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Gente ilustre

Joaquim Castro

 

 

Quando ouço gente, às vezes tão ilustre, aparecer nos meios de comunicação social a fazer discursos cheios de palavras e de frases fora das regras gramaticais, fico desolado. E pergunto-me: como conseguiram essas pessoas atingir elevados graus académicos? A situação não é nova, mas tende a agravar-se. De que vale a nossa RTP, o canal público pago por todos nós, emitir, e bem, programas sobre Língua Portuguesa, se os próprios jornalistas e outros comunicadores do canal andarem a dar pontapés na gramática? Afligi-me ter de ouvir pronunciar palavras e frases, como: “defenir”, “decedir”, “destribuir”, “menistro”, “defesa cevil”, “construção cevil”. Mas há outras bem piores, que não são aqui referidas.

Aprendi que são pessoas preguiçosas, que usam a lei do menor esforço, para elaborar os seus discursos, sem se cansarem muito! Há dias, no mês de julho de 2020, um secretário de Estado que falava sobre a Pandemia, começou por responder com um “se me desser”, em resposta a um jornalista. Olha, “desser”, e vez de disser. Soou tão mal. Diariamente, tomo noto de centenas de imprecisões de pronúncia de palavras. E pergunto-me: como é possível tanta incúria no uso da Língua Portuguesa? E quando ouço “Paço di Arcos”, “Borda di Água”, “palavra di ordem”, “dezassete i horas”, quarto di hora”, tento perceber que fenómeno é este. Mas não encontro explicação.

VOLTAMOS… PORQUE

Voltamos ao tema, já aqui tratado, “por que”, quando usado no início de frases interrogativas, pode ser substituído por pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais, por que (qual) motivo.

E como se faz muita confusão no uso do “por que” e do “porque”, damos alguns exemplos práticos do uso de uma e de outra forma:

Por que tu não estudaste a lição? (Por qual motivo tu não estudaste a lição?).

Por que temos de economizar na energia? (Por qual motivo temos de economizar energia?).

Exemplos de “por quê” no fim de uma frase: Tu hoje não estudaste a lição, por quê? Estava triste sem saber por quê. Tu não gostas de peixe, por quê?

Exemplos para explicar uma causa: Ele não estudou a lição porque não a soube interpretar. A pesca foi cancelada porque o mar estava muito agitado.

Exemplos de porquê, quando tem o artigo o antes dele: Não sei o porquê desta confusão. Tu não explicaste o porquê da tua falta.

Aprender o uso dos porquês é muito útil para a escrita.

DA TERRA À LUA EM PAPEL DOBRADO!

Nas conferências de imprensa sobre a Pandemia, é corrente a utilização do termo exponencial para salientar os elevados números de infectados e de mortos. Pois bem, esta expressão é exagerada, se atendermos ao que ela significa. Ou seja, numa progressão exponencial, os casos da pandemia duplicariam em dobro: 1 caso, 2 casos, 4 casos, 8 casos, 16 casos, 32 casos, 128 casos, 256 casos, e assim sucessivamente. Que nos livrem de tal progressão. Já estaríamos todos mortos!

Há dias, ouvi um académico falar sobre crescimento exponencial. Segundo ele, se dobrarmos uma folha de papel ao meio 103 vezes, ela ficará com a espessura do universo. É o tal crescimento exponencial. Um conceito erradamente utilizado nas estatísticas da Covid-19.

Afinal, se dobrarmos sucessiva e perfeitamente o papel ao meio, vamos dobrar a sua espessura. Ao dobrar o papel pela terceira vez, ele terá a espessura de um prego. Na sétima dobragem terá a espessura de um caderno de 128 páginas. Com 23 dobras chegamos à espessura de um quilómetro.

Com 30 dobras, dá para chegar ao espaço, pois o papel terá 100 km de altura. Sem ir mais longe, com 42 dobras, diz-se que dá até à Lua e que com 51 dobras chega até ao Sol. Perante esta teoria, o que seria de nós com o crescimento exponencial dos números da Covid-19!

COMENTADORES DE PRIMEIRA LINHA

Nem sempre, os comentadores mais badalados da nossa Comunicação Social dão garantias de uma boa utilização da Língua Portuguesa. Há dias, o conhecido jornalista João Gobern dizia na Antena 1 que fulano de tal “era um dos que tinha” escrito episódios pouco conhecidos de Amália Rodrigues. Ora, só poderia ter dito que “era um dos que tinham” escrito episódios pouco conhecidos de Amália Rodrigues. Já aqui falámos nessa questão, por ser um erro comum de muito boa gente. E como João Gobern é também comentador desportivo, registei que um outro comentador afirmou que “Jorge Jesus “despensa” apresentações. Por isso, considero que os Provedores do Ouvinte e do Telespectador, que falam sobre casos de programação da Televisão e da Rádio, também se deveriam debruçar sobre as calinadas que abundam nesses canais e fazer as necessárias correcções. É pena que o não faça, ficando com o trabalho incompleto.

PLURAIS POUCO SIMPÁTICOS!

Ouvi uma correspondente da televisão SIC, em 8 de julho de 2020, a falar sobre a concessão de apoios monetários a alguns países, atribuídos por países considerados mais ricos da União Europeia. Segundo a jornalista, uma reunião de políticos para discutir o tema tinha tido vários “revés”. Contudo, o plural de revés é reveses. Também existe o termo “revezes”, mas não é a mesma coisa. “Reveses” e “revezes” são coisas diferentes. Revezes vem de vez e dá origem à palavra revezar. Para complicar, ainda existe a expressão “revezes”, pronunciada com “e” fechado, que se emprega unicamente nas locuções “a revezes” e “às revezes”, que é como quem diz, de vez em quando. Já agora, os navios têm o convés e os conveses.

QUAL DELAS A PIOR

Há frases que se transformam em sinal de ignorância e de falta de cultura, por quem as profere. E, é claro, que a forma como escrevemos ou falamos diz muito de nós. Diz-se que há pessoas que perdem um emprego por causa disso e outros que perdem um grande amor, por causa do que escrevem ou do modo como falam. Por exemplo, as expressões “há uns meses atrás“ e “aqui a atrasado”, são das frases mais corriqueiras que conheço, sobretudo, no discurso oral. “Há uns meses atrás, estive com gripe”. Bolas, nem poderia ser “há dois meses à frente”! E o “aqui a atrasado”, ultrapassa toda a imaginação. O assunto não é novo nesta rubrica do Etc e Tal Jornal. Mas foi por ou vir a frase “há uns meses atrás”, na reposição do programa Malucos do Riso, da SIC, que incluo este tema de novo. Mas lembro esta outra expressão, entre muitas: “aquela escola que eu andei”. Ou seja, deve ter sido dito ou escrito, “aquela escola em que eu andei”.

SÉRGIO CONCEIÇÃO ULTRAPASSA MARTE TEMIDO

Há dias, em julho de 2020, parece-me que Sérgio Conceição bateu todos os recordes na utilização da tão badalada expressão “aquilo que… ”, para abrilhantar as suas frases. “Aquilo que”, assim, “aquilo que”, assado, “aquilo que…”, frito, “aquilo que “, cozido. Dessa vez, foi mesmo um recorde nesta matéria. Bem sei que o tema já foi aqui tratado, mas a chusma de vezes que o treinador do Futebol Clube do Porto utilizou na frase, em conferência de imprensa, deixou-me impressionado. Teve outras expressões do género, como estas: “aquilo que são os nossos objectivos”, “aquilo que os meu jogadores fazem”. Tantos “aquilos que…”! Deste modo, o treinador do Futebol Clube do Porto foi também um campeão nesta matéria, deixando para trás Marta Temido, a ministra da Saúde. Mas esta moda também já bateu à porta do nosso presidente Marcelo, assim como à de muitos outros políticos. É caso para dizer, esta “doença” é contaminante!

DEBAIXO DE UMA PONTE!

No mês de junho de 2020, um autocarro do Benfica foi apedrejado, “debaixo de uma ponte”. Foi assim que ouvi narrado num canal de televisão, acompanhado de vídeo ilustrativo. Logo pensei que esse autocarro ia pelo rio abaixo ou pelo rio acima e que foi apedrejado por quem estava na ponte. Mas não havia ponte alguma. O que havia era uma passagem superior, a de cima, e uma passagem inferior, a de baixo. É deste modo que se designam os cruzamentos rodoviários, quando são desnivelados, por razões de segurança ou por desnível dos respectivos arruamentos que se cruzam. Conclusão: não era um autocarro anfíbio nem passou debaixo da ponte. As pedradas, sim, infelizmente, foram confirmadas.

 

Nota: Por vezes, o autor também erra!

 

Fotos: autorpesquisa Net

 

01ago20

 

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