José Gonçalves
O tráfico e trasfega de drogas, em zonas específicas da cidade do Porto, está neste jornal, sempre na ordem do dia, dado os graves problemas de ordem social e de segurança que os mesmos têm vindo a criar às populações diretamente afetadas com o negócio que envolve milhares de toxicodependentes.
Não ignorando, muito pelo contrário, o esforço que a Câmara Municipal do Porto tem feito no combate a esta atividade ilícita e ao apoio às vítimas deste flagelo, a verdade é que o tráfico de drogas é, hoje em dia, feito à descarada, em plena via pública, sem que a Polícia consiga dar uma resposta cabal ao problema que com ela se cruza. Verdade se diga, porém, é que mesmo que atue, e detenha quem tenha que deter, a Polícia perde de seguida todo o fruto da ação nas decisões dos tribunais que, normalmente, deixam sair em liberdade os detidos.
Este é a análise factual e que, facilmente, se pode fazer das notícias que vêm a público, todas as vezes que a PSP atua em bairros problemáticos da cidade do Porto, onde as drogas são comercializadas e consumidas nas ruas, jardins, becos ou até junto às estações de Metro ou paragens de autocarro.
Esta não é a primeira, nem a décima, mas também não será a última vez que trago aqui este grave problema, e mais ainda quando assisti, na véspera de S. João, em plena estação de Metro do Viso, a um jovem, frente a largas dezenas de pessoas, ajoelhar-se, à luz do dia, perante um “passador” – acompanhado por um grupo formado por cinco indivíduos, com uma rapariga, mais distante a “tirar as medidas” à situação -, para comprar o “produto” de que tanto necessitava.
O jovem teria cerca de 16 anos, não mais do que isso.
Foi humilhado pelo “passador” que o ameaçou alto e a bom som – caso não continuasse ajoelhado – a levar uma verdadeira carga de fasto dos outros elementos do grupo que o acompanhavam.
O rapaz manteve-se de joelhos e só quando viu os ânimos serenarem-se, puxou da carteira e dela saiu – não tenho bem a certeza – uma nota de cinquenta euros.
Das mãos do “passador” surgiu um pequeno saco de plástico, ou coisa parecida, por certo com o produto que tanta falta fazia ao rapaz.
O jovem depois de humilhado, mas sem sentir, com certeza, essa humilhação – tanta era a obsessão pelo “produto”-, levantou-se, e dirigiu-se para o cais da linha dois do Metro do Porto, onde, depois, apareceu um colega ou amigo, seguindo os dois rumo a parte incerta.
O “passador” e companhia – tinha, entretanto, a rapariga que se encontrava de vigia chamado uma viatura, que, por acaso, era um táxi descaracterizado -, saiu do local impávido e sereno, perante o olhar atónito de dezenas de pessoas, rumando, a alta velocidade para Ramalde do meio.
Isto tudo passou-se no dia 24 de junho, pelas 16 horas, na Estação de Metro do Viso, mais concretamente no corredor que liga a estação à paragem de autocarros ali existente.
Não houve receio da presença de polícia. Não houve receio da potencial reação das pessoas que presenciaram a cena sem abrir a boca – pudera! Corriam sérios riscos de serem agredidos, e não se sabe com quê.
Este tipo de episódios são habituais no Viso, e, mais concretamente, na estação de Metro e junto ao supermercado lá existente, já tantas foram as vezes que neste jornal relatei determinados acontecimentos.
Mas, como este, não! Nunca tinha presenciado uma “cena” assim. Tão repugnante, tão humilhante, tão revoltante e triste e, ao mesmo tempo, por, no meio disto tudo, envolver um jovem com cerca de 15/16 anos de idade.
O que fazer? Não sei dizer. Não consigo, de imediato, dar uma opinião, mas, a verdade é que algo tem de ser feito, independentemente, dos esforços – como referi – da Câmara Municipal do Porto quanto ao combate a este flagelo, e a preocupação, também nesse sentido, demonstrada no terreno por responsáveis da CDU-Porto, com destaque para a vereadora Ilda Figueiredo, que periodicamente realiza visitas a pontos problemáticos da cidade do Porto, convidando para o efeito, a comunicação social, e nós vamos com todo o gosto.
Mas, na memória ficará, para sempre, registada esta cena, em vésperas de S. João… faltando saber quantas vésperas como esta tem o S. João, por ano, nesta cidade do Porto.
01jul20
