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Recortes da Minha Infância

Fernanda Ferreira

 

 

Nasci no Porto, onde vivi até aos meus 27 anos.

Na zona onde vivia, era habitual as crianças brincarem na rua, a jogar a bola, às escondidas, ao pilha (à apanhada) às corridas de sameiras (caricas), ao berlinde, às corridas de carrinhos de rolamentos, a andar de triciclo ou bicicleta, a ver quem ganhava cromos da caderneta de bichinhos ou de jogadores etc.

Eu, o meu irmão e alguns dos nossos amigos não tínhamos autorização de ir para a rua. Brincáramos com os nossos irmãos ou em nossas casas ou nos corredores ou ruas dos bairros, largos ou jardins das traseiras das casas, porque, não só eramos mais bem vigiados pelas nossas mães, mas também não dizíamos palavrões nem eramos mal-educados ou desrespeitadores com os vizinhos.

Sempre fomos umas crianças felizes.

Brincávamos às casinhas, às rodinhas, jogávamos as cartas, ao pião, às cordas, à macaca, à bola, ao mata, ao lencinho, ao anelzinho, à cama do gato, andávamos de triciclo e trotinete, cantávamos, e fazíamos todas as outras brincadeiras das crianças que brincavam na rua, exceto as corridas de carrinhos e de bicicleta, porque não tínhamos.

Brincar ao ar livre, com quedas, joelhos esmurrados, nariz a sangrar, bibes saudavelmente sujos da brincadeira, fazia parte do que era considerado normal na brincadeira e ensinava-nos a que, como nada é isento de risco, devíamos ter cuidado para não exagerarmos porque correríamos o risco de nos magoarmos.

Éramos todos “desenrascados”. Não éramos “meninos da mamã” que chorávamos ou amuávamos quando as coisas não corriam como queríamos. Também aprendíamos a saber que um não dito pela mãe ou pai significava exatamente “não, e ponto final!”

Apesar de não lidarmos muito com as outras pessoas da rua, eramos educados e simpáticos com toda a gente que cumprimentávamos e, se necessário, ajudávamos estivessem com alguma dificuldade que com os sacos das compras.

Era tudo muito citadino, mas com grande liberdade, até mesmo de irmos sozinhos para a escola quando já tínhamos 8 ou 9 anos. Apesar de termos uma infância boa, a maior alegria era quando íamos visitar os nossos primos mais velhos, que viviam em Ermesinde, numa calçada a caminho da Stª Rita.

Aí era tudo novo:

À frente da casa era monte com pinheiros, eucaliptos e carreiros por onde as crianças passavam para ir para a escola

Os nossos primos trepavam as árvores sem dificuldade, como se fossem gatos, e nós ficávamos a admirá-los nos seus malabarismos. Nunca conseguimos copiar-lhes a habilidade, por muito que tentássemos, mas os nossos braços e pernas não estavam treinados e não tinham a força necessária para podermos fazer o mesmo.

Na traseira da casa havia um pequeno quintal com um portão que abria para um caminhito comum a todas as casas para dar acesso ao tanque onde iam lavar a roupa.

Para encher o tanque havia uma bomba de roda, movimentada manualmente com recurso a uma manivela horizontal.

Se ainda não perceberam, era aí que residia o principal motivo da nossa alegre traquinice.

Não podem calcular quão preciosa era a brincadeira! Dependurados na manivela, era melhor que andar de baloiço, porque andávamos em todas as posições possíveis, de cabeça para baixo, encavalitados, de costas, enfim, uma aventura “top secret” que os pais desconheciam, o fazia com que ainda tivesse mais importância para nós.

Não sei como nunca houve nenhum acidente!

Era um sem número de gargalhadas provocadas pela mímica facial do meu primo mais novo.

O que vale é que nunca se aperceberam que não estávamos a portar muito bem

Se os meus pais ou tios vissem, ficávamos todos de castigo…

Depois chegava a hora de almoço.

A mesa ficava cheia de pessoas, com umas crianças cheias de apetite pela energia gasta pelas brincadeiras ao ar livre.

O cheirinho delicioso da comida misturava-se com a alegria de estarmos juntos.

De tarde faziam-se jogos de cartas, e depois íamos caminhar até ao riacho ou espreitar o comboio a passar. Era sempre uma festa, que deixava vontade de repetir com brevidade.

Agora, se fosse a Ermesinde, nada estaria na mesma, nem se iriam encontrar os lugares do passado, mas ainda hoje recordo com saudade esses domingos passados em casa dos meus tios e, em especial, da bomba do tanque que nos permitia uma brincadeira diferente e perigosa, mas onde nunca nos magoamos.

Bons tempos, em que as crianças podiam ser mesmo crianças livres para correr, saltar e dar gargalhadas de verdadeira alegria…

 

Fotos: pesquisa Google

 

01jun20

 

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