Maximina Girão Ribeiro
A quinta de Sacais é uma das muitas propriedades que faziam parte dos arrabaldes do burgo, no lado oriental da cidade.
Fundada no século XIV, no antiquíssimo sítio do Campo da Oliveira, era conhecida por Sacais de Mijavelhas e, mais tarde, passou a ser conhecida por quinta do Cativo, nome que estará relacionado com a batalha de Alcácer Quibir (1578) que D. Sebastião empreendeu, no Norte de África, contra os Muçulmanos. A designação de “Captivo” ficou a dever-se ao facto de o Bispo do Porto, D. Ayres da Silva ter levado consigo o proprietário da quinta para juntos acompanharem o jovem rei. Aconteceu que, tal como D. Sebastião que ficou “desaparecido” no combate, também o dono daquela quinta nunca mais voltou. Pensou-se, então, que tinha ficado cativo dos mouros e, assim, a quinta ficou conhecida por muito tempo. Mas, em finais do séc. XVIII, o Padre Agostinho Rebelo da Costa na sua obra “A Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto”, descreve já a referida propriedade com o nome de Quinta de Sacais, deste modo:
“[…] sita no campo da Oliveira, e de que é senhor Nicolau Francisco Guimarães, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo; tem a sua Casa de Campo magnífica e proporcionada ao grande pátio interior, sobre que forma três fachadas, com janelas de cristalinas vidraças e portas correspondentes umas às outras; uma asseada capela, dedicada a Santa Bárbara, medeia entre as duas fronteiras que faceiam, uma com a Quinta do Prado, outra com a rua pública ou entrada principal da cidade, em que pega a quinta de António José Guimarães, Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, irmão do sobredito, e que em tudo lhe é igual, ou seja na situação e grandeza, ou na bondade e mimo dos seus frutos.”
No entanto, a referida quinta, mais a sul de Sacais, pertencente a António José Guimarães era considerada mais modesta e a casa menos rica, embora António José Guimarães seja descrito como “Cidadão do Porto e nele uma das pessoas mais ricas, tanto em dinheiro como em bens de raiz, tratando-se à lei da nobreza, com criados, liteira e cavalos. Era homem de negócios da praça Portuense, com carta de brasão de armas passada e registada a 12/8/1782, senhor de uma quinta ao Campo das Oliveiras, Porto […] e um dos mais ricos comerciantes […].”
A sua moradia, de traça senhorial, tem uma capela anexa, setecentista, adossada à fachada e dedicada a Santa Quitéria. Uma inscrição gravada no lintel do portal principal da capela existe uma inscrição que indica que “ESTA CAPELA MANDOU FAZER O CAPITÃO MATHIAS ALVES RIBEIRO ANNO 1724”. A casa sofreu numerosas alterações ao longo do tempo e alberga, na actualidade, o Museu Militar.

Esta propriedade era a Quinta do Prado e veio a pertencer ao Bispo do Porto que aí instalou a sua quinta de recreio, a denominada “Quinta do Prado do Bispo”, destinada à comunidade eclesiástica para ali passarem as suas “brévias”, ou “tempo de descanso”. Foram estes terrenos que, no séc. XIX, a Câmara escolheu para a instalação do Cemitério do Prado do Repouso, o primeiro cemitério público do Porto, benzido pelo Bispo D. Frei Manuel de Santa Inês, a 1 de Dezembro de 1839
Voltando de novo à quinta de Sacais, parte dos seus terrenos, assim como os da vizinha quinta do Cirne, acabariam na posse do capitalista Ferreira Cardoso que os usou, em grande parte, no plano de urbanização da zona, aprovado em 1883.
As grandes alterações urbanísticas, empreendidas no séc. XIX, deram origem a novas ruas que modificaram significativamente a imensa propriedade que foi a quinta de Sacais. A casa ainda existe, embora muito adulterada relativamente à traça original, sobretudo porque a primitiva fachada estava voltada para aquela que é, hoje, a rua Ferreira Cardoso.

A fachada principal que actualmente se observa, alinhada com a rua de António Granjo, também sofreu múltiplas transformações, nomeadamente com o aumento de um andar e o acrescento das elegantes chaminés. Numa imagem do início do século XX é ainda visível a existência de uma capela, sempre mencionada como tendo como padroeira Santa Bárbara. No entanto, em documento de 1928, no tempo do Bispo D. António Barbosa Leão cita-se “[…] nesta capela de Nossa Senhora das Dores do palacete de Sacais […].”


A casa de Sacais situa-se no gaveto da Avenida de Camilo com a Rua António Granjo. É uma ampla residência com o seu jardim, mantendo exteriormente os traços de um palacete, com pormenores curiosos, como são as suas imponentes e graciosas chaminés.
Junto a esta quinta, ainda em fins do século XIX, existia a chamada Viela de Sacais que fazia a ligação à Estrada (rua do Bonfim) e ao largo da Quinta do Prado. Desta viela nasceu a rua Ferreira Cardoso. O grande estudioso da toponímia da cidade, Eugénio Andrea da Cunha e Freitas, na sua obra sempre consultada e muito apreciada, “Toponímia Portuense”, refere que em registos paroquiais de 1781, encontrou uma referência a uma Viela de Sacais da Rua do Reimão, assim como a uma Rua da Boavista de Sacais, junto ao Padrão do Reimão, designações muito antigas que não se sabe bem se corresponderiam apenas a uma artéria ou a duas. Contudo, Cunha e Freitas aventava a hipótese que aquela Viela de Sacais corresponderia à actual Travessa do Bom Retiro que termina junto da estação do Metro do Heroísmo.
Incompreensivelmente, este topónimo “Sacais”, desapareceu da toponímia portuense. Quando a quinta começou a ser retalhada em quarteirões e, com a abertura da Avenida Camilo em terrenos desta quinta, pensou-se dar-lhe o nome de Avenida de Sacais mas, diversas pressões fizeram com que o nome do grande escritor, Camilo Castelo Branco, prevalecesse para denominar a avenida.
Foi igualmente em terrenos que pertenceram a esta quinta que se construiu o Liceu Alexandre Herculano, cujo projecto é do grande arquitecto Marques da Silva.

Ao longo do tempo, a casa solarenga de Sacais foi pertencendo a diferentes proprietários e chegou a funcionar como Paço Episcopal quando, com a proclamação da República, em 1910 e a luta anticlerical com a implementação da Lei de Separação do Estado e da Igreja, de 1911, fizeram com que o bispo do Porto, D. António Barroso fosse perseguido e obrigado a abandonar o seu Paço, no Terreiro da Sé e forçado ao exílio na sua terra natal, em Remelhe (Barcelos). Regressado, após o seu afastamento, o Bispo fixou residência na quinta de Sacais, onde viveu até ao fim da sua vida, falecendo em 31 de Agosto de 1918.

A quinta de Sacais é hoje uma propriedade privada, habitada e só observada exteriormente.
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
Fotos: pesquisa Google
01jul20



O Museu Militar do Porto e o Cemitério do Prado do Repouso situam-se na antiga Quinta do Prado, pertencente a António José de Guimarães, que resultou da divisão, com seu irmão Nicolau Francisco Guimarães, senhor da vizinha actual Quinta de Sacais, da antiga Quinta de Sacais, também chamada do Captivo, pertencente a seu pai Domingos Francisco Guimarães, que esteve captivo em África quando acompanhava o seu amigo D. Ayres da Silva, Bispo do Porto, na expedição do Rei D. Sebastião, resultante no desastre de Álcacer Quibir.
Boa tarde
Estou neste momento a prestar funções no Museu Militar do Porto e a investigar a história do edifício, pelo que teria todo o interesse em perceber que tipo de informações possui e se a pode ceder.
Com os melhores cumprimentos