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Favas da cultura portuguesa

Lurdes Pereira

(texto e fotos)

 

Embora já se note que a vida vai, aos poucos, retomando a normalidade, mesmo que mascarada, no sopé entre as Meadas e Montemuro, optei por dar continuidade às minhas experiências hortícolas.

Se bem se lembram, tentei semear e plantar algumas leguminosas. Deram-me bastante luta e trabalho devido aos ataques de pragas impostos pelo clima atípico que se tem vindo a verificar.

Depois das singelas flores de cor envergonhada, cresciam vistosos e saudáveis os longos cornelhos das faveiras. Os coentros cobriram os verdes ramalhetes com um véu brilhante, ficaram pujantes e viçosos. As aboboreiras rebentaram as sementes e rasgaram a terra húmida, cresceram, engordaram com as chuvas que se fizeram sentir, e as alfaces tomam, finalmente, um volume redondo que parecem roubar a simetria de um esplendor.

Na tentativa de ser o mais biológica possível, procedi a tratamentos naturais. E ainda bem, porque resultaram.

Diz o ditado: “Quem semeia, colhe”. Colhi as primeiras favas, ainda bastante tenrinhas, algumas talvez ainda fosse necessário alongar dois ou três dias o seu período de gestação.

Curiosamente ligada à Lenda dos Reis Magos, à História dos Reis ou à Tradição do Bolo-Rei, a fava tem o desenho de um rim e veste a simplicidade do verde aveludado como a pele da infância com um toque acetinado em verde manso da água, carnuda. E o sabor? O sabor é único!

Uma cesta de favas parece muito, na realidade pouco se aproveita porque a natureza assim quis proteger os delicados filhinhos, a fava, muito acondicionados na fofa alcova de algodão doce.

Para além do majestoso consommé de favas, era costume preparar este delicioso alimento com batatas e carnes de porco fritas aromatizadas com rama d`alho e bom azeite. Mas a tradição fez-me lembrar o arroz de favas, muito famoso na zona de Baião.

Ai, como sou obrigada a evocar Eça de Queirós! Ele tinha razão! O arroz de favas, sendo um prato serrano, é tão arrojado quanto sublime, tão tosco quanto delicado. A salsa, também filha das minhas experiências, ofereceu-lhe um sabor ainda mais intenso. Mas as ideias vão surgindo e, ao servir no prato, decorei com pétalas de coentros… excelente!

A minha narrativa surgiu deste punhado de terra que me avivou os sentidos da visão, do olfato, do tato. A diversidade vai surgindo com harmonia num lugar e num tempo em que procuramos encontrar a essência, o sentido e o prazer nas pequenas coisas. Na continuação do meu isolamento social, a horta é o meu trabalho, é o meu lazer, é a minha inspiração!

Daqui, das terras de Inverno e de inferno também sabemos olhar as coisas boas, sabemos apreciar as dádivas da terra numa altura em que a humanidade percebeu que viver no campo é uma bênção de Deus.

 

01jun20

 

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