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OVAR – “COVID-19” DEIXA FRAGILIZADOS POLOS DAS UNIDADES DE CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS E DE PROXIMIDADE

Entre as particularidades vividas no concelho de Ovar, como foram o “estado de calamidade” e a “cerca sanitária”. Logo que foi identificada a primeira pessoa positiva Covid-19, das medidas preventivas que vinham sendo promovidas para o responsável “confinamento social”, destacou-se a 11 de março, o encerramento do Polo da Unidade Saúde Familiar (USF) ALPHA, em S. Vicente de Pereira, decidido pelo Agrupamento de Centros de Saúde do Baixo Vouga (ACES Baixo Vouga), em articulação com o Município de Ovar e a Proteção Civil, que rapidamente operacionalizou o “Gabinete de Crise””.

No dia seguinte, com um segundo caso confirmado, a Unidade de Saúde Familiar de São João de Ovar foi igualmente encerrada pela ACES Baixo Vouga. Acabando, durante a fase mais crítica de combate à Covid-19, por encerrarem também, o Polo da USF Laços, em Arada e o Polo da USF João Semana, no Furadouro, deixando unidades de cuidados de Saúde primários fragilizados, com particular incidência na área geográfica da União de Freguesias de Ovar, Arada, São João de Ovar e S. Vicente de Pereira.

 

 

José Lopes

(texto e foto *)

 

Como alternativa ao acompanhamento médico dos utentes, destes polos de saúde encerrados, na sequência do cenário de pandemia da Covid, a Autoridade Local de Saúde Pública do ACES Baixo Vouga procedeu a algumas alterações no funcionamento das USF no território de Ovar, que distribuiu os doentes de quatro médicos da USF de São João de Ovar, pela USF João Semana – Ovar, USF da Barrinha – Esmoriz, USF Laços em Cortegaça e ainda USF ALPHA em Válega, que recebeu também os utentes do Polo da USF ALPHA de S. Vicente de Pereira. Medidas implementadas com meios divididos em várias frentes desta luta ao coronavírus, que implicaram no caso da USF João Semana, a redução de atividade ao período da manhã, enquanto a tarde passou a ser dedicada ao tratamento de casos de doença aguda e potenciais infeções por Covid-19. Alterações na atividade desta USF que ainda impõe limitações nestes últimos dias de maio, em que continuam a não ser aceites marcações para consultas médicas e em caso mais grave, os doentes terão de ligar para um numero de telefone para uma “triagem” a realizar por médico ou enfermeiro, segundo informação obtida telefonicamente junto da USF João Semana.

Mas se no caso da USF de São João de Ovar, que dos onze profissionais, sete deram positivo na fase critica, a sua atividade reiniciou ainda na segunda semana de abril, ao mesmo tempo que várias outras respostas de Saúde se foram reajustando, para aliviarem a oferta do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a exemplo do hospital de campanha “Anjo D`Ovar”, como extensão do Hospital de Ovar Dr. Francisco Zagalo. A normalidade, quando se vai convivendo com o de confinamento social, deixou ainda polos de saúde encerrados, dificultando os necessários cuidados de saúde primários e de proximidade, a uma parte significativa da população que desespera quando, como acontece no Polo do Furadouro, os utentes nem têm tido serviços de saúde nem transportes públicos para recorrer a Ovar.

A decisão de adiar a abertura dos referidos polos em Arada e S. Vicente de Pereira foi anunciada por Pedro Almeida, diretor do Agrupamento de Centros de Saúde do Baixo Vouga (ACESBV), ao afirmar, segundo o Ovarnews, que vão ser feitas “as mudanças que já deveriam andar a ser feitas há muito tempo”. Mudanças que considera não estarem acontecer com os polos de Arada e São Vicente de Pereira, que por isso permanecem encerrados. Este responsável admitiu mesmo que, “num momento de mudança muito forte e acelerada na forma como se prestam cuidados assistenciais e, mais ainda, em Ovar, onde a situação que se registou não pode mesmo voltar a acontecer”. Lembrou ainda que, “um dos grandes problemas da transmissão de vírus tem a ver com a segurança e higienização de espaços e, muito em particular, em estruturas de saúde onde a probabilidade de convivência de pessoas saudáveis com pessoas infectadas é muito forte, pelo que deveremos reforçar cuidados no futuro próximo”.

Esta decisão da ACESBV, que não se poderá desresponsabilizar das próprias falhas, com que justifica o adiamento da abertura destes polos, mereceu palavras de contestação dos autarcas, Bruno Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Ovar e Miguel Silva, presidente da Junta de Freguesia de Maceda, a quem Salvador Malheiro, presidente da Câmara Municipal de Ovar, manifestou também apoio, através da sua página facebook, “os nossos Presidentes de Junta têm toda a razão. Contem comigo”, porque, “se há facto que esta pandemia veio demonstrar é a enorme importância dos serviços de saúde de proximidade”.

Para Bruno Oliveira, a “Covid-19 não pode justificar tudo. Estou contra o encerramento mesmo temporário das extensões de saúde de Arada, S. Vicente de Pereira e Furadouro que põem em causa a saúde pública da nossa população, ficando sem acesso aos cuidados primários dos respetivos médicos de família com esta redução de proximidade”. Como acrescenta este autarca, que chama ainda a atenção para o facto de se tratar de “uma população com pouca mobilidade e sem transportes públicos”, considera também, “no mínimo infelizes as justificações e afirmações” do diretor do ACESBV, quando refere, “que a situação que aconteceu em Ovar não pode voltar a acontecer”, ou que, ” as deslocações aos polos serviam para convívio e confraternizações”. Bruno Oliveira vai mais longe no que pode estar por detrás desta decisão, ao afirmar, referindo-se à ameaça que em 2016 pairou sobre este Polo, “não quero acreditar ser o Covid-19 a desculpa perfeita para forçar a intenção de Agosto de 2016 de encerramento da extensão de Saúde de São Vicente de Pereira”.

Já para o autarca de Maceda, Miguel Silva, que assume, “estamos juntos, pela saúde de proximidade” e recorda o objetivo de “um polo de saúde por cada uma das 8 freguesias do Concelho de Ovar” (total de freguesias anteriores ao processo de fusão que deu origem à União de Freguesia e reduziu o concelho a 5 freguesias). Para o presidente da Junta de Freguesia de Maceda, a gestão dos serviços de saúde não tem considerado o compromisso assumido pela ministra da Saúde, em novembro do ano passado, referindo-se à prometida instalação de uma Unidade de Cuidados a Comunidade – UCC e uma Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados – URAP, em Maceda cujo Polo se mantém encerrado.

GOVERNANTES VISITARAM OVAR SEM RESPOSTAS A ESTAS PREOCUPAÇÕES NOS CUIDADOS DE SAÚDE DE PROXIMIDADE

Com Salvador Malheiro a assumir, “somos dos Municípios mais seguros de Portugal”, no dia em que não se registaram novos casos positivos (22 de maio), e em que Ovar esteve na agenda de vários governantes. Os elogios à coragem dos vareiros foram muitos, mas os utentes das unidades de cuidados de saúde primários e de proximidade que ficaram fragilizados, não viram respostas às dificuldades que estão a viver com tais serviços de saúde encerrados durantes meses, Medida que pode estender-se até agosto.

Também os autarcas, nestes dias em que Ovar voltou a ser ponto de encontro da comunicação social para lembrar os momentos vividos durante o “estado de calamidade” e a “cerca sanitária”. Não obtiveram dos vários governantes, Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Primeiro-Ministro António Costa e Ministra da Saúde Marta Temido, respostas oficiais de “papel escrito”, às denúncias que assumiram nas redes sociais, relativamente às decisões da ACESBV sobre o adiamento da abertura dos polos de unidades de cuidados de saúde primários das respetivas USF do concelho.

Se do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, as palavras foram marcadas pelos característicos “afetos”, ao declarar que, “todos acompanhamos a saga de Ovar, desde o momento em que foi criada a cerca sanitária”, explicando que escolheu Ovar para esta visita, “por ser um exemplo simbólico fortíssimo do papel dos autarcas”, deixando como mensagem ao país, que “o futuro é olhar para o exemplo de Ovar e fazer de Portugal, em grande, o que os vareiros fizeram de Ovar”. De Marta Temido, em visita ao Hospital de Ovar que participa como “caso-piloto” num projeto para a criação de uma escala de risco de Covid-19, enalteceu a dedicação dos profissionais de saúde desta unidade no combate à pandemia.

Sobre as USF a ministra da Saúde, defendeu alterações no funcionamento na área da saúde geral e familiar, com recurso às novas tecnologias. Sem responder aos autarcas e às populações sobre os polos fechados em que os utentes continuam distribuídos pelas várias USF do concelho, a governante deu como exemplo a alteração do método de trabalho que ocorreu numa USF de Ovar, que retomou a atividade passando a privilegiar o contacto telefónico ou eletrónico dos utentes, evitando-se deslocações desnecessárias ao local. Uma resposta que nada diz a uma significativa franja da população para quem devem estar vocacionados os serviços de saúde de proximidade e não de distanciamento, quando o país vai ensaiando o desconfinamento com resultados animadores, em que Ovar, depois de momentos de grande dramatismo e medidas excecionais, o ponto de situação no dia 23 de maio, dava indicadores de alguma serenidade: Casos confirmados, 714; Casos ativos, 41; Casos fechados, 673; Recuperados, 633 e 40 Óbitos a lamentar, vítimas Covid-19.

A presença dos governantes em Ovar cujas medidas de distanciamento não facilitam manifestações de apoio ou até de desagrado, foi no entanto momento para o médico do Hospital de Ovar, Valdemar Gomes, entregar em mão ao Presidente da República, Primeiro-Ministro, Ministra da Saúde e Presidente do Município de Ovar, cartas a denunciar o processo de que se considera vitima de “bollying laboral que dura há mais de 20 anos”.

 

(*) com pesquisa Google

 

01jun20

 

 

 

 

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