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Sobre viver a vida no dia eterno

Bruno Ivo Ribeiro

(texto e foto)

 

Do dia eterno fica a certeza que a noite só pode existir se dentro do peito esta habitar. Se dentro viver um dia eterno, não há breu algum que obscureça a luz interior, assim como não há noite que cubra a luz da vela que rasga a escuridão e dilacera o breu.

A noite só é noite, se o dia tiver desistido. E, assim, será sempre dia, se o Sol estiver nos olhos da alma a refulgir, e se no peito de todos se vislumbrar o brilho de cada um.

 

O piano no tempo toca uma sonata ao luar de Agosto, e a lua, tão prenha como imensa, luz sem cessar entre o véu com que Nut cobre a Geb.

Assim cobre o manto da noite a terra, e ante este luar de Agosto, escrevo a prosa que arde no peito, e se o piano lá fora é tocado, é porque a noite o faz soar.

Uma candeia de azeite rega o espírito, e uma luz de cera a arder reavive o facho da escrita. Linha a linha desagua a página na imensidão da noite, e o breu, tão místico quanto simples, é trespassado pela luz da Lua, luz essa que vem servir de véu ao véu da noite, vem revelar o velado, e assim, velado uma outra vez, descobre-se na candeia a esperança do sol da madrugada, que só arde no peito de quem vê na vela a arder a esperança de ver Fósforo refulgir, e não em quem na cera derretida chora a noite de negrume.

O piano mudou de tom, faz-se agora soar num tom grave, quase afónico, e som da noite pesa agora mais que antes. São 3 da manhã de não haver dia, e a noite em breve se finda. Mas antes, reina ainda este luar de Agosto, reina no céu esfíngico ainda Selena, debruada de escuridão mas refulgindo a branca pureza grávida do ciclo já completo. Reina Selene e Nix, e a noite hoje é um panteão que antecede o dia do acordar. A noite hoje não é noite, a noite hoje é dia, e se o gnómon esteirado é a vara já tombada, então que descanse cada qual em seu leito nupcial, mas que seja cada espécie toda a natureza vibrante, e que em cada esquine se vislumbre o sonho, esse sonho da vida ainda não vivida, esse desejo de ver Apolo de perto sem nos queimar.

A noite hoje, para mim não é noite, é dia. É o dia de uma insónia não tida, é dia de uma noite não vivida. Hoje a noite é o dia infindo, é a noite do amanhã insone. Hoje o piano só se faz soar, porque a noite é a música do eterno e solarengo dia elísio, em que a cruz cobria a terra, não a cingindo, antes a beijando.

Na noite em que só resta o dia, não mais há noite nem dia. Na noite em que só Selene abraça Nix e cobre Gaia, Apolo é a luz por detrás do breu que vela a natureza, não para que não seja descoberta, mas para que só se revele, quando a madrugada do ser despontar um dia.

Que seja um sai o Sol a razão de ser, e que em cada flor se descortine a humildade do amor que cada um deve ter com cada qual, para que seja cada crepúsculo o suspiro da aurora, e para que seja Fósforo o outro lado da face de Véspero; não porque a estrela seja ambivalente, mas porque a Vénus é a estrela do amanhã virginal.

Rasgado é agora o céu pelos aurigas Fósforo e Apolo, e de novo reina o astro senhor entre o etéreo e efémero dia a despontar. De novo as plantas louvam a luz que as alimentam, de novo as fontes correm com mais fulgor, e pautadamente abrem os olhos todos os seres.

O piano emudeceu, a música é agora tocada pela Harpa elísia, e hoje, no jardim das Hespérides o dia refulge como nunca antes. Hoje no dia da noite não sonhada mas só vivida, o dia não tem tempo porque o tempo não tem vida. Hoje a vida é sem tempo nem espaço, e aqui no não lugar sem espaço, o tempo não tem tempo, não perde tempo, e não é temporalmente existente. O hoje não tem tempo nem espaço, não tem gramática nem grimório, hoje o ser é não predicado, porque, na noite que sempre foi dia, o dia não se finda nem principia, é o eterno revelamento desvelado por se revelar outra vez, em que Deus é a Natureza e o Ser é a predicação do amor da visão que com o peito, beija as flores rasteiras.

 

©Direitos de Autor Reservados

01jul20

 

 

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2 Comments

  1. Bruno Ribeiro

    Caro Ricardo Guerra,

    Agradeço-lhe, sinceramente, pelo seu comentário.
    Desejo-lhe as melhores inspirações poéticas.

    Com os meus melhores cumprimentos,
    Bruno Ribeiro

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