhoramento e a modernização da cidade. A necessidade de mostrarem a sua importância e a sua ascensão social, muitos destes “brasileiros” escolheram para viver estas novas artérias da cidade, como é o caso evidente da Avenida Rodrigues de Freitas e as suas transversais, onde mandaram construir as moradias para sua residência, que ostentavam uma diversificada azulejaria, nas fachadas dos diferentes edifícios, tendo as varandas e as janelas gradeamentos de delicados pormenores em ferro forjado e/ou ferro fundido, podendo existir diversos motivos ornamentais na fachada que, normalmente era encimada por um frontão triangular primorosamente talhado no granito, elemento de requinte e símbolo do prestígio dos seus proprietários, para além das imponentes clarabóias, dos belíssimos estuques nos interiores… enfim, tudo são as características dominantes destes palacetes que, ainda hoje, podemos observar!

Azulejos em casa na Avenida de Rodrigues de Freitas

Em próximas edições do “Etc e Tal jornal” continuaremos a escrever sobre outras antigas quintas do Bonfim.

 

Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.

 

Fotos: Carlos Amaro

01jun20

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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