Ironicamente ainda estavam bem presentes os momentos de felicidade proporcionados durante o mês de fevereiro, em que foi comemorado o Dia de São Valentim (14 de fevereiro), favorável aos afetos, ao beijo, ao abraço ou ao toque no ombro, dinamizados junto dos idosos no Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia de Ovar, através de um programa de atividades orientadas por profissionais desta IPSS, que visaram estimular a criatividade, desenvolver a “motricidade fina”, bem como momentos de bem-estar e convívio. Quando, ainda com cenas do filme “Amor de Perdição” na memória, que tinham acabado de visualizar no mês dos afetos. Os idosos acabaram por acordar num estranho e angustiante cenário, em que a “fita” surrealista da Covid-19 lhes negava os afetos, os beijos e os abraços, remetendo-os “abruptamente” a um profundo isolamento.
No cumprimento das medidas excecionais decididas pelo Governo relativamente aos lares e IPSS, na sequência da situação epidemiológica do novo coronavírus Covid-19, a Santa Casa da Misericórdia de Ovar, que já tinha adotado a difícil mas responsável medida decidida pelo Governo, ao suspender as visitas aos utentes residentes nas suas “Estruturas Residenciais Para Idosos”. Suspendeu igualmente as várias respostas sociais que desenvolve. Medidas tomadas ao mesmo tempo que o Município de Ovar estava já no centro das preocupações e da atenção mediática, considerando a fase de “contágio comunitário” e os alertas para o número de casos confirmados, que na terceira semana de março tinham duplicado para 30. Um quadro de alarmismo que tornou inevitável a “quarentena geográfica” que vinha sendo reclamada pela Comissão Municipal de Proteção Civil da Câmara Municipal de Ovar em articulação com a Autoridade de Saúde Regional, dando origem ao “estado de calamidade” e a uma “cerca sanitária” decretada pelo Governo.
Com a comunidade local a viver diferentes fases e experiencias de confinamento social, tal como no país ou de uma forma geral em vários cantos do Mundo, com a rápida e silenciosa progressão da pandemia. Os idosos, nos lares das IPSS rapidamente se tornaram vítimas frágeis da Covid-19, com momentos verdadeiramente dramáticos, que, a exemplo da fase mais aguda vivida na Santa Casa da Misericórdia de Ovar, deram origem a episódios de indignação.
Surpreendidas as famílias dos utentes/idosos deste lar em Ovar, pelo impacto das notícias, em que, em plena “cerca sanitária”, a Covid também saltou muros na Santa Casa da Misericórdia em que os idosos já estavam sujeitos a medidas drásticas de isolamento, não impedindo que se registassem infetados entre trabalhadores e utentes, que viria a resultar no primeiro óbito da Covid-19 nesta instituição. Um momento em que o presidente do Município local e do Gabinete de Crise, Salvador Malheiro, na sua página do facebook, chegou a declarar, “claro que tenho que lamentar este tratamento desigual. A segurança social e o Ministério da Saúde estão a deixar-nos sozinhos!”, referindo-se à falta de respostas daquelas entidades a uma IPSS com mais de 100 idosos“, que, como afirmou ainda, “exigem respostas adequadas e seguras”.
O autarca anunciou na altura, um plano a que designou de “muito pragmático” para qualquer eventualidade, ao mesmo tempo que exigia mais apoio da Segurança Social e do Ministério da Saúde, quer de meios para apostar na realização de testes, quer de meios humanos na área da saúde. Ao mesmo tempo que no local, foi montado um espaço novo para a eventualidade de terem de ser separados os seniores que foram entretanto testados depois da primeira morte neste lar.
No entanto, um estranho silêncio se gerou ao mesmo tempo que o dramatismo ainda continuou na gestão Covid na Santa Casa da Misericórdia, enquanto o foco das atenções foi desviado para a montagem de um Hospital de Campanha no Arena Dolce Vita, como extensão do Hospital de Ovar, que concentrou financiamentos municipais em meios materiais e humanos. Sendo mesmo surrealisticamente inaugurado durante a “cerca sanitária” e mais tarde visitado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pelo Primeiro-Ministro, António Costa e a Ministra da Saúde, Marta Temido, após o levantamento da “cerca sanitária” e dos primeiros passos de desconfinamento no país.
Como veio a afirmar o provedor da Misericórdia de Ovar, Álvaro Silva, ao jornal Observador, quando já se registavam na Instituição 12 óbitos associados à Covid-19, dos 39 utentes então infetados, “disseram-me que o hospital de campanha não é para utentes da Misericórdia e, entretanto, lá continua ele quase vazio, enquanto nós estamos aqui cheios de problemas”. Reconhecendo ainda que a situação agravada se deveu ao facto de as enfermeiras da instituição estarem em “burnout total”, referindo-se ao contexto de esgotamento provocado pela intensidade do trabalho. Ao mesmo jornal, o provedor Álvaro Silva ainda assumiu, que, “os lares de idosos não são unidades de saúde”, reclamando por isso, que os infetados dessas instituições “deviam ser sempre hospitalizados”, na rede pública claro, em que o SNS nesta luta, se mostrou fundamental. Não deixando de lamentar “a repetida indisponibilidade do hospital de campanha local, instalado na Arena Dolce Vita, para acolher seniores da Santa Casa diagnosticados com Covid-19”.
Também a afirmação do provedor da Misericórdia de Ovar relativamente aos testes realizados, “é uma confusão total, uma descoordenação que não se percebe”. A Administração Regional de Saúde do Centro tornou público um esclarecimento em que dizia que os testes iniciados a 28 de março, corresponderam a todos os utentes e funcionários, e que, “foram sempre seguidos, rigorosamente, os critérios de teste da Direção Geral de Saúde”, cuja “comunicação de resultados foi feita, na maioria dos testes, nas 72h após a realização da colheita”.
Mas, um profundo grito de indignação surgiria do interior da Santa Casa da Misericórdia, quando, rompendo um certo pacto de silencio, o Bloco de Esquerda veio a dar voz ao pedido de ajuda dos funcionários do lar, em que alertavam para as difíceis condições em que estavam a trabalhar, dando como exemplo os momentos críticos de finais de março e primeiras semanas de abril, em que, haviam oito enfermeiros para mais de 100 idosos no lar. Profissionais da Santa Casa da Misericórdia que, sem “auxílio por parte de enfermeiros externos, pelo que nos foi dado a conhecer – passaram 15 dias de quarentena isolados juntamente com os idosos infetados do lar, estando agora a fazer turnos de 24 horas apresentando sinais de absoluta exaustão”.
Ao mesmo tempo, dos restantes funcionários era constatado que, “oito estão atualmente infetados, baixando o nível de funcionários disponíveis para assegurar os cuidados quotidianos necessários. Fazem turnos de 12 horas estando a ser auxiliados por colegas que estão adstritos ao apoio do ensino pré-escolar”, incluindo educadoras de infância que foram destacadas para a “linha da frente” neste cenário em tempos de angústia, que geraram entre os trabalhadores, sentimentos “de medo e abandono”, ou mesmo “assustados”, porque chegaram a ter “idosos infetados” num momento em que não tinham “qualquer cuidado médico”, aumentando o risco de contagio entre utentes e trabalhadores.
Sem resposta das entidades a quem o Bloco de Esquerda enviou o alerta dos trabalhadores, nem mesmo das de maior proximidade, como a presidência da Câmara Municipal de Ovar e Proteção Civil. A Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Ovar reagiu, assumindo contrapor “com factos”, esclarecimentos como a correção de alguns números divulgados, ou ainda, que “após o extraordinário esforço de dezassete dias provocado pelo confinamento voluntário, as enfermeiras retomaram um horário mais próximo do existente anteriormente. Dadas as circunstâncias sabemos que, mesmo assim, o esforço físico e emocional continua enorme. As enfermeiras, as ajudantes de lar, bem como muitos dos nossos outros trabalhadores são também os nossos grandes heróis da comunidade”.
Sobre os funcionários e idosos do lar, “não estão ao abandono. A comunicação entre a Direção e as trabalhadoras tem sido constante. Temos proporcionado aos idosos toda a atenção e conforto possível dadas as circunstâncias. A imposição de isolamento nos quartos, com exceções raras, é uma situação desequilibradora para eles mas, infelizmente, necessária”. O comunicado da Misericórdia de Ovar reafirmava ainda, que, “obviamente temos resistido a aceitar o retorno dos hospitalizados. Afinal o nosso grito dos últimos dias tem sido: «o lar não é um hospital!», mas acabamos por ter de os aceitar, já que legalmente não poderíamos recusar”.
Ultrapassados os difíceis momentos vividos no lar da Santa Casa da Misericórdia de Ovar que não foram isentos de polémicas e angústia, partilhadas por vários familiares de utentes sobre a gestão da crise Covid. A gestão das emoções na nova normalidade possível, começou a fazer apaziguar a relação, que chegou assumir episódios de denúncia pública, crispação, críticas e comentários pouco abonatórios nas redes sociais sobre esta difícil fase vivida na Instituição, que chegou a ser acusada de falta de comunicação com as famílias no período crítico dos primeiros infetados no lar que registou 12 óbitos Covid em ambiente hospitalar. Sendo de destacar a resiliência de doentes do lar com 95 ou 97 anos, que num espaço de um mês, se tinham recuperado 54 casos, neste Município que a 16 de junho registava 723 casos confirmados, 10 casos ativos, 673 casos recuperados, 713 casos fechados e 40 óbitos.
Foram episódios marcantes nesta comunidade, que a exemplo de várias outras IPSS no país que continuam a fazer parte de novos focos de infeção, exigirão respostas, análises e conclusões sobre como se geriu a crise Covid na defesa de um grupo de risco, como são os idosos residentes em lares, onde viveram verdadeiros pesadelos isolados das famílias, até se encontrarem soluções alternativas para visitas em segurança. Ainda que, sem os desejados beijos e abraços ou o natural toque. Medidas que foram tranquilizando as famílias e atenuando as saudades com recurso a meios como o tecnológico, procurando corresponder à “missão” destas instituições, “no desenvolvimento de respostas sociais inovadoras, e na prestação de serviço de qualidade, orientada para uma sociedade plural, consolidando as respostas sociais e atuando de uma forma pró-ativa face às necessidades emergentes da comunidade”.
“Missão” que durante esta dura batalha, tantas vezes foi questionada e não deixará de ser merecedora de debate e aprofundamento de responsabilidades da sociedade civil e do Estado, para que a dignidade dos idosos nesta fase da vida seja garantida como um direito.
Texto: José Lopes
Fotos: pesquisa Google
01jul20








