Agosto de 2000. Partida às 11H30. Chegada a Budapeste às 18H00. Ao pararmos eu e Olímpia, no aeroporto de Frankfurt, o maior da Europa, vimos que, tal como nos diziam, estava tudo bem organizado e sinalizado. Dirigimo-nos para a porta de embarque – longa distância por rápidos tapetes rolantes – sem a menor dificuldade.
Hungria. Pequeno país de 10 milhões de habitantes, rodeado pela Áustria, República Checa, Eslováquia, Ucrânia, Roménia, Jugoslávia, Croácia e Eslovénia. Budapeste, “a pequena Paris da Europa Central”, é uma sumptuosa cidade dividida em duas pelo rio Danúbio. Ficámos em Buda. Aqui ainda se respira a libertação do comunismo, ocorrida há 11 anos.
O problema da comunicação (a língua estrangeira dominante é o alemão) é compensado pela simpatia, gestualidade e alguma troca de palavras em inglês. A capital é a cidade dos 50 palácios e de um extraordinário Parlamento neogótico, construído entre 1844 e 1902. Este é o maior edifício do país, 268 metros de comprimento, 100 metros de altura e 700 salas. Um deslumbramento de mármores, madeiras exóticas e ouro.
O nosso guia, engenheiro reformado Arpád Szóba, distinto cavalheiro na casa dos 60 anos, explicava-nos tudo em francês (só a nós os dois), falando fluentemente para o resto do grupo em mais três línguas (alemão, inglês e italiano). Para não o cansar, fui dizer-lhe que deixasse de falar para nós em francês, porque entendíamos bem o inglês e o italiano. Agradeceu. Acabada a visita, descemos a escadaria.
Estamos em plena Praça do Parlamento, onde se encontra um impressionante monumento de granito com uma chama acesa dia e noite – memória às vítimas da revolta de 1956, esmagada pelos tanques soviéticos naquela enorme praça, autêntico massacre ordenado por um criminoso Estaline. Esta memória está viva em diferentes partes do país, quase sempre com flores frescas.
São duas horas da tarde.
Queremos almoçar. Dizem-nos que os restaurantes ali existentes anteriormente foram substituídos por bancos. Procuramos mais. Não queremos andar muito. Encontrámos perto uma espécie de cantina. Entramos. Só velhos abeirando os 70 anos. A dona, também idosa, faz-nos um gesto e aponta-nos uma mesa corrida. Era um self-service geométrico, agreste e limpo. Curioso. Empregadas e clientes faziam lembrar velhos comunistas saudosistas. Para nosso divertimento, tínhamos ido cair num decrépito e inofensivo antro marxista-leninista. Bom, a verdade é que não nos apetecia estar no “Gastro Studio” muito mais tempo. Levantámo-nos sem arrumar as bandejas. O homem mais perto de nós resmunga duramente qualquer coisa como: “Kasjónom nagyon jól!”. Pegámos rapidamente nas ditas e arrumámo-las no local adequado. Abençoadas velhinhas que nos saciaram a fome por um preço módico…

À noite, concerto de gala no Duna Palota, com a Orquestra Sinfónica do Danúbio, sob a direcção de András Deák. Entre Haydn e Schubert, não podiam faltar Liszt, Dvorak e Bartok. Mesmo com gente descontraída, grande parte turistas como nós, respirava-se um ambiente selecto, de quem se sente transportado para um outro lugar onde a harmonia imperava. Lívia Galambos e Gabriella Sallay encantam-nos com as suas vozes de soprano.
Chegamos ao intervalo de trinta minutos. Dirigimo-nos para as duas salas resplandecentes de cor-de-rosa e dourados, separadas por um pequeno pórtico. Em cada uma das salas há uma mesa grande com taças de champanhe. É só chegar à mesa e pegar numa taça. Vamos caminhando e dirigimo-nos para a sala seguinte. Ao chegar ao pórtico, paramos para deixar passar a cantora Lívia, de cabelos pretos, olhos verdes e vestido cor de salmão, saia travada com uma racha ao lado. Paramos para a deixar passar. Ao passar, ela faz uma inclinação com um sorriso e nós também. Um momento mágico.
O pequeno teatro de final do século XIX resplandecia nos seus dourados recentemente restaurados. Aqui, os restauros estão na ordem do dia. O Governo disponibilizou 20 biliões de forints (1 forint vale quase 1 escudo) para restaurar edifícios, ruas, monumentos, estátuas – o património construído. Tal facto tem ocasionado protestos de alguns sectores da opinião pública. Por exemplo, “The Budapest Sun”, de 30 de Agosto, o único jornal magiar de língua inglesa, faz eco do dinheiro gasto nestes restauros, contrapondo a situação dos pequenos e médios agricultores.
O problema húngaro é precisamente ser um país predominantemente agrícola. A colectivização dos grandes latifúndios deu sequência à constituição de empresas para os gerir.
Mas os pequenos e médios agricultores não conseguem fazer face à concorrência. Para os governantes, a conservação do património é ponto de honra. De tal modo que não destruíram as estátuas comunistas. Estão todas guardadas num museu-jardim, espécie de cemitério, para quem quiser revisitar Marx, Lenine e Estaline, devidamente resguardados. Entrada livre. Compare-se com a selvajaria dos talibans, ao destruírem os Budas gigantes.
Falava do concerto. Findo o mesmo, fomos convidados a entrar num autocarro que nos transportou para bordo de um barco, no Danúbio, onde nos obsequiaram com uma ceia à luz de velas.
A orquestra a bordo deliciava-nos com música de violinos.
Budapeste nocturna e antiga passava lentamente perante os nossos olhos. De vez em quando uma ponte. Mesas de quatro. Sentámo-nos. Um casal oriental hesitante. Faço-lhes sinal para se sentarem à nossa frente. Agradecem e aproveitam rapidamente o convite. Ele, professor de Química da Universidade de Tóquio, ela natural da ilha de Java. Têm viajado pelo Danúbio num barco-hotel, atravessando sete países. Dizem que é a melhor forma de conhecer a Europa Central. Falamos de Java e de vestígios portugueses. Trocamos direcções. Vou mandar-lhes documentação sobre os Açores e o Porto.
Os húngaros aliaram-se aos alemães nas duas guerras e sempre perderam. Durante a Segunda Guerra Mundial o governo fascista húngaro desencadeou uma autêntica caça aos judeus, tendo aprisionado e torturado a quase totalidade dos judeus húngaros. Muitos fugiram e alguns destes fugitivos dirigiram-se para Portugal, tendo sido salvos pelo cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, que, como é sabido, lhes arranjou salvo-condutos, para atravessar a fronteira de Vilar Formoso.[1]
A este propósito, convém lembrar a acção do cônsul português em Budapeste Carlos Sampaio Garrido e do seu sucessor Teixeira Branquinho, cuja acção durante este conflito mundial permitiu que fossem salvos milhares de judeus húngaros.[2]

Em 1918, na sequência da saída dos Habsburgos, ficou como Regente do reino o almirante Horthy, que pensava reaver alguns territórios perdidos, não o conseguindo. Em 1945, após um cerco de seis semanas, o exército russo toma Budapeste. Um ano depois é proclamada a República da Hungria. Em 1947, após uma farsa eleitoral, os soviéticos passam a controlar todo o país. Inicia-se o terror estalinista.
O cardeal Mindzenty é preso, morrendo na prisão. Paulatinamente, os comunistas vão destruindo todos os símbolos nacionais. Mas os patriotas húngaros, com uma verdadeira veneração pela coroa de Santo Estevão, fundador da Hungria, escondem-na no oeste do país e enviam-na em segurança para os Estados Unidos.
A coroa, de ouro e pedras preciosas, uma peça de arte com mil anos, regressa à Hungria em 1980, após serem dadas garantias. É guardada no Museu Nacional Húngaro, onde esteve durante 11 anos. Com a aproximação do ano 2000, os magiares resolvem fazer uma grande comemoração: o milenário do fundador. Então a coroa, objecto de devoção religiosa e pátria, é transportada, no primeiro de Janeiro de 2000, para o seu lugar definitivo, onde agora permanece e onde a vimos: no Parlamento.
Para além do seu significado místico e patriótico, é o símbolo da independência e da soberania de um povo. Não é um objecto de museu. Por isso, um cortejo grandioso foi organizado nessa data, fazendo lembrar os grandes desfiles renascentistas. A coroa é levada para uma das salas de entrada do Parlamento, ladeada por uma guarda de honra. Assim permanecerá para sempre, sob uma grossa campânula de vidro.
Na magnífica sala dos deputados, por detrás da mesa da Presidência, faíscam os escudos das diferentes dinastias magiares, que tinham sido tapados pelos soviéticos com um grande painel vermelho com a foice e o martelo.

A Hungria é também o país das águas termais e Budapeste uma das maiores cidades aquíferas da Europa. Das muitas nascentes de água quente, jorra um caudal diário de 80 milhões de litros. Foi durante a ocupação otomana (sécs. XVI e XVII) que a moda dos banhos se enraizou na capital. Os banhos Rudas, Rác, Király e Császár foram construídos no século XVI.
Fomos experimentar o Complexo de Banhos do Hotel Gelbért, o mais antigo e famoso dos hotéis de luxo de Budapeste. Dispõe de piscinas termais e de natação, salas de vapor, sauna e massagens. Também possui uma piscina para nudistas. Os banhos Gelbért foram abertos ao público em 1927 e possuem uma fabulosa piscina interior com colunas de mármore. Passámos lá uma tarde. Ao chegar ao hotel, pegou-se-me uma incomodativa dor no ombro direito que não me deixou dormir.
No dia seguinte chamo um médico recomendado pela gerência. Chega ao meu quarto acompanhado por uma recepcionista. Vem de bata branca, estetoscópio ao pescoço e cartão identificador ao peito. Enquanto me interroga em inglês, observa insistentemente a elegante húngara que não arreda pé. Cinco minutos. 28.000 forints (cerca de 25 contos). Uma pomada e uns comprimidos. Fiquei na mesma. A dor só me passará em Héviz, passados dois dias. O médico aproveitou-se do facto de eu ser estrangeiro e ainda por cima vinha ao “engate”.

26 de Agosto. Partida para Héviz. Com metropolitano à porta e malas com rodinhas, dirigimo-nos, neste meio de transporte, para a estação de caminhos de ferro de Béli Pu. Tudo fácil. Para qualquer dúvida, os húngaros não se fazem rogados a explicar como podem, quase sempre por gestos. Um ou outro, sobretudo jovens, falam inglês.
O metro passa por debaixo do rio, de norte para sul (de Buda para Peste). A profundidade dos túneis é tanta, que as escadas rolam com grande velocidade, de tal modo que as pessoas tendem a inclinar-se para trás quando descem e para a frente quando sobem. Por todo lado há estátuas e memoriais e pequenos jardins com bancos velhos de madeira. Bancos confortáveis, já quase sem tinta, mas sem qualquer vestígio de vandalismo.
Viagem de comboio em direcção ao Lago Balaton, o maior lago termal da Europa, também chamado “Mar Húngaro”. Mais uma vez se comprova que o país tem bons transportes. Compartimentos novos, 6 lugares. Durante duas horas e meia, o combóio desliza nas linhas quase sem se sentir. Das janelas observamos a extensa planície agrícola que é quase toda a Hungria. Vamos para sudoeste. O Balaton tem um comprimento de 77 km e cobre uma área de 600 km2. Ao longo das margens, muitos recantos encantadores que tornam estas terras o destino perfeito para as férias de muitas famílias húngaras. Balaton é a segunda maior atracção turística depois de Budapeste.
Fomos parar a Keszthely, na extremidade ocidental. E aqui ficámos durante uma semana, numa localidade chamada Héviz, a maior estação termal do país. Pequena aldeia turística frequentada, sobretudo, por gente acima dos 50 anos, conquanto se vejam também muitos jovens casais. Depois dos húngaros, seguem-se os turistas alemães. A menina do turismo disse-nos: “são os primeiros portugueses que vejo na minha vida”.

Toda a gente anda de bóia na mão, velhos e novos. A primeira vez que me banhei no lago termal, resolvi, como açoriano que se preza, atirar-me para a água sem bóia e dar umas quantas braçadas de crowl. No regresso a terra é que compreendi a necessidade da bóia, pois cheguei à escada quase sem fôlego. Na verdade a água é pesada e difícil para natação. Assim, a partir dali, resolvemos alugar bóias (câmaras de ar usadas) e passámos a fazer como os outros: está-se na água quentinha, fazendo movimentos lentos ou completamente parados, conversando ou quase dormindo, ao mesmo tempo que se usufrui dos seus efeitos terapêuticos. É surpreendente o que se observa: centenas de pessoas na água, largos espaços com nenúfares e flores vermelhas e amarelas. Mais ainda: de vez em quando passa por entre as pessoas um pequeno animal que às tantas chapinha com as patas e levanta voo – são patos de água quente.
Ela (a ilha) está sempre aqui. Para além da companhia de Fernando Aires (“Era uma vez o tempo”), minha leitura de férias, o acaso trouxe-me algo da ilha, no local e na pessoa mais inesperados. Fomos ver uma exposição de pintura na Galeria do Jardim. Logo o proprietário, Jennó Nagy: “de onde são?”. Falou-se do Porto e dos Açores. Azorren? Azores? Açores! Providence! Tinha uma filha a viver em Providence, nos Estados Unidos! E não é que o “boyfriend” de Klára era um açoriano da ilha Terceira? Jennó estivera no ano anterior a passar férias com a filha e ouvira falar, pela primeira vez, dessas ilhas do Atlântico. Muito satisfeito por nos encontrar, ofereceu-nos, logo ali, um pequeno quadro a óleo.
No decorrer da conversa, falo-lhe da dor no ombro que não me largava. Que no dia seguinte aparecesse na Galéria, logo de manhã. Levar-me-ia ao seu amigo Áttila, director do Hospital Termal. Assim foi feito. O Dr. Áttila viu-me e receitou-me uma injecção que ele próprio me aplicou. Que voltasse no dia seguinte e que eram 18.000 forints. Jennó não gostou. Não queria causar má impressão a um natural dos Açores. Telefonou de tarde ao médico. O doutor baixa para 15.000 e que não passava recibo. Jennó continuou a achar caro.
No dia seguinte apareço no consultório e peço-lhe um relatório para a companhia de seguros, em alemão.
Áttila diz que sim, mas que só escreve na língua magiar. Vou então pagar. O médico baixa para 10.000, mas diz que o amigo tem de lhe oferecer uma pintura. Se o médico só falava magiar como foi possível entender-me com ele? É a parte que conto de seguida. A verdade é que fui acompanhado à consulta por Erzebéten, irmã de Jennó, que vive em Budapeste e estava ali a passar férias. Erzebéten era guia intérprete de turistas italianos, na capital. Com 40 e poucos anos, era uma senhora loira, de cara bastante vermelha, muito viva e alegre.
Eu queixava-me em inglês, ela traduzia para húngaro, ouvia o médico e falava-me em italiano. Entendamo-nos: ela percebia, mas não falava inglês. Eu entendo o italiano, embora não o fale. Uma consulta um bocado confusa, mas que resultou. Fiquei bom.
Na 5ª feira, Jennó e a irmã convidaram-nos para um passeio nos arredores. Fomos até uma quinta situada na encosta duma colina, junto a um pequeno vale. Uma rua estreita subia suavemente até uma casa rodeada de videiras baixas. Numa mesa comprida de madeira, ao cair da tarde, sentámo-nos a beber um excelente vinho branco, acompanhado por tomate, cebola e pimentos. Era um final de dia sereno, sem vento, temperatura amena, tudo verde ao redor. Ouviam-se as conversas de pequenos grupos familiares. Jennó pega no telemóvel. Fala com a filha, em East Providence. Às tantas estende-me o aparelho: “Fala com Klára!”. E aí fico uns minutos a falar do centro da Europa para a Nova Inglaterra com uma desconhecida Klára. De que falámos? Com algum embaraço de minha parte, trocámos banalidades sobre o tempo e as ilhas.

Bertina, a menina do Café Dáma, era gentil e educada. Falando-nos num inglês impecável, recebia-nos com um sorriso. No dia em que perdi a pasta com os passaportes (estava no Antiquário), atravessou a rua, perguntando-me se já aparecera. Uma vizinha comerciante que estava à porta a ouvir tudo, olhou para mim, benzeu-se e disse qualquer coisa como “obrigada, meu Deus”. Bertina, na véspera da nossa partida, quis tirar-nos uma foto (a nós, a ela e às colegas) e à saída entregou-me um exemplar do jornal “Blikk”, de 31 de Agosto, que ocupava meia página do interior com um artigo intitulado: “Luis Figo, a világ legdrágább”, com a respectiva fotografia do nosso compatriota. Tenho comigo o jornal, à espera que alguém me traduza o título.
2 de Setembro. Viemos de autobúsz para Mosonmagiaróvár, na fronteira noroeste. Uma terrinha sem qualquer importância a não ser na grandeza (15 letras) do nome e por ficar a meia hora de combóio de Bratislava, simpática capital da Eslováquia, que também visitámos. Planícies a perder de vista, atravessadas por boas estradas com pouco movimento. Terra de camponeses e agricultores, nas tintas para o turismo.

Durante a viagem e ignorando qual a paragem em que deveríamos descer, comecei a ficar preocupado com esse facto. Às tantas vejo um rapaz viajante mais novo e que provavelmente poderia saber inglês. Dirijo-me a ele, levando comigo um bilhete onde estava escrito o nome da localidade de destino, Mosonmagiaróvár. O rapaz respondeu-me em inglês, “na terceira paragem, chegaram ao vosso destino”. Acontece que na segunda paragem o motorista estacionou e mandou sair toda a gente. Era um homem muito grande, talvez de um metro e noventa. Enquanto se afastava, vou a correr atrás dele e puxo-lhe por um braço. Mostro-lhe o bilhete e digo-lhe com ar aflito que não tínhamos ainda chegado ao nosso destino. O homem, com um ar aborrecido, volta para trás, vai à parte lateral do autocarro e escreve com um dedo na poeira do autocarro o nome da localidade, seguidamente com uma cara muito vermelha e com um ar furioso aponta para o chão e dá uns saltos, querendo assinalar com o seu gesto que tínhamos chegado ao destino.
Na recepção do Easy Life Club a comunicação é gestual. Káty, a recepcionista, quer ser agradável. Com um cabelo ruivo espetado e olhos brilhantes e muito expressiva, para explicar qualquer coisa dá saltinhos, toca nos dentes, imita ruídos, parece um jogo. Aqui, a vida do turista está dificultada porque ninguém nos liga, mesmo para dar informações. E é tudo muito longe.
Ficámos alojados durante uma semana neste clube, num apartamento com boas condições de conforto e higiene e adequado para descanso e lazer. Para chegarmos à povoação tínhamos de ir numa camionete, cerca de quinze minutos de viagem. Num dos apartamentos próximos do nosso passava também férias um casal húngaro, com o qual nos cruzávamos no corredor e também na camionete, trocando sorrisos e gestos de afabilidade, mas sem estabelecer qualquer diálogo, uma vez que só falavam húngaro.
Próximo de nós tínhamos como vizinhos um casal húngaro que em certa ocasião nos convidou para irmos ao seu apartamento. Só falavam magiar. Ofereceram-nos vinho e bolinhos. Gostávamos de lhes transmitir o quão tínhamos apreciado o hino nacional húngaro, que ouvíramos na televisão. Apontei para a bandeira nacional impressa no mapa do ACP que levava, e comecei a cantar a “Portuguesa”. Não perceberam. Já não sei o que dissemos ou que gesto fizemos, mas acabaram por compreender o que queríamos transmitir. Nessa altura levantaram-se os dois e puseram-se a cantar o seu hino de forma emocionada e com lágrimas nos olhos. Cantavam muito bem, até porque ambos pertenciam ao grupo coral da sua cidade. Assim ficou demostrado que não são necessárias palavras para os povos se entenderem, desde que haja espirito de abertura e empatia humana e universalista. Em Dezembro trocamos cartões de Natal, cada um na sua língua.

Olímpia procurava desesperadamente cabeleireiro para lavar e arranjar o cabelo. Encontrámos um numa rua da vila e Olímpia entrou e sentou-se e com mímica e gestos mostrou o que queria fazer. As meninas abanaram a cabeça, informando que não era possível, provavelmente porque seria necessário hora marcada.
O problema resolveu-se no dia seguinte, por ocasião da nossa viagem de comboio a Bratislava, capital da Eslováquia, onde encontramos um salão de cabeleireiro no qual foi atendida amavelmente. Durante este serviço aguardei do lado de fora. Não entrei porque junto à porta aberta do salão actuava na rua uma jovem violinista irrepreensivelmente vestida de preto, como se estivesse num palco. Manejava o instrumento de uma forma soberba. Com a caixa do violino aberta aos seus pés aguardava que lhe dessem algum dinheiro. Foi outro momento delicioso. Fazia lembrar Vanessa Mae a tocar Paganini.
Demos um breve passeio pela baixa de Bratislava, cidade que nos agradou muito e a qual viemos a conhecer melhor em 2005, quando fizemos um cruzeiro no Danúbio onde também revisitamos Budapeste e Viena.
Noutro dia fomos ao restaurante. A ementa em magiar. Percebemos uma palavra – beefsteak – e indico com o dedo. Aparece-nos um enorme prato de madeira com nove concavidades. A maior, ao centro, vinha cheia de carne picada crua e o resto eram temperos. Afinal era bife tártaro.
Regressámos de comboio a Budapeste. Aqui, ainda deu para passar um bocado de tarde, antes do regresso, no New York Kávehaz, o mais luxuoso café húngaro, inaugurado em 1894. É preciso dizer que a Hungria é um país onde o hábito de beber café é antigo. Vem do tempo do domínio turco. O Café New York, com os seus espelhos, lustres de cristal, colunas de mármore e madeiras douradas, criados solenes, pianista a dar ambiente (com um pratinho para as notas em cima do piano) e turistas descontraídos, tem estilo neo-barroco. Está-se bem.
Enfim, foi uma aventura de 17 dias de um casal português em terras da Europa Central, que resultou nestas impressões de viagem.
Porto, Julho de 2001
Gostaria de dedicar esta crónica ao cidadão húngaro residente em Portugal Frigyes Torok, que durante mais de vinte anos esteve à frente do Clube de Judo do Porto, sendo um educador exemplar e mestre de judo de grande craveira desportiva.
José Manuel Tavares Rebelo
Fotos: pesquisa Google
NOTA: Publicado no Jornal “Atlântico Expresso”, em Julho de 2001. Texto revisto em Junho de 2020.
[1] In Margarida Magalhães Ramalho, “Vilar Formoso – Fronteira da Paz”, Edições da Câmara Municipal de Almeida (2014).
[2] O diplomata português Carlos Sampaio Garrido contrariou o governo de Lisboa durante a II Guerra Mundial, na Embaixada de Portugal em Budapeste, tendo salvo judeus húngaros do extermínio nazi. Por exemplo, a famosa actriz Zsa Zsa Gabor, já falecida, foi uma das pessoas salvas da morte pelo embaixador Carlos Sampaio Garrido, juntamente com a sua família. A família Gabor emigrou para os EUA com ajuda de Sampaio Garrido.
Sampaio Garrido, tentando salvar judeus húngaros (mil, segundo algumas fontes), mas também muitos opositores perseguidos pelo regime fascista húngaro, aliado dos alemães, não hesitou em pôr a sua vida em perigo, ao criar “casas seguras” nos arredores de Budapeste e emitir passaportes portugueses que lhes possibilitaram partir em segurança para a Suíça.
Na Hungria, os nomes de Sampaio Garrido e do seu sucessor Teixeira Branquinho encontram-se numa placa colocada na fachada de um dos edifícios que pertencia à rede de “casas protegidas” da Legação Portuguesa. O edifício em questão é o nº 5 da rua Ujpesti Rakpart, situado no XII Bairro de Budapeste.
Podem-se ver também os nomes destes dois diplomatas portugueses inscritos numa lápide da Sinagoga 1 de Budapeste.
01jul20
