Esta rubrica dá a conhecer a toponímia portuense, através de interessantes artigos publicados em “O Primeiro de Janeiro”, na década de setenta do século passado. Assina…
Cunha e Freitas (*)
“Como é geralmente sabido, el-rei D. João I, em 1386, designou uma parte do Campo do Olival, o monte sobranceiro a Belomonte, para ali se juntarem em comuna os judeus que viviam na cidade.
Edificaram eles a sua sinagoga e casas de morada, algumas magníficas na arquitectura e na decoração, ao longo de uma extensa artéria em “L”, que se denominou Rua da Judiaria Nova do Olival, como constava da verba de um prazo que nesta rua fez o Mosteiro de S. Domingos ao judeu Isaac Bicon, em 1407.
Quando da conversão geral, ordenada por D. Manuel II, os novos cristãos não abandonaram inteiramente o seu bairro, mas deixaram de ser os únicos proprietários dele.
Mercadores com suas lojas, gente de prol, como os Leites, de Ramalde – a sua casa nobre, com frontaria para as Taipas, ainda existe – mais tarde os magistrados e funcionários do Tribunal da Relação, aí estabelecida nos princípios do século XVIII, passaram a viver na Rua da Judiaria Nova agora denominada de S. Miguel, mas extensa que a actual, porque abrangia também a Rua de S. bento da Vitória, de hoje.
Nela, na ermida de Nossa Senhora da Vitória, erigiu o bispo D. Fr. Marcos de Lisboa, uma nova paróquia intramuros.
Voltando aos judeus, e para encerrar esta nótula: D. João I, o monarca que lá no Olival juntara os israelitas portuenses – não deviam ser muitos nessa altura – protegeu-os sempre, concedendo-lhes grandes privilégios, entre os quais, em 1390, o muito estimável de não pousarem fidalgos da Judiaria salvo quando o rei viesse à cidade.
Para sua defesa e garantia, largos portões de ferro fechavam, à noite, o bairro israelita, onde todos tinham sua morada obrigatória.
Disposição esta nem sempre cumprida, porque sabemos de judeus vivendo em Cimo de Vila, no decorrer deste século XV, sem que ninguém a tal se opusesse (documentos do Hospital de Cima de Vila, no cartório da Misericórdia)”.
(*) Artigo publicado em “O Primeiro de Janeiro”, na rubrica “Toponímia Portuense”, em 25 de setembro de 1972.
Na próxima edição de “RUAS” DO PORTO destaque para a “RUA DE SANTA CATARINA”
Foto: pesquisa Google
01jul20
