Maximina Girão Ribeiro
Referimos já, no anterior artigo, a existência da Quinta do Prado, propriedade quinhentista de grande extensão, situada a sul da Quinta de Sacais e, cada uma delas, na posse de dois irmãos.
Mais tarde, em finais do séc. XVI, a propriedade do Prado foi adquirida pela Mitra, por iniciativa do Bispo Frei Marcos de Lisboa para ser uma quinta de recreio da comunidade eclesiástica que aí passava a dispor de uma moradia, usufruindo de um lugar aprazível, debruçado sobre o rio Douro.
No local, não faltavam bons terrenos de cultivo, abundância de água, bons ares e sossego, para que os membros do clero passassem as suas “brévias” de repouso, de convalescença de diversas maleitas mas, também, como local de meditação/reflexão, oração e até de criatividade. A quinta começou a ser conhecida por Quinta do Bispo ou do Prado do Bispo.
Terá sido também D. Frei Marcos de Lisboa que promoveu a transferência e colocação de dois grandes tanques semicirculares que, actualmente, se encontram encostadas ao muro, no lado interior da entrada do cemitério do Prado do Repouso e que, outrora, recebiam a água de um grande manancial que existia nas redondezas. Provavelmente, estes dois monumentais tanques com as suas bicas de água, são os únicos elementos que restam desta antiga quinta dos bispos…
Ao longo dos tempos, a propriedade foi sendo remodelada e melhorada, com jardins, várias fontes em pedra, ricamente decoradas com monstros marinhos e terrestres mas que, hoje, já não fazem parte do local.
Em meados do século XVIII o Bispo D. Tomás de Almeida procedeu a várias remodelações, assim como o Bispo do Porto, D. António de S. José de Castro que, à frente dos destinos da diocese, entre 1799 e 1814, mandou beneficiar esta quinta de recreio com a plantação de árvores e a abertura de uma alameda, com ajardinamento e, no extremo sul da quinta, mandou construir um edifício que tinha como intenção instalar na cidade o Tribunal do Santo Ofício (da Inquisição), instituição que não existia no Porto. O mesmo edifício tinha também como finalidade servir de seminário tendo, em anexo, uma igreja, sob a invocação de S. Victor.
Algumas destas obras foram executadas, já no início do século XIX mas, com a morte do bispo, bem como com os trágicos acontecimentos que atingiram o país (invasões francesas, retirada da família real para o Brasil, queda do absolutismo régio e a difícil implantação do Liberalismo), tudo foram factores que contribuíram para a suspensão deste grandioso projecto, o que teve como consequências o arrendamento de terrenos a vários caseiros, o derrube de obras inacabadas, nomeadamente a igreja e o seminário… Da projectada igreja e seminário, sobrou apenas uma capela que ainda hoje se conserva e que é a capela do Cemitério do Prado do Repouso que, muito provavelmente seria uma das capelas existentes no topo do transepto, do lado do Evangelho, da inacabada Igreja de S. Victor.

Pelo 2.º quartel do século XIX, o bispo D. João de Magalhães e Avelar cedeu parte dos terrenos desta quinta para a construção da cerca do Seminário Episcopal.
Como sabemos, o séc. XIX foi marcado pelo aparecimento das medidas higienistas e da necessidade de se manterem determinadas condições de salubridade entre a população, o que foi desenvolvendo a ideia de que o enterramento de cadáveres, dentro das igrejas, poderia ocasionar perigosas doenças e situações nocivas, o que seria prejudicial para todos aqueles que frequentavam os templos. A necessidade de se criarem cemitérios, de preferência afastados das povoações, foi ganhando cada vez mais simpatizantes a esta causa embora, em Portugal, se registasse, também, uma grande oposição da população, sobretudo dos meios rurais, pouco esclarecida e pouco instruída, assim como a resistência de muitos párocos na aceitação destas medidas legais.
No seguimento da vitória do partido liberal foi assinado um decreto-lei que obrigava expressamente todas as povoações a construírem “(…) Cemiterios Públicos para nelles se enterrarem os mortos”. Este regulamento proibia os enterramentos nas igrejas, em cemitérios particulares e em valas comuns e estabelecia que os enterramentos deviam ficar sob a alçada do Estado. in Decreto-Lei de 21 de Setembro de 1835, art.° 3.- Cf. Collecção completa da Legislação sobre estabelecimento de Cemitérios: enterramentos e transladações.
No caso portuense a escolha do local para a criação de um cemitério, recaiu nos terrenos da Quinta do Prado do Bispo, propriedade da Mitra, sem que esta fizesse, à época; qualquer utilização do espaço. Não se tratou de um processo simples, pois ocasionou um conflito entre a Câmara e o bispo do Porto da altura, D. Manuel de Santa Inês que recusava alienar a propriedade da Mitra.
A dissidência só terminou quando o bispo foi forçado pela rainha D. Maria II a acatar a ocupação da propriedade com destino a cemitério ficando, no entanto, o espaço do seminário, ainda inacabado, salvaguardado para a Mitra, sempre com a esperança de, no futuro, vir a ser construído [é hoje o Colégio dos Salesianos].
Dado que a propriedade reunia as condições consideradas ideais para a instalação de um cemitério, a “cidade dos mortos”, onde se instalariam as últimas moradas de gente anónima e de figuras ilustres da cidade, deu-se início aos trabalhos para adaptar este local para futuros enterramentos
O Prado do Repouso foi o primeiro cemitério público do Porto, inaugurado em 1 de Dezembro de 1839, numa altura em que se vivia uma grande agitação social e política, no país e, pela falta de aceitação desta nova modalidade de enterramentos, nos primeiros tempos, só os mais pobres foram ali enterrados, com direito a sepultura gratuita, pelo que resultou em grande prejuízo para a Câmara Municipal do Porto.

Para credibilizar este local, o primeiro enterramento de uma figura grada da cidade teve lugar logo no dia da inauguração do cemitério, talvez com o propósito de mostrar que este espaço serviria de última morada a qualquer cidadão – tratava-se de alguém que, na sociedade portuense, colhia consensos: o desembargador Francisco de Almada e Mendonça, sucessor de seu pai, João de Almada e Melo, o grande remodelador do Porto. Também o filho esteve ligado a grande parte dos melhoramentos que se fizeram na cidade, nos finais do século XVIII. Francisco de Almada e Mendonça foi também Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, entre 1794 e 1804, além de ter desempenhado os mais importantes cargos políticos e administrativos da cidade, onde geriu avultados capitais mas, quis o destino,… acabou por morrer pobre, em 1804.
Tão pobre que foi um grupo de amigos que pagou o funeral. Primeiro foi sepultado na capela-mor da Igreja de Santa Casa da Misericórdia do Porto, mas em 1839, a expensas da Câmara do Porto, os seus restos mortais foram trasladados para o novo cemitério, como forma de legitimar este espaço de enterramentos, onde já estava instalada a primeira secção privativa do Cemitério, a da SCMP embora, mais tarde, passassem a existir outros “cemitérios privativos” dentro do cemitério municipal. O da SCMP situa-se junto ao portão Norte e ostenta um portão ainda maior do que o do cemitério principal. Nessa secção foi erguido um mausoléu a Francisco de Almada e Mendonça, com um busto da autoria de Soares dos Reis, colocação que só aconteceu mais tarde, em 1883.

Na secção da Santa Casa salienta-se a Capela Geral, com planta oitavada e com uma cúpula rematada por uma cruz. Além desta capela, existem vários jazigos com interesse histórico-artístico, os quais chamam a atenção pela sua grandiosidade, como é o exemplo do obelisco encimado por um fogaréu em mármore e o do Dr. José Plácido Campeam, grande benemérito da Santa Casa, à qual legou a sua enorme fortuna. No entanto, é o mausoléu onde repousam os despojos dos Mártires da Liberdade, um túmulo imponente, todo feito em granito e rematado por uma pirâmide que, entre todos os outros sobressai pelo seu simbolismo, pois alberga os 12 liberais enforcados pelo regime absolutista de D. Miguel, mortos na Praça Nova, hoje Praça da Liberdade, pagando com a vida, pelo único “crime” que era o de lutarem pela liberdade no seu país.

Mas, por todo o cemitério se encontram locais de cariz muito emblemático, como é o caso do ossário dos bombeiros municipais, ou a homenagem às vítimas do 31 de Janeiro de 1891, o chamado monumento «aos vencidos», evocando a memória dos que tombaram na Revolta Republicana, a primeira tentativa, em Portugal, para derrubar a monarquia.

Salientam-se por todo o lado bons exemplares escultóricos representando a saudade, a bondade, a fé, a caridade, ou os anjos que pedem silêncio, com os dedos encostados aos lábios de pedra. Existem as colunas encimadas por fogaréus ou por estátuas, os montes de pedras rematadas +
por cruzes,… Nas campas e jazigos abundam símbolos como o cão que representa a fidelidade, a serpente como sinal de eternidade, a ampulheta que representa o tempo, as papoilas que simbolizam o sono eterno… Assim como outras representações associadas à morte, tal como mortalhas, urnas, mochos, asas de morcego… Também se encontram elementos mais macabros como crânios e as tíbias, elementos que restam após a carne ser consumida pela terra.
O Cemitério do Prado do Repouso principia no Largo Soares dos Reis, local que no passado era o fim da rua do Reimão [hoje avenida Rodrigues de Freitas]. Anteriormente chamou-se Largo do Prado, por ficar fronteiro à quinta do Prado e, mais tarde, largo do Repouso. Desde Agosto de 1860 denominou-se Campo do Prado do Repouso. Finalmente passou a chamar-se Largo Soares dos Reis, em homenagem ao grande escultor gaiense. Este local fez, no passado, parte da alameda do Prado do Repouso.
Na entrada sul, junto do Largo Padre Baltazar Guedes localiza-se a capela principal do cemitério, um belo exemplar do neo-clássico, de planta octogonal. A obra promovida no tempo do bispo D. António de S. José de Castro apresenta uma decoração de excepcional qualidade, do melhor que, nessa época foi feito no Porto. As paredes estão cobertas com estuques brancos e dourados e pintadas de cinzento e rosa marmoreado e foram executados por Luigi Chiari, um artista italiano de grande reputação que foi arquitecto, pintor, decorador, cenógrafo, deixando a sua marca em vários edifícios da cidade do Porto. Outro grande pintor da primeira metade do século XIX, Joaquim Rafael (1783 – 1864), trabalhou nos estuques e pinturas da cúpula.
Hoje, a antiga quinta do Prado, é um local onde se evidencia a arte cemiterial, com peças de arquitectura e escultura oitocentista de relevante valor patrimonial. Desde o neogótico, (“pastiche” do séc. XIX), até à monumentalidade dos jazigos-capela ou os mausoléus, até outras construções de valor histórico e artístico, entre as quais sobressai a capela do cemitério, ou o ossário das freiras do antigo Convento de S. Bento de Ave Maria, incrustado na parede e rodeado por um portal manuelino, proveniente do mesmo extinto convento. Com a demolição do convento para dar origem à estação ferroviária, os restos mortais das abadessas e das freiras que haviam sido sepultadas nos claustros ou no interior do templo do convento, foram trasladados para este cemitério.

Destaca-se também um enorme crucifixo em ferro, na alameda principal, virado na direcção da saída Norte. Este monumental crucifixo terá estado exposto no Palácio de Cristal, aquando da Exposição Internacional do Porto, em 1865. Muito perto deste crucifixo encontra-se um intrigante jazigo que parece uma gruta, coberta de pedras e protegida por uma grade de ferro, imitando troncos de árvores. Trata-se da última morada do alfaiate António Pereira Baquet, o fundador do célebre Teatro Baquet, que ardeu em 1888.

O cemitério do Prado do Repouso é considerado um museu a céu aberto, um verdadeiro «Museu da Morte», hoje incluído em roteiros turísticos para que sejam observadas e admiradas as magníficas obras aí expostas, cuja autoria é de grandes mestres portugueses.
Obs: Por vontade da autora e, de acordo com o ponto 5 do Estatuto Editorial do “Etc eTal jornal”, o texto inserto nesta rubrica foi escrito de acordo com a antiga ortografia portuguesa.
01ago20



Adorei o que escreveu. Gostei muito. Andava à caça do Palácio do Bispo onde se iria colocar a pólvora (dos Franciscanos) em 1838, mas não li nada aqui. Suponho que fosse o futuro Seminário. É a única hipótese! Obrigado!
Artigo de muito interesse para a historia da nossa cidade e o Porto.